Rodolfo Lima Martensen, um dos pioneiros do Rádio brasileiro

Durante os anos de 2003 e 2004 ajudei a coordenar um projeto que visava resgatar a memória de um  profissional  de publicidade que, além de escritor, poeta e intelectual foi uma figura humana admirável.
Por Francisco Socorro*, de Florianópolis

Refiro-me a Renato Castelo Branco, que dedicou 50 anos de sua vida à construção das bases da Publicidade Brasileira, escreveu 22 livros e, entre inúmeras contribