No tempo da Sessão das Moças

“Estou no meu sétimo livro e estou muito contente”. A declaração de Ricardo Medeiros está na entrevista que concedeu aos nossos Caros Ouvintes na semana de lançamento do livro em outubro de 2009.

Era uma sexta-freira, ainda durante seu horário de trabalho na assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis. Entre telefonemas, consultas e encaminhamento do expediente o autor fala com muita franqueza do seu trabalho de escritor que desenvolve entre as atividades de jornalista profissional e de professor universitário.

Cine Ritz 1935. Foto Marco Santana/ND

Cine Ritz 1935. Foto Marco Santana/ND

Do que trata o livro, segundo a divulgação da editora:?“No Tempo da Sessão das Moças” é o título do novo livro do jornalista Ricardo Medeiros, que foi lançado no dia 14 de outubro, às 19 horas, na sede da Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis. O selo é da Editora Insular. Trata-se de uma obra que aborda as diversas modalidades de lazer e entretenimento na capital catarinense nos anos 1960, como o cinema, passeios, praia, bares, clubes, zonas de meretrício, leitura de jornais e revistas e audição de rádio.

Um dos cinemas preferidos era o Ritz. A sala de projeção possuía as terças-feiras, nos horários das 17 horas, 19h30 e 21 horas, a famosa Sessão das Moças. Neste dia o ingresso era mais barato e as 850 cadeiras do Ritz ficavam lotadas por moçoilas e  rapazes.

A expressão em inglês, footing, tornou-se sinônimo de desfilar calmamente, sobretudo,  pelo  entorno da  rua Felipe Schmidt e  Praça XV de Novembro e como forma de diversão e de flerte  da população. O passeio acontecia, preferencialmente, no  entardecer dos finais de semana, quando os rapazes se posicionavam estrategicamente nos dois lados deste trajeto, formando um corredor por onde as moças passavam de braços dados.

Praia Bom Abrigo, CoqueirosNo verão, para o lazer dos moradores, as praias da moda eram as praias da Saudade, do Meio e Itaguaçu, todas na região de Coqueiros, parte continental da cidade. Entre os banhistas de classe social mais elevada, a praia preferida era a da Saudade, onde estava localizado o Praia Clube. A farra, comenta a jornalista Marisa Ramos, começava dentro do ônibus pela estrada empoeirada que tomava um longo tempo dos banhistas.  Deslocar-se até as praias da Ilha, localizadas no interior, e, portanto, mais distantes do que as de Coqueiros e com estradas em piores condições, era apenas um sonho acalentado.

Entre as formas de lazer e entretenimento os habitantes da cidade possuíam ainda os bares, lugares que fizeram parte da história e da boemia da antiga Desterro, servindo de cenário para sorver uma bebida, para jogar conversa fora e até para compor músicas.  O Bar Príncipe, também conhecido como Bar do Felinto, figura nessa relação dos que fizeram parte da Florianópolis de ontem. Foi lá que O Rancho de Amor à Ilha, que mais tarde tornou-se o hino do município, recebeu os últimos retoques do poeta Zininho, para participar de um concurso chamado Uma canção para Florianópolis.

Mas o xodó de Floripa, como é chamada carinhosamente Florianópolis, era o bar Miramar. Localizado num trapiche na baía sul, a partir das 18 horas, o Miramar estava cheio de pessoas que iam para o bar bater  papo e consumir os mais variados tipos de bebidas e petiscos. O Universal, pertencente aos irmãos Tufy e Edmundo Amin, ficava na Rua Jerônimo Coelho. O bar tinha como característica ficar aberto 24 horas todos os dias. Na madrugada recebia todo tipo de público, englobando desde elegantes senhoras saídas do Querência Palace Hotel até prostitutas e marginais. Políticos, jornalistas, escritores, músico e estudantes estavam na lista.

Clubes

Beto Stodieck e Dete Piazza

Beto Stodieck e Dete Piazza

Um dos clubes em que a sociedade freqüentava, era o Doze de Agosto, fundado em 12 de agosto de 1872. A primeira sede foi na Rua João Pinto, sendo que as suas instalações só foram transferidas para a Avenida Hercílio Luz nos anos 1970. No Doze, o Baile de Debutantes teve início na década de 1940 e era sempre realizado durante os festejos de aniversário do clube e no fim de ano, sob o comando de  Antônio Sbissa.  A partir da década seguinte o baile teve a coordenação do jornalista Zury Machado.  No domingo à tarde, até as 21 horas, a juventude se divertia no “Encontro dos Brotinhos”. Outro momento de agitação era o Baile Municipal do Doze, criado pelo jornalista Lázaro Bartolomeu, que achava que a cidade merecia ter um carnaval de gala, como era de praxe no Rio de Janeiro. O baile ocorria na sexta-feira de carnaval, com concurso nacional de fantasias.

