Réquiem para a Ilha Encantada

É certo e histórico que a população de Desterro (depois Florianópolis e atualmente Floripa) jamais zelou pelas orlas da Ilha Encantada. Primeiro, por preguiça, comodismo ou mera ignorância os dejetos humanos e de animais eram descartados nas areias das praias ou direto nas águas das baias norte e sul. Com esse tratamento deprimente criou-se a “cultura” de que ali era a lixeira do povoado, que depois virou vila, que é cidade e que continua ignorando o sistema de esgoto e jogando seus dejetos nos valos, valetas e rios que compõem a malha hídrica da ilha e parte continental da cidade. Isso sem considerar que ainda hoje existem habitações residenciais, casas comerciais, órgãos governamentais e templos religiosos que continuam ignorando as normas básicas de higiene e sanidade indispensáveis à preservação e manutenção da saúde.

Como consequência lógica e imediata o uso das águas do mar era descartado para o banho e a prática de esportes ou mesmo a pesca de subsistência.

O mar servia para lavar bois (aliás o gado vinha a nado ao lado de embarcações atravessando a baia sul da Terra Firme para a Ilha Encantada) e lavar porcos (não estou falando dos donos dos bichos), também servia para “assear cavalos, fossem de montaria, tração ou para outros fins”.

É de se imaginar uma daquelas noites de “calmaria e maresia” naqueles baixios que se formavam, a ratalhada  remexendo o lixo doméstico, fezes humanas e de animais com aquela malcheirosa fedentina, indício de um ambiente propício para o surgimento de febre tifoide, hepatite etc.

É verdade que lá pela década de 1920 começaram a aparecer as portentosas obras como a ponte Hercílio Luz e a drenagem do rio da Bulha através canais das atuais Avenida Hercílio Luz e Mauro Ramos que, infelizmente, na atualidade mais do que água, levam é sujeira para as Baías Sul e Norte. Por ironia, a Ponte do Vinagre que dava acesso ao Forte de Santa Bárbara (depois Capitania dos Portos), tinha no Portão Monumental daquela instalação marinheira o mar que ajudava a escoar as águas pútridas e o lixão daquela área…

Depois do ciclo das viagens marítimas do Porto da Capital veio a Era da aviação naval com os hidroaviões da “TABA” criando a necessidade de uma estação de passageiros e um flutuador entre a Capitania dos Portos / Forte de Santa Bárbara, pois os hidroaviões não se arriscavam a chegar ao trapiche Miramar, pois não havia profundidade suficientes naquele trecho de mar. Os navios do Loyd e da Costeira, também não usavam a Estação de Passageiros Miramar.

Nós, Escoteiros do Mar de Florianópolis, quando de nossas velejadas na Baía Sul, saíamos da Capitania dos Portos, adejávamos ao redor daquela bela, porém maltratada e  decadente edificação, que hoje alguns falsos saudosistas cantam e decantam, se sequer considerar que os navios trocavam óleo queimado e faziam seus despejos que juntos dos muros de arrimo formavam estranhas ilhotas piche com mais de metro e meio flutuando junto do esgoto  doméstico bruto que ali jorrava.

A cidade  adquiriu ares cosmopolitas imitando o Rio de Janeiro com o aterro da Baía Sul e as avenidas beira mar. Mas a cidade continua de  costas para o mar, o que faz lembrar a frase cunhada por nós escoteiros: Mirailha… Miramar… Miranada…

E o resto da história?

O aterro da Baía Sul que deveria ser área de lazer para a população virou Pinicão da  Casan, Feira de contrabandistas, Estacionamento de automóveis ônibus, Estádio do Samba, Centro de Convenções, edificações federais e outras destinações a serviço dos poderosos.

