Ricardo Medeiros e o livro Caros Ouvintes

O rádio tem um significado extremamente importante na vida de Ricardo. Desde 1998 ele vem “pagando sua dívida” com Florianópolis e toda Santa Catarina. “A quarta, e última parcela, será paga com o lançamento de ‘Caros Ouvintes – 60 anos do rádio em Florianópolis’, uma obra que tenho a honra de dividi-la  com o meu  parceiro Antunes Severo.” Por Gisele Machado

Filho de Sebastião Florêncio de Medeiros e Margarida Leandro de Medeiros, Ricardo Leandro de Medeiros – Ricardo Medeiros – é o sexto de dez filhos. Nasceu em Joaçaba no dia 4/9/1963 e logo em seguida mudou-se para Herval d’Oeste (SC). Sua primeira pisada em Florianópolis foi à década de 1960 quando seu pai veio transferido, pela Polícia Militar, para a capital.

Em 1975 voltou a Herval d’Oeste-Joaçaba onde concluiu o ginásio e o segundo grau. “Meu pai assim decidiu pois queria estar perto de sua mãe, Juventina, que não tinha muito tempo de vida. Minha vontade era de ficar na capital que tanto admirava. Queria continuar a soltar pipa, banhar-me na ‘Praia do Iate’ nas proximidades da Agronômica. Queria também continuar a participar das festas de boi de mamão, fazer corrida de carrinho rolemã na então recém asfaltada estrada do Morro da Cruz, que acolhera a TV Cultura, e colher pitangas” recorda-se tristemente.

Cursando o ginásio, aos 14 anos Medeiros recebeu sua primeira proposta de trabalho numa rádio: “Ricardo, você tem uma boa voz. Eu conheço o pessoal da Rádio Líder de Herval D’Oeste. Se você quiser, eu posso falar com eles. Quem sabe você pode trabalhar lá, com eles” disse Vera, a professora da escola. Ricardo muito tímido, com medo e com um sorriso amarelo no rosto disse : “não, muito obrigado professora”.

Mais tarde arrependido de não ter aceitado o convite e se dando conta da oportunidade que perdera passou a treinar sua dicção. Lia em voz alto no banheiro, participava das liturgias na igreja e em sala de aula era, quase sempre, o escolhido para ler um trecho de um livro ou de um texto.

Com a fixação de um dia voltar para a tão sonhada Florianópolis, em 1982 ele volta e faz um cursinho pré-vestibular, o ‘Barriga Verde’, e passa para a quinta turma de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Na UFSC, ele e dois colegas, Cacau Lino e Maneca Mendes, criam a rádio imaginária “Fofinha” .Em 1985, entra para a equipe de esportes da Rádio Cultura. No ano seguinte, toda a equipe passa para a Rádio Guararema do mesmo grupo da Rádio Cultura. Em 1987 trabalhou na assessoria de imprensa na prefeitura de Florianópolis. Em TV, fez parte da produção do Jornal do Almoço no período de 1988 e 1989 e na produção do programa César Souza em 1994. Ricardo também participou da equipe de esportes da Rádio Guarujá. No radio-jornalismo, trabalhou na Rádio Diário da manhã, entre 1994 e 1995, e mais tarde na CBN Diário. Em 1996 fez uma Especialização em Jornalismo e deu aulas na área Jornalismo na Unisul de Tubarão entre 1996 e 2000.

Em 2000 Ricardo a esposa Vera Dias e a filha Gabriela deixaram o Brasil e foram para Le Mans na França para estudar.

No velho continente obteve o Diploma de Estudos Superiores (Diplôme d’Études Approfondies), uma espécie de mestrado brasileiro. Sua dissertação abordou os temas radionovela e publicidade na Rádio Diário da Manhã nos anos 1960, com o título em português de  “Radionovela: da sala de estar para o Armazém”, ou  em francês: “Feuilleton Radiophonique : de salle de séjour au magasin”.