Se no rival havia o Encontro dos Brotinhos, no Lira Tênis Clube as tardes de domingo eram preenchidas pelo Festival da Juventude, comandado pelo colunista social Celso Pamplona, que consistia num concurso de dança. O Lira, que tinha como entrada principal a Rua Tenente Silveira, fazia quatro a cinco gritos de carnaval durante o ano. Trazia também para a cidade cantores renomados, a exemplo de Roberto Carlos, Jamelão e Jair Rodrigues.

Ao contrário das demais agremiações, que exigiam o uso de paletó e gravata, a indumentária foi abolida no Paineiras. Lá se usava traje esporte-chique. O clube foi fundado em 13 de março de 1960, mas só foi ter sede própria em 1963, no subsolo do Cine São José, defronte para a Rua dos Ilhéus. O clube revolucionou os costumes da cidade, realizando em plena quaresma, período até então resguardado para a reflexão religiosa, uma festa no primeiro dia de inauguração da sede. O Paineiras intitulava-se o clube dos solteiros. Quem se casasse não poderia mais fazer parte da diretoria.   Tomava-se cuba libre, com rum merino e coca-cola, e old eight.

Negros e brancos viviam de tensões em seu dia-a-dia. Como um dos espaços de divertimento, os negros tinham o Clube 25 de Dezembro, fundado em 1933, sob o comando de Ramiro Farias, nascido em Alto Biguaçu, e por Tertuliano Fernandes, oriundo do Paraná. A União Recreativa 25 de Dezembro, surgida na rua Chapecó, hoje Padre Schroeder, na Agronômica, não permitia ter brancos  entre os sócios. Os brancos só eram autorizados a fazer gastos no bar, mas não podiam dançar.  Até os anos 1960 a diretoria do clube era formada apenas por homens.

No final do ano de 1961, o Governo do Estado decidiu higienizar a cidade, tomar medidas para que a diversão sexual masculina deixasse o município de Florianópolis. A idéia era controlar, sob os olhares da polícia e dos agentes sanitaristas, os ditos transgressores da moral e os ditos responsáveis pelo aumento da sífilis e da gonorréia. O Governo do Estado resolveu comprar alguns lotes em Barreiros, localidade do vizinho município de São José, para revendê-los aos interessados em  instalar casas do sexo em região um pouco  afastada da Capital. Os terrenos pertenciam ao senhor Célio Oliveira da Veiga, que pretendia transformar a sua grande propriedade em loteamento para casas populares, o Loteamento  Palmira. Nem mesmo havia vendido os primeiros lotes, o sonho de Célio da Veiga veio por água abaixo, uma vez que na área foram edificados os prostíbulos.

No ano de 1962, foi instalada a primeira casa de prostituição no local que, a partir de então, passou a ser conhecida como Vila Palmira. Lá havia garotas novas e bonitas para entreter os visitantes, assim como eram servidas as bebidas mais caras.

A Ana Maria Coelho, a Ana Galega, montou três casas em Barreiros, sendo a última com o nome de Estrela Dalva.  Outras casas foram também para São José, como a Boate do Gromicholi, a Okei, a Bananinha e a Sabatine.

Durante o dia a vida na vila era comum, como em qualquer outro local. As mulheres lavavam roupas, senhoras lavavam as calçadas com mangueiras e a criançada empinava pipa. À noite a vila se transformava. Era o momento em que as crianças sumiam, as casas ficavam à meia luz, e a música, muito alta, convidava os visitantes à diversão.

Jornais e revistas

Nesta época, os jornais ainda mantinham uma forte vinculação partidária. A imprensa local não seguia uma linha de empresa jornalística. Antes de ser um serviço de informações, cada jornal era um veículo de idéias, em consonância com o sectarismo político do proprietário. O objetivo dos periódicos era defender a sua cor partidária e difamar os adversários. Isto quer dizer, exaltar o Partido Social Democrático (PSD)  e falar mal da União Democrática Nacional (UDN) e vice-versa. Quem cumpriam esta função eram os jornais O Estado, da família Ramos, e o Diário da Tarde, dos Konder-Bornhausen. Outro jornal, A Gazeta, um matutino pertencente a Jairo Callado, assumia várias colorações partidárias, apesar de nessa década estar mais ligado à UDN que ao PSD.

A tendência partidária dentro dos jornais terminou com o Ato Institucional número 2 (AI-2), de 27 de outubro de 1965, que foi responsável pela extinção das siglas até então existentes e que acionou o processo de bipartidarismo no país. Na época também havia surgido o periódico A Nação, dito imparcial e noticioso. Na lista dos jornais havia igualmente o Ilha, direcionado para o campo de variedades, e o  Imprensa Nova.

