Roberto Alves, o astro brilhante da TV Cultura

Quantos anos você tem, Roberto Alves? Foi a primeira pergunta da entrevistadora Kátia de Menezes Niebuhr de A Verdade em Revista.

Roberto Alves

Trinta e nove  anos, respondeu, sem titubear o maior apresentador de televisão em Santa Catarina, em meados de 1980. O bombardeio, em estilo ping-pong, continua fulminante. Quantos filhos? Duas filhas. Você é bem remunerado para fazer televisão em Santa Catarina? (Risos). Muito bem, acho até que sou remunerado demais. Quanto? Não gostaria de responder. Perto dos 80? Mais ou menos. Só para fazer “Bola em Jogo”? Claro que não. Eu trabalho na TV Cultura o dia inteiro. Há quantos anos você comanda “Bola em Jogo”? Há 10 anos. Antes do Bola em Jogo você fazia algum outro programa? Não. Você estreou em Bola em Jogo?  Não. Minha estréia foi numa Resenha Esportiva domingo à noite, em caráter experimental, no ano de 1970.

Aturdido, mas dono de uma paciência e simplicidade marcantes, Roberto, pelas respostas prontas e espontâneas estimulava a jovem entrevistadora que volta à carga:

Você era homem de rádio, não era?

R – Era. Eu fui sonoplasta, trabalhava em radioteatro. Depois entre para o esporte, fui redator esportivo, repórter de campo, fui redator de notícias na rádio Guarujá, na antiga Resenha J7, até passar para apresentador de programas esportivos, além de efetuar reportagens durante as transmissões de jogos. Finalmente acabei sendo comentarista esportivo. No rádio só não fui locutor esportivo.

Você exerce outra profissão que não seja televisão?

R – Não. Me dedico inteiramente à TV Cultura onde além de apresentador do programa “Bola em Jogo”, sou diretor de Telejornalismo.

É verdade que na TV Cultura tu fazes de tudo um pouco?

R – Não. Não é verdade. A TV Cultura está equipada com um pessoal muito competente, acontece que sendo eu um antigo funcionário acabei passando pelos mais diversos departamentos, onde tive a oportunidade de conhecer o serviço que cada um executa, veja: já fui diretor de TV, já trabalhei na sala de vídeo tape, na sala de telecine e outras. No tempo do programa Eles e Elas, com Marisa Ramos e Cesar Struwe eu era cortador de cenas. Mais ou menos em 1975 surgiu a possibilidade de me integrar ao departamento de jornalismo. Naquela época a equipe era bem grande, tínhamos o Vânio Bossle, Sérgio Lopes, Moacir Pereira e outros mais.

Como vinha funcionando esse departamento?

R – Normalmente sem problemas, lógico que com certas limitações, a partir do momento em que sentimos uma concorrência, vimos a necessidade de nos reestruturar, adquirindo novos equipamentos, como som para reportagens externas, admissão de mais repórteres etc.

Com a vinda da TV Catarinense para Florianópolis, temos que reconhecer que a TV Cultura ficou um tanto quanto apagada. O que houve realmente?

R – O que houve realmente foi que perdemos um ano com a ligação TV Cultura-TV Coligadas que se chamou RC TV. Não deu certo. Para mim foi isso.

No seu trabalho você sofre algum tipo de pressão? Censura, por exemplo?

R – Não, honestamente, nunca tive nenhum problema com a censura. Tenho uma liberdade incrível de conduzir meus programas. Te garanto que o próprio departamento de tele-jornalismo da TV Cultura nunca sofreu interferência de quem quer que fosse. Nós temos inteira liberdade de trabalho. Gozado, mas nós nunca tivemos esse tipo de problema.

Você faz Bola em Jogo sozinho?

R – Faço, bem eu conduzo ele, outras pessoas participam de várias maneiras.

Você não submete seu programa a um único critério de avaliação, visto que é você quem o faz e apresenta?

R – Não é bem assim, o nosso diretor é o Paulo da Costa Ramos, temos repórteres, redatores e editores que podem até estar num cargo acima do meu, portanto eles supervisionam, não sou eu quem avalio tudo sozinho, acho até que eu preciso me dedicar mais ao Bola em Jogo que já tem 1o anos e eu não tenho dado a ele a atenção que deveria dar, pelos outros afazeres que eu tenho dentro da televisão, mas isso já vai terminar porque a TV Cultura está realmente crescendo muito, e a equipe consequentemente se expandindo.

Você não tem medo de ser tachado o dono da verdade em matéria de futebol?

R – Não. Porque em primeiro lugar, falar de futebol aqui é muito fácil, é falar de Avaí e Figueirense e demais a mais temos outros comentaristas aqui na cidade, ninguém precisa ficar sujeito somente à minha opinião, temos o Fernando Linhares da Silva, o Mário Ignácio Coelho, Miguel Livramento e outros.

Você sente que o Bola em Jogo lhe dá muita popularidade?

R – Sinto sim, e isto é uma coisa muito boa, aonde a gente chega é sempre muito bem recebido, reconhecido e tratado com carinho, todo o mundo tem  sua vaidade e orgulhozinho, e eu também tenho, mas mais que tudo sou uma pessoa muito humilde nestes 23 anos de trabalho em comunicação, tenho procurado sempre dar tudo de mim ao público, inclusive entendo que às vezes erro, volto atrás e aceito também as críticas.

E essa popularidade atinge também negativamente de algum modo?

R – Infelizmente existem pessoas sempre prontas para fazer o mal, pessoas que adoram jogar areia, e só para você ter uma idéia, na minha casa, não posso ter sequer telefone, que é uma coisa até muito necessária para mim, porque tem gente que adora ficar passando trote e dizendo asneiras para minha esposa (risos) e ela que já é  um pouquinho ciumenta implica comigo por fofoca dos outros.

