Radionovelas de Florianópolis são tema de Tese na França

Ricardo Medeiros defendeu na quarta-feira, 06/09/2004, a tese  “Radionovela e Publicidade: memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960”. Nesta matéria, um resumo da tese.

[Por Dieve Oehme]

Na década de 60, o rádio estava presente em quase todos os lares florianopolitanos. As radionovelas eram a “coqueluche” dos ouvintes, que gostavam de imitar os personagens dos dramas radiofônicos, ao mesmo tempo em que se deixavam influenciar pelas mensagens publicitárias veiculadas nos intervalos da programação. Essa relação entre os dramas, as publicidades e os ouvintes na emissora de maior audiência de Santa Catarina há mais de 40 anos são o tema da tese de doutorado “Radionovela e Publicidade: memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960”. O trabalho acadêmico, desenvolvido pelo jornalista e escritor Ricardo Medeiros, será apresentado na próxima quarta-feira, 06, na França, com transmissão simultânea por videoconferência para Florianópolis, através da UFSC. A apresentação da tese está marcada para às 9 horas, no Laboratório de Ensino à Distancia, na UFSC (14 horas, na França) e é aberta à participação do público interessado nos dois países.

Desde 2001, Ricardo Medeiros está ligado ao Departamento de História da Université du Maine, da cidade de Le Mans, onde desenvolveu a tese sobre o processo de recepção das radionovelas e das mensagens comerciais dos patrocinadores na antiga Rádio Diário da Manhã, atual CBN Diário, em Florianópolis. Através de uma convenção entre Brasil e França, o jornalista pôde contar com dois orientadores durante a pesquisa. Pelo lado francês, Medeiros foi orientado pela doutora em História Contemporânea, Brigitte Waché, enquanto que a orientação brasileira se deu através do doutor em Jornalismo Eduardo Meditsch, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A preocupação com o tema rádio, deve-se ao fato de que apesar do veículo existir desde 1920, são raros os estudos que se concentram em analisar como as mensagens transmitidas por esse meio são recebidas e processadas pelo público. Para desenvolver a tese de doutorado foram colhidos o depoimento de ouvintes, publicitários, pessoal da parte artística e técnica de radionovelas, produtores de programa, diretores de rádio, psicólogo e produtor musical.

A TESE

A tese do jornalista se divide em duas partes. A primeira, composta por três capítulos, faz uma retrospectiva da origem das radionovelas e sua exploração comercial. Relata que, naquela época, os romances saiam das páginas de livros e jornais para serem interpretados no rádio, via a Soap-ópera americana ou dramas cubanos, gêneros direcionados às donas-de casa, e que desde o início foram bancados por empresas de produtos de sabão. Anos mais tarde, o estilo cubano de fazer novelas se espalhou pela América Latina, levando à reboque os patrocinadores tradicionais que usavam da propaganda para “vender”  às donas-de-casa os mais variados produtos. Nesse contexto, o pesquisador enfoca a origem e o desenvolvimento dos dramas radiofônicos na capital catarinense, que conviveram inclusive com o apoio publicitário de multinacionais. A tese também trata sobre as modalidades de diversão dos ouvintes, os hábitos particulares para audição dos dramas e a relação com os personagens e os atores dos folhetins.

A segunda parte do trabalho, com outros três capítulos, aborda os temas de propagandas lembradas pelos ouvintes, além de analisar jingles e spots inseridos no momento das novelas. São enfocadas também táticas utilizadas para persuadir o público e o grau de influência da publicidade sobre as compras da população. Também é dada uma atenção especial aos parceiros publicitários das histórias seriadas, em nível local, estadual e nacional, passando ainda pelos patrocinadores multinacionais dos folhetins, empresas americanas e européias que anunciavam na emissora de Florianópolis.

OS OUVINTES

Para viabilizar a pesquisa, o jornalista Ricardo Medeiros veio a Florianópolis, em 2002, realizar uma enquete junto ao ex- público da Rádio Diário da Manhã na Grande Florianópolis. No total, foram preenchidos 57 questionários, que continham perguntas em torno dos eixos radionovela-publicidade e radiouvinte. O questionário traçou um perfil do entrevistado fazendo uma ligação entre o momento atual e o vivido na década de 60. O objetivo da consulta era registrar o que as novelas de rádio falavam; que influência os dramas radiofônicos exerciam no cotidiano do ouvinte; lembranças quanto ao nome de radionovelas, atores, atrizes e personagens interpretados; e a freqüência de audição, entre outros assuntos. A pesquisa também contemplou a publicidade, registrando, segundo a memória dos entrevistados, o nome de propagandas, produtos anunciados, patrocinadores e a influência dos reclames via radionovela na compra de produtos.

Em relação ao perfil dos ouvintes, a pesquisa revelou que na década de 1960, majoritariamente, os entrevistados eram donas-de-casa (35,1%). Outros 28,1% eram estudantes nesta época, enquanto que 36,8% dos consultados estava dividido entre funcionários públicos, costureiras, professores e outros profissionais. A idade média dos entrevistados é de 61 anos, sendo que o mais novo possui 38 anos e o mais velho 77 anos. Quarenta e três deles (75,4%) moram em Florianópolis, 13 (22,8%) em São José e 1 (1,8%) em Palhoça. Ao todo, 52,6% dos ouvintes entrevistados declararam que pertenciam à classe média e 40,4% à classe baixa. Apenas 7 % disseram pertencer, nos anos 1960, à camada carente da população brasileira. Das 57 pessoas entrevistadas, 47 (82, 5%) são do sexo feminino e 10 (17,5%) são do sexo masculino.

