Repórter Esso: bom para o Brasil ou bom para os Estados Unidos?

Durante os anos 1920 e 1930 as notícias de rádio são aquelas recortadas dos jornais e lidas ao microfone pelo locutor que está presente no horário. Tesoura e cola são os únicos recursos disponíveis para o jornalismo deste meio de comunicação.
Por Ricardo Medeiros

Este panorama muda na década de 1940 quando surge o noticiário mais famoso de todos os tempos, o Repórter Esso, patrocinado pela multinacional americana Standard Oil New Jesey, a Esso. O informativo entra pela primeira vez no ar às 12h45 do dia 28 de agosto de 1941. A testemunha ocular da historia, pois este é o seu slogan, noticia naquele dia a invasão da região da Normandia  por tropas da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.
Com 4 edições diárias de cinco minutos, além das edições extraordinárias, é o informativo de maior credibilidade do jornalismo brasileiro, colocando em prática finalmente uma linguagem própria para o rádio. As notícias são redigidas levando em conta as normas de redação específicas para o veículo. É observado o uso  de frases curtas, intercaladas com frases médias. As notícias igualmente não podem ser muito longas, que ultrapassem a 8 linhas. O informativo também não faz comentário sobre as notícias e sempre fornece as fontes dos fatos relatados.
No início o Repórter Esso é transmitido nas rádios Nacional (RJ) e Record (SP), estendendo-se mais tarde para as emissoras Inconfidência Mineira (MG), Farroupilha (RS), Clube de Pernambuco (PE), Rádio Tupi (SP) e Globo (RJ).
No ano de 1944 há um concurso para escolher as vozes padrões do noticiário em cada região. Ou seja a partir daquele momento o Repórter Esso será apresentado somente por um locutor,  exclusivo do informativo. Para a Nacional do Rio de Janeiro ganha a disputa Antonio Salgado, um gaúcho que pela oposição de sua família  não deixa Porto Alegre para habitar no Rio de Janeiro. O segundo colocado, também gaúcho, Heron Domingues, assume a vaga e fica neste cargo durante 18 anos. Na outra emissora do Rio, a Rádio Globo, a voz padrão é de Roberto Figueiredo, enquanto que nas estações de São Paulo Romeu Fernandes é o titular da Record e Dalmácio Jordão da Rádio Tupi. Pela Rádio Farroupilha, de Porto Alegre o locutor é Lauro Haggemann, sendo que na Rádio Inconfidência Mineira assume o posto Aloísio Campos.
O jornalista Reynaldo Tavares (1997) conta uma histórria no mínimo curiosa sobre o Repórter Esso e seu titular. Em 1945, Heron Domingues tem uma obsessão : a de transmitir em primeira mão o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo em vista que o ponto final do conflito está próximo. Para tanto, o radialista arma diversas estratégias, entre as quais literalmente armar uma barraca no estúdio da Rádio Nacional à espera de um telegrama de uma agência internacional  dando conta  da rendição alemã.
Depois de duas semanas de acampamento Heron Domingues é convencido pelo assistente do departamento artístico, Paulo Tapajós, a levantar barraca. O combinado é que Heron Domingues deixaria uma fita gravada dando a notícia do fim da guerra, que seria colocada no ar imediatamente após a confirmação do cessar fogo em definitivo na Europa.
É assim que no dia 8 de maio de 1945, quando o titular do noticiário está em sua residência, vem a noticia aguardada. Na emissora é a maior correria em busca da fita gravada por Heron Domingues. Para localizá-la a equipe da Nacional leva um bom tempo. O primeiro a dar as últimas, como é também conhecido o Repórter Esso, na verdade não o faz. Cabe o mérito à Rádio Tupi do Rio de Janeiro, através de Décio Luiz, divulgar com exclusividade o fim da Segunda Guerra Mundial. Resta o consolo ao pessoal da Nacional e a Heron Domingues da população só acreditar no término do conflito após ouvirem o Repórter Esso.  
O noticiário fica no ar durante 27 anos e a última edição é ouvida pelas ondas da Rádio Globo. A voz embargada de Roberto Figueiredo dá adeus, exatamente  às 21h55 de 23 de dezembro de 1968, ao noticiário que até os dias de hoje é lembrado pelos contemporâneos da era de ouro do rádio.
Origens
O Repórter Esso surge nos Estados Unidos em 1935. A elaboração do programa é da agência de publicidade McCann-Erickson que se baseia nas notícias distribuídas pela agência norte-americana United  Press Associations (UPA). O Repórter Esso é considerado como a primeira síntese noticiosa do planeta, concebida com caráter globalizante.
Além do Brasil, o noticioso passa a ser transmitido também na Argentina, Uruguai, Venezuela Chile, Peru, República Dominicana, Cuba, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Nicarágua, Panamá e Porto Rico.
A difusão do informativo em várias partes da América Latina é uma das estratégias norte-americanas de solidificar a implementação da Política da Boa Vizinhança, fazendo uma aproximação econômica e cultural entre os Estados Unidos e os demais países. 
Paradoxalmente, o Repórter Esso apresenta dois vencedores. Primeiramente ganha o governo americano que consegue passar as suas idéias, o american way of life, através do noticiário. O Brasil também é vitorioso. O radiojornalismo tupiniquim nunca mais será o mesmo, uma vez que estará atento para uma linguagem voltada para este meio de comunicação.
 Última Edição do Repórter Esso (WMA)


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