Você consegue dar notícias sem que se envolva pessoalmente?

R – Em certos casos acho que não, eu não uma pessoa fria, tudo o que eu faço, faço com sentimento. E certas notícias eu sinto que não tenho capacidade para me dominar emocionalmente.

Veja o ocorrido recentemente com o acidente aéreo aqui em Florianópolis em que ficamos no ar das 10 horas da noite, às cinco horas da manhã recebendo informações de todos os cantos da cidade. Só em saber que tinha nome conhecidos e pessoas muito ligadas a gente, já é um trauma, você se sente como se fosse um telespectador que estava assistindo a TV e ouviu que um amigo morreu tragicamente. Você não consegue dominar o choque. A verdade é que quando eu faço uma crítica mais séria ou dou uma notícia fora de rotina eu transmito muito de meus próprios sentimentos, e eu mesmo chego a perceber como estou dentro do negócio.

Então você confessa que lhe falta aquela frieza profissional diante das câmeras?

R – É verdade, eu não consigo deixar de sentir as coisas como uma pessoa muito ligada as coisas daqui. E para falar a verdade eu acho que agente tem que sentir mesmo.

Sabemos que você foi muito elogiado, mas também foi criticado a respeito da cobertura do acidente.

R – Compreendi que um profissional não pode contar às vezes, o que se está se passando realmente. O que mais me doeu, foi que algumas pessoas comentaram que eu estava me promovendo em cima do acidente. Na verdade, o que ocorreu, foi quando no outro dia ao meio dia, num Especial, eu anunciei que tínhamos o filme. O que eu não podia dizer, era que o filme não estava em minhas mãos e que ele ainda estava no laboratório, lá na Bocaiúva para ser revelado, aí eu fiquei quase uma hora enrolando para não sair do ar. Você já pensou se eles chegam para mim e dizem: queimou o filme! Olha que depois de você anunciar uma hora, seria uma barra muito grande, eu confiei nos cinegrafistas e no pessoal do laboratório.

Mais o papo é que você fez cenas quando apareceu o filme, o que houve?

R – Eu confiava que o tal filme chegaria, agora o que eu não sabia é como seriam as cenas e quando eu vi um monte de corpos espalhados, eu mandei cortar, mandei porque realmente aquilo me chocou muito como chocou também a outras pessoas.  Aí o telefone não parava pedindo para continuar o filme e diziam que profissional era eu, que não dava um filme completo, aí eu pensei, botando ou não, vão falar, aí botei. O Moacir pereira, por exemplo, disse para mim: Você deveria colocar o filme inteiro e não ter feito aquele sensacionalismo de tê-lo cortado, e eu disse, Moacir eu cortei porque não sabia o que poderia vir na frente daquele filme. Agora eu digo de consciência limpa que aquela foi uma reação humana e que em momento algum eu tive a intenção de fazer sensacionalismo. Graças a Deus fomos muito mais reconhecidos em nosso trabalho de cobertura, do que criticados, e chegaram telegramas de todos os lugares de Santa Catarina nos elogiando, agora críticas vão haver sempre, é claro.

Esses problemas não estariam ligados ao teu estilo pessoal de dar as notícias?

R – Pode ser, eu digo sempre que prefiro num caso desses dar a notícia ao telespectador conversando e nunca lendo friamente. E é conversando que eu vou fazendo o meu programa também. Olha muitas vezes já cheguei na frente das câmeras sem ter uma única notícia para dar, aí o público me ajuda, recentemente coloquei o telefone no ar, e o público vai me ajudando. É um programa feito para a comunidade, nada amais lógico que ela me ajude a fazê-lo.

E essa de telefone no ar, está funcionando memo?

R – Pois é, ficou comprovado o bom nível do público telespectador. Lógico que não faltou quem me alertasse para os riscos que eu estaria expondo o programa, , poderia haver engraçadinhos, mas não houve nada e eu confiei e está tudo bem.

Mudando de assunto. Você continua firme na TV Cultura, muita gente virou a casa, por que tu não?

R – Não foi tanta gente assim que virou a casaca não. Eu não pretendo sair da Cultura nunca, a menos que aconteça algum imprevisto, sou muito ligado à TV Cultura, tenho verdadeiro amor por ela e gosto do meu trabalho.

A TV Cultura vai reaver o lugar que era dela?

R – Não sei se vai tomar lugar algum, só sei que estamos entrando com muita disposição numa nova fase, de muito trabalho, junto e para a comunidade. Já estamos apresentando novos contratados que prometem sacudir a cidade, num sensacional trabalho de programação local, valorizando coisas e gente nossa.

E essa de TV Cultura a nossa? Não lhe parece muito bairrismo?

R – Tem uma explicação esse slogan “TV Cultura a nossa”, acontece que aonde quer nós chegamos para fazer alguma reportagem, a primeira coisa que eles perguntam, é se é da TV Catarinense ou da “Nossa”, foram as próprias pessoas que são notícias e que vivem aqui, que criaram este slogan. É que elas consideram “a nossa”, talvez devido a 10 anos na cidade.

(A VERDADE em Revista, nº 19 – Junho de 1980. Páginas 29, 30 e 31). Exemplar da coleção particular de Nivaldo Machado proprietário do Café Sorrentino, Rua Padre Miguelinho, Centro. Nivaldo é também, o mentor do tradicional Bloco Vento Encanado que reúne a nata dos foliões durante o Carnaval. A VERDADE em Revista, de propriedade do jornalista Manoel de Menezes foi lançada em Florianópolis em 1978.

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