O Miramar foi tudo aquilo que nunca mais vai ser… A menos que o mar retome as mini  enseadas que ao correr dos tempos fizeram a beleza e o charmoso panorama da Ilha Encantada. Porque se depender dos poderes constituídos, os “donos” continuarão despejando na água seus dejetos que – que por ironia – alimentam os peixes e frutos do mar que depois servirão de alimento a população local e os visitantes que continuarão chegando aos milhares para se refestelar e depois urinar e defecar em instalações precárias que levarão toneladas de sujeira para nossas baías, cujo custo será pago pelo população nativa. Radicalismo? Xenofobia? Não. Um repto: Um réquiem para a Ilha Encantada.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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2 respostas
  1. eno josé tavares says:

    FALANDO COM AS ESTRELAS, E, AS LUAS DA MINHA ILHA ENCANTADA

    meninas, que brilham soltas nos céus dos universos,tantos,digam-me,com toda a sinceridade de suas almas,existe Ilha Encantada mais bonitinha,que
    eu, Pedacinho de Terras Perdido, nos Mares do Sul do Mundo?Pois é…Então,quando tiverem um oportuna intimidade ,com o Prefeito Municipal,IBAMA,Fatma e Ministérios Públicos Federal e Estadual,mostrem a eles, que a devastação arquitectonica,espacial, ambiental,e,paisagistica ,disso que já foi um Paraiso ,e ,hoje é quase uma antevisão do inferno…Estão enchendo de espigões,o Interior da Ilha,onde não existe tratamento de esgotos,planejamento urbano a começar pela pela já consolidada imobilidade urbana…Digam-lhes, minhas estrelinhas queridas,que o bafo ruim e mórbido,que sobe da Ilha Encantada, para o etéreo,já mostra e lamenta,as aberrações,que estão a cometer contra nossa Menina Faceira.No Centro Urbano de Florianópolis,a derrubada dos últimos casarões,a casinhas, que contam histórias e estórias,ou são derrubadas durante a noite,fins de semana ,ou são queimadas ou se esboroam pelo chão…Adeus Florianópolis,onde os paredões de vidro e aço,retratam a agonia do que um dia , foi uma visão do Paraiso na Terra….Depois,com caras de turistas imbecís,vão à Europa para ver trágicas ruinas, de múltiplas guerras,enquanto por aqui,os últimos ingênuos são chamados de manézinhos ,e os ladinos,são empresários,a maioria forasteira,que vem aquí destruir nosso passado, e, levam os lucros para aplicar no estrangeiro…Brilhem minhas estrelinhas….Brilhem para esse tolo, que um dia era feliz,sabia e vivia feliz ,como autêntico Aborígene Ilhéu…E quando a Lua Cheia virar, para quarto crescente,ou vazante,deixem a escuridão da Lua Nova ,esconder minhas lágrimas,
    nesse meu rosto marcado por tantos canais de lágrimas,pela Terra do Já Era…

  2. eno josé tavares says:

    O “VÉINHO MALUQINHO”TÁ A FIM DE VIRAR BRUXO MANSO

    Um assunto muito tratado ,e, destratado no Brasil,é o das “CRIATURAS ABANDONADAS Á PRÓPRIA SORTE”.E os personagens em foco,em sua maioria tem fampilia,um dia estudaram,um dia foram crianças…E os solidários a eles,cães,gatos e outros animais nem tão domésticos assim….Na minha infância,ví muito filme no cine ROXY,sobre seres dos outros mundos e gente que virava bruxos ou bruxas horrendas…Não é que virou realidade?Gente ,que as bebidas de elevado potencial alcoólico e migraram para as drogas,e outras e outros nem tanto…O mais significativo,é que tais criaturas não querem e não aceitam a entrar,nos programas oficiais de governos e muito menos querem voltar às suas famílias…Até um médico,encontrei lá na Praça “Renato Ramos da Silva”-Balneário-Estreito…Conversamos muito e diversas vezes e ele foi claro e taxativo:Eu nasci em um mundo diferente,expressou-se ele…Agora compreendo,como um nascituro,abre o berreiro na hora do parto(o indigitado é médico parteiro-conforme se auto descreve)…Saídos do útero materno,dizia-me ele,o mundo aqui de fora,primeiro todo branco,depois todo vermelho de sangue,é assustador…E agora,na rua não pagam luz,água,aluguel,imposto de rendas,alimentos são ganhos,roupas são ganhas,e dormir,ora dormir…Não tem hora para nada…A polícia que as vezes invade o nosso mocó,é mais desvalida, que os moradores de rua,e,tem um medo desgraçado de nõs…Podemos ter aids, e, outras doenças contagiosas , somos patrimonios públicos,para os quais ainda não votaram um Estatuto…Violência?Existe pior violência,do que essa do mensalão,petrolão,bndes,fundos de aposentadoria,etc…etc?Será por isso,que criaram o refrão”VEM PRÁ RUA VOCE TAMBÉM,SR BRUXO E SRA BRUXA…”

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