Reconstruindo o Miramar

O Miramar vai ser reconstruído, deu no jornal. A notícia correu de boca em boca e os saudosistas amanheceram entusiasmados.

Já me vi degustando um bom café numa tarde fria de Vento Sul, e a agendar um encontro ou reunião em seu belo pavilhão: – Combinado. Te espero no Miramar…

Miramar, na década de 1960. Foto: Desterro Hoje, site do compara paisagens antigas e atuais em Florianópolis.

Miramar, na década de 1960. Foto: Desterro Hoje, site que compara paisagens antigas e atuais em Florianópolis.

Passada a surpresa e o tempo exato da mais rasa reflexão, logo vieram as dúvidas, as objeções, as críticas. Alguns, como sempre, apontam necessidades mais prementes – escolas, postos de saúde, a mobilidade urbana, etc -, outros questionam o local, os custos e a utilidade do equipamento.

Ainda que reerguêssemos as paredes do Velho Trapiche empilhando os seus mesmíssimos tijolos, ainda que os enfeitássemos com a mesma argamassa que os recobria, ainda que sustentássemos os mesmos caibros e as mesmas telhas sobre as velhas colunas que bravamente resistiam ao Vento Sul – o que é impossível -, ainda assim o Miramar não poderia ser reconstruído, pois ele era mais do que suas paredes.

Empilhamos as pedras, mas como reconstruir as histórias, as lendas, as intrigas, as desavenças resolvidas na “ponta da faca”, os romances, os risos, e também as lágrimas, vivenciados sob seus balaustres e vitrais? Como recuperar as noites boêmias, o vai-e-vem dos lanchões que faziam a travessia de pessoas e víveres dos rincões da Ilha e do Continente? Como reeditar o espetáculo da descida dos hidroaviões sobre as águas nem sempre calmas da Baía Sul? Como reunir novamente os “pescadores” de moedas, exímios mergulhadores mirins? Aliás, como devolver o mar ao centro de Florianópolis?

Vejo com bons olhos a prospecção das suas ruínas prometida pelo projeto, e a construção de um memorial digno do nome, reverenciando os antigos contornos da Cidade, a presença do mar, o velho pavilhão. Mas só isso. O Miramar está perdido para sempre. Patrimônio se preserva. Atualiza-se, buscando novos usos no contexto das cidades.

O que podemos aproveitar do Miramar é a lição da inutilidade da sua demolição. E pouco importa se ele tinha um estilo arquitetônico confuso ou equivocado, como dizem os técnicos e puristas. A memória é afetiva e não amamos apenas o que é bonito ou perfeito. Amamos aquilo que tem significado para nós, o que faz parte da nossa história. É o caso do Miramar.

Recebo a notícia da sua “reconstrução” como uma metáfora, afinal, o Superintendente do IPUF é Dalmo Vieira Filho, um profissional tarimbado, de larga experiência, que sabe do que está falando. A notícia só pode ser alvissareira se sinalizar uma mudança de mentalidade dos gestores em relação ao nosso tão maltratado patrimônio arquitetônico.

Pelo Miramar não há o que fazer. Mas, restam muitas construções à espera de uma inteligente, e amorosa, intervenção, como a que propõe o projeto Casas Adormecidas, em Portugal.

“Um pouco por todo o país existem casas que parecem dormir. Estão apenas à espera que alguém se apaixone por elas, as recupere e desperte para uma nova vida. São muitas as aldeias, do Minho ao Algarve, cheias de casas antigas, tantas vezes degradadas e abandonadas. De pedra, taipa ou adobe, estas são casas adormecidas, mas que a qualquer momento podem despertar”.

Para saber mais: Casas Adormecidas – EcoCasa Portuguesa

1 responder
  1. eno josé tavares says:

    RECONSTRUINDO DOIS” MIRAMAR”
    partamos do principio,de que nós temos no sangue uma velha bactéria:”A DEPENDÊNCIA DO ESTADO PATERNALISTA”.Ou seja,bom ou mau governo,espera-se sempre pela iniciativa governamental.A propósito do “MIRAMAR”,faço uma analogia sobre o dramalhão do Mercado Público de Florianópolis…Patrimonio Material e Cultural da Cidade,fugiu aos seus objetivos de centro de abastecimento e apoio ao produtor rural e marítimo.Ou seja:A ALA SUL ,comportaria “loja” de venda de peixes e demais frutos do mar, e,a ALA NORTE,teria como objeto principal a venda de hortifrutigrangeiros,e,a produção do CINTURÃO VERDE DA GRANDE FLORIANÓPOLIS.Ponto final…Porém aquele detalhe da proteção do Governo Amigo dos Amigos,foi praticado por cerca de cinquenta anos,desaguando naqule estardalhaço da”insegurança jurídica”,dos ocupantes históricos das duas alas,quendo foram desvirtuando na casa do Poder Judiciário,aquelas finalidades,com botecos,restaurantes e outros abortos mentais,de quem governava a cidade…No caso espedcífico”MIRAMAR”temos um fato irreversível,que é a extinção do referido edifício,transformado em um ridículo socorro a débeis mentais…Aquilo alí,com aquela fachada absurda e aqueles simulacros de falos de alvenaria,há muito já poderia ter sido colocado em concorr

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