Atualmente está acabando doutorado, igualmente em história, que defenderá em outubro deste ano com o título: Radionovela e Publicidade: memória da recepção Florianópolis durante os anos 1960. Essa tese fala da relação e interação entre radionovela, publicidade e ouvintes da Rádio Diário da Manhã durante os anos 1960. “Escolhi a RDM para trabalhar na minha tese pelo fato de na época a emissora ser a grande referência em todos os níveis no estado de Santa Catarina”, argumenta Medeiros.

E foi da França, através de correspondência pela Internet mantendo contato regularmente com o amigo Antunes Severo, que nasceu a idéia do projeto Caros Ouvintes. Ricardo Medeiros volta ao Brasil em novembro deste ano. Uma questionada sobre o projeto:

GM – O que é e qual a importância do CAROS OUVINTES para Ricardo Medeiros?

RM – Na Verdade o Livro Caros Ouvintes faz parte de mais uma parcela da minha dívida com o rádio no estado de Santa Catarina.  Eu comecei a pagar em parcelas a minha dívida em 1998, justamente com o lançamento do livro Dramas no Rádio: a radionovela em Florianópolis durante as décadas de 50 e 60 . A outra parcela da dívida foi quitada em 1999, com o lançamento da História do Rádio em Santa Catarina. A terceira parcela foi honrada com Zininho – uma canção para Florianópolis (2000). A quarta, e última parcela, será paga, neste ano, com o lançamento de Caros Ouvintes – 60 anos do rádio em Florianópolis , uma obra que tenho a honra de dividi-la  com o meu  parceiro Antunes Severo. 

GM – Por que desta iniciativa? E por quê pelo rádio?

RM –  Porque o nosso Estado e nossa capital não têm memória radiofônica. Um dos culpados por este buraco negro são os próprios radialistas. Aqueles que vão para o microfone e se você deixar falam às 24 horas do dia. Mas se você pede para ele escrever algo sobre o rádio em Santa Catarina ou na capital, ele te diz que não tem tempo pra isso. O que existe é uma insegurança por parte dos radialistas de colocarem no papel a sua vivência e a vivência de seus colegas. Quantas pessoas poderiam contribuir para que tenhamos varias “leituras” sobre o nosso rádio? Mas quais são as obras existentes sobre a radiodifusão em nosso canto? Quase nenhuma. 

GM – O que o rádio significa para você ?

RM – O Rádio é o único veículo com um enorme potencial para transformar  palavras, músicas, efeitos especiais e silêncio em imagens auditivas, que cada ouvinte as sentirá de uma forma especial, totalmente particular. Com o rádio você faz viagens, não ganha nada pronto. Você cria a imagem que você quiser. Nada imposto, como na TV. O rádio é o meio mais democrático, pois você não precisa saber ler para entendê-lo. O rádio acompanha passo a passo as pesssoas: ele está em casa, no carro, nos bares e restaurantes, na praia ou num simples andar de bicicleta (Walkman).

GM – Você esperava que o projeto Caros Ouvintes tomasse a abrangência que ele tomou?

RM – Caros Ouvintes não é mais apenas um livro. O livro é apenas uma parte integrante deste projeto. Publicado o livro, o site Caros Ouvintes continuará sendo alimentado regularmente com uma série de informações que vão perpetuar a memória não só do rádio de Florianópolis, mas do Estado.

GM – No que o projeto CAROS OUVINTES beneficiará os estudantes de comunicação?

RM – Eu espero que finalmente, com esse projeto, os professores de rádio das várias faculdades de jornalismo de Santa Catarina (e em especial de Florianópolis) passem a falar um pouco mais sobre o rádio barriga-verde. O site Caros Ouvintes servirá, como já está servindo, como instrumento e apoio de pesquisa tanto para alunos como professores da área de comunicação social. Infelizmente, em pleno século 21, para muita gente rádio é sinônimo de eixo Rio-São Paulo. Que não corresponde à verdade.

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