Requintes de crueldade

Quando eu era criança minha mãe escutava a programação da Rádio Nacional de São Paulo desde cedo. Lembro de vários programas, mas um deles sempre me chamou mais a atenção: o “Programa Gil Gomes”. Ele era dividido em duas partes: na primeira o apresentador dramatizava um crime recente. Sua voz inconfundível, aliada a trilha sonora recheada de clássicos cinematográficos, narrava detalhadamente os casos. Normalmente, as vítimas eram descritas ao som de um dos temas de “A filha de Ryan” (Ryan’s Daughter, Inglaterra, 1970). Já os crimes eram quase gritados ao som de trilhas de filmes de suspense e terror. Dava para perder o sono!

Já na segunda parte do programa – mais “amena” – ele relatava as ocorrências policiais do dia anterior, com textos recheados de jargões e termos técnicos jornalísticos e policiais, dos quais um era especialmente marcante: “requintes de crueldade”.

O programa fazia tanto sucesso que ele passou a apresentá-lo também aos domingos, no mesmo horário, só que com um formato diferente: ele contava histórias de crimes e criminosos famosos: “O crime da mala”, Al Capone, Dillinger (o “Inimigo Público nº 1”), Landru (“O Barba Azul”), Jack “O Estripador”…

Seu estilo gerou vários clones – alguns descarados – e imitações hilárias. Ele próprio assumia que era fã e se espelhava num apresentador dos EUA, que teve um fim trágico, à altura das histórias que noticiava.

O curioso é que, ao final de cada programa, após contar um monte de atrocidades, vilanias, roubos, latrocínios, violações e toda espécie de baixeza humana, ele arrematava, com o fundo musical em crescendo: “Gil Gomes ‘lhiês’ diz:…” -, e após um hiato vocal concluía, com voz lúgubre: “Bom Dia!”.

Programas como esses existem em várias partes do mundo: A Rádio France Inter, uma das principais emissoras públicas da França tinha, na década de 1980, o “Dossier X en Cavale”, que também era sucesso de público.

Porque esses programas têm tanta audiência? Sadomasoquismo? Morbidez?

Alguns ouvintes podem alegar que eles servem como preventivos, mas não é raro servirem para transformar criminosos em “heróis” populares. O filme “Anjos de Cara Suja” (Angels With Dirty Faces, EUA, 1938) é emblemático sobre o assunto! Só que, infelizmente, a vida raramente imita a arte. A realidade é que, numa sociedade degradada, essa publicidade pode tornar-se um veículo alternativo para os “quinze minutos de fama” vaticinados por Andy Warhol.

Nesse sentido, todos os meios de comunicação são pródigos em exibir, com alarde e minúcia, crimes pavorosos para, ao final da edição, também dizerem: “Bom dia!”, “Boa tarde!” ou “Boa noite!”. Para piorar esses crimes hediondos, nauseantes, praticados com “requintes de crueldade”, quase sempre terminam em “lucro” para os seus autores. A punição não os amedronta, nem neste mundo nem no outro, ao que parece.

O que aguarda os criminosos que assaltaram e, reconhecidos, trancaram suas quatro vítimas num carro, vivas, e atearam fogo nele, matando três delas (um menino de cinco anos, inclusive), em Bragança Paulista?

É certo que, infelizmente, crimes ocorrem todos os dias, mas só os notamos quando afetam “nosso mundo”. Afora isso, o que assistimos – e não apenas nas mídias denominadas “sensacionalistas” – é a banalização do crime, transformado em atração! Só que não é filme, minissérie ou novela: é a dura e crua realidade!

Nesse contexto, a sociedade tende a ficar insensível e impotente, ou a reagir intempestivamente. Enquanto isso, a maioria dos membros dos Três Poderes permanece ou parece alheia a tudo, mais preocupada em aumentar a arrecadação, seus salários e regalias, com “requintes de crueldade”.

Pela televisão, pela Internet, pelo rádio, pelo jornal, tudo parece distante e não nos afetar… Mas, e se fosse conosco ou com quem amamos?

Pensemos nisso: cidadãos, governantes, legisladores, operadores da lei e empresários de mídia!

Por ora, este humilde escriba “lhiês” diz:… Bom dia!
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