Quanto à audição dos folhetins do rádio, a maior parte dos ouvintes revelou que escutava as radionovelas em suas casas, percentual que atingiu 89,5%. Esta preferência pode ter relação com o fato de que a maioria das pessoas, nos anos 1960, já tinha um receptor de rádio em casa. Outro dado interessante é que o veículo rádio se mostrou um elo para reunião familiar. Mais de 50% dos ouvintes ouviam as novelas em família. Ou seja, a população de Florianópolis escutava os capítulos radiofônicos com a mãe ou pai, esposa, filhos, irmão, irmã, avó, avô, sobrinho ou sobrinha. Outros 32% dos ouvintes acompanham as radionovelas em casa, sozinhos. Havia também um grupo, 14%, que escutava as novelas na casa dos vizinhos.

Para acompanhar as radionovelas, a maioria dos ouvintes da Rádio Diário da manhã (56%) disse que escutava histórias seriadas todos os dias da semana, o que dimensiona a audiência dos folhetins e a fidelidade do público em Florianópolis. Por outro lado, 22,8% dos entrevistados responderam que escutavam as radionovelas esporadicamente e 21% as escutavam somente alguns dias por semana. O período do dia preferido para acompanhar os dramas era o da noite. Quase 30% das pessoas escolhia este horário para ficar sintonizado na Rádio Diário da Manhã. Por seu turno, 24,6% dos ouvintes estavam na escuta dos folhetins somente pela manhã, enquanto que 19,3% se dedicavam às histórias radiofônicas somente à tarde. O questionário revelou ainda outras preferências de horário, mas numa amostra menor.

INFLUÊNCIAS DO RÁDIO

Mesmo sem o recurso da imagem, as radionovelas conseguiam prender a atenção dos ouvintes. A maior parte dos entrevistados, 70%, declarou ter chorado, enquanto acompanhava algum drama radiofônico porque as histórias eram: emocionantes (48%), tristes (17%), mexiam com os sentimentos do público (14%), porque havia sofrimento nas histórias seriadas (8,5%), por causa do poder de interpretação dos radioatores (3%), por causa da dramatização (3%), ou porque os ouvintes eram muito « chorões » (3%).

A tese de Medeiros concluiu também que boa parte dos interrogados por questionário, 63%, concordaram que os personagens de radionovelas os influenciavam na vida cotidiana. Os motivos eram diversos: o público imitava os personagens (51,7%), a população batizava suas crianças com nomes de personagens das ficções (6,8%), o público ficava com raiva dos vilões e vilãs das radionovelas (6,8%), os personagens incitavam os ouvintes ao sofrimento (6,8%), os ouvintes tornavam-se mais emotivos por causa dos personagens (6,8%), através dos personagens o público assimilava lições de vida (6,8%), as pessoas tornavam-se mais amorosas (3,4%), os personagens interviam na convivência de um casal de namorados (3,4%), a população tinha vontade de viver os momentos românticos das radionovelas (3,4%), e a população se identificava com a forma de ser dos personagens (3,4%).

PUBLICIDADE

Como veículo de massa, o rádio levou a sério o ditado popular que diz « A propaganda é a alma do negócio » e investiu nas mensagens publicitárias para influenciar nas compras dos ouvintes. A estratégia deu certo em 78% dos entrevistados através de questionário. Segundo eles, os produtos mais comprados sobre o impacto da propaganda eram os de toaletes, como creme dental, sabonete e talco ; ou os medicamentos, entre eles, analgésicos, laxantes e fortificantes.
Uma parte significativa dos ouvintes, ou seja 56%, ainda se lembraram 40 anos depois, do conteúdo das publicidades que passavam na RDM durante as radionovelas. Aliás, a maior parte dos reclames eram trechos de jingles, como o  «melhoral, melhoral é melhor e não faz mal» ou «pílulas de vida do Doutor Ross fazem bem ao fígado de todos nós». Uma explicação para isso vem do publicitário Lula Vieira, da V& S Comunicação, que diz que o jingle tem muita força junto ao público, uma vez que a memória coletiva do brasileiro é impregnada de sensibilidade musical.

Quanto aos patrocinadores, mais da metade dos questionados se lembrou de nomes de empresas que apoiavam financeiramente as interpretações radiofônicas. Isto implica dizer que 52% do público manteve na lembrança o nome das companhias que anunciavam suas mercadorias na hora das radionovelas. A empresa mais lembrada pelos ouvintes foi a Gessy Lever, do Grupo anglo-holandês Unilever. Em segunda posição ficou a rede de lojas A Modelar, de Florianópolis, e em terceiro lugar a empresa americana Colgate Palmolive.

O AUTOR

Ricardo Medeiros, 41 anos, é especialista em jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e Mestre em História pela Université du Maine (Le Mans – França), onde está concluindo o seu doutorado. Relacionado diretamente com o meio radiofônico, publicou “Dramas no Rádio – a radionovela em Florianópolis nas décadas de 50 e 60” e “História do Rádio Em Santa Catarina”. Investindo nessa paixão pelo mundo do rádio, em 2005, Ricardo Medeiros lança, em conjunto com o publicitário Antunes Severo, a obra “Caros Ouvintes”, que aborda os 60 anos do rádio na cidade de Florianópolis. Ao retornar para o Brasil, o jornalista assume as suas funções como repórter da Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura da capital.

A banca de defesa da Tese foi composta por três professores franceses da Universidade do Maine, de Le Mans e dois brasileiros da Ufsc. A comunicação dos integrantes foi possibilitada pelo sistema de videoconferência, exibido em Florianópolis, pelo Laboratório de Ensino à Distância no Campus da UFSC.

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