No campo impresso, a década de 60 contava ainda com uma série de revistas, como forma de entretenimento e informação. Uma delas é a revista O Cruzeiro, dos Diários Associados, um conglomerado de órgãos de comunicação pertencente a Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido como Chatô, e que foi considerado um dos brasileiros mais poderosos do século XX.

Bem como O Cruzeiro, a Revista Realidade, surgida em1966,  entrava no cotidiano dos habitantes de Florianópolis. Era uma revista voltada para um estilo literário de escrever, onde o repórter deixava de lado a forma jornalística objetiva e concisa, para ser agente integrante da reportagem de descrição e de narração, quando a vivencia dos acontecimentos pelo profissional apareciam no texto.

O florianopolitano tinha igualmente acesso à Revista do Rádio, uma publicação carioca iniciada em 1948 e que se especializou na cobertura da radiodifusão. A receita do semanário baseava-se em explorar – além das informações em geral sobre a vida pessoal e artística de grandes personalidades e da produção radiofônica – as fofocas dos bastidores das ondas hertzianas que ganhavam manchetes de um cunho sensacionalista.

Ondas do rádio

Ricardo Medeiros não se esquece de contemplar no livro as emissoras de rádio : Guarujá, Anita Garibaldi, Diário da Manhã, Jornal A Verdade e Santa Catarina. Nos anos 60, sessenta e quatro por cento da população de Florianópolis possuía no mínimo um  aparelho de rádio, o que implica dizer que dos 18 mil 879 lares contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística- IBGE-, 12 mil deles tinham  receptores.

Naquela época, a radiouvinte Uda Gonzaga já morava no Mont Serrat, conhecido popularmente como Morro da Caixa, um bairro onde a maioria das pessoas são de baixa renda e não tinham na ocasião muita opção de diversão. Seu pai possuía um pequeno comércio, uma venda. Como comerciante, ele obteve o primeiro aparelho de rádio que se tem notícia na região. Para democratizar o receptor, o pai de Uda Gonzaga resolveu conectar o aparelho em  um alto-falante na porta da venda para que todo o pessoal do Morro da Caixa  pudesse acompanhar vários programas pelas ondas sonoras, principalmente no final de tarde : « todos  ficavam sentados na porta da venda em cima das pedras, todo mundo sentado nas pedras para ouvir os programas locais e muitos outros de fora. Era muito gostoso. O pai fechava a venda, ligava o rádio, ligava o alto falante e o povo ficava ali, todos sentados ali fora, escutando. »

Na época, o rádio era ainda o grande veículo de comunicação que não só abastecia de informações e entretenimento pessoas que moravam no Morro da Caixa, mas em todas as áreas de Florianópolis de antigamente.  Ele participava do dia a dia também de Vera Pacheco, que quase não saía de casa e que, por conseguinte, depositava no rádio suas esperanças de divertimento. Vera Pacheco nunca freqüentou uma sala de teatro. E cinema ? Só de vez em quando. O que ela mais gostava era de ouvir rádio, acompanhando de tudo um pouco, sobretudo programas musicais e novelas.

Homenagens

Na introdução do livro Ricardo Medeiros faz uma homenagem a duas personalidades, as chamadas moças ousadas : Marisa Ramos e Dete Piazza. Nos anos 1950-60, Marisa Ramos era  considerada a Sophia  Loren catarinense. Em 1958, aos 16 anos, a jovem portou um traje de banho sumário na Praia da Saudade, considerado avançado  para a época, e que   causou frisson na moçada ainda tímida, observando o espetáculo de longe, e também nos  mais velhos que  espiavam por trás da janela do Praia Clube, aproveitando o cenário emoldurado pela morena para recarregar a pilha . De acordo com Marisa Ramos,  não se tratava de um biquini, como todos afirmavam, e sim de um maiô, cheio de babado, bem ao estilo, até a década de 90,  das argentinas que frequentavam as praias de Florianópolis.

Após o período da faculdade de Letras na UFSC, Dete Piazza colocou em prática mais um dos seus desejos, uma moda inventada pela estilista inglesa Mary Quant no início dos anos 60. Em pleno inverno de 1965, comprou uma saia cinza e a levou para uma costureira transformar a peça em minissaia, cuja bainha estava além dos 20 centímetros acima do joelho.  À luz do dia, resolveu desfilar de minissaia pela Felipe Schmidt. Algumas senhoras ficaram horrorizadas e as jovens mulheres mostraram-se incrédulas com a coragem dela em usar a primeira minissaia que se teve notícia em Florianópolis. Os homens assobiavam e verbalizavam alguns gracejos.

Perfil de Ricardo Medeiros

Doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Le Mans – França), Ricardo Medeiros é professor do Curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e um dos editores do site Caros Ouvintes. Atua ainda como Assessor de Comunicação Social da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de Florianópolis.  Jornalista diplomado, este é o seu sétimo livro.

Contatos para imprensa com Ricardo Medeiros : (48) 8411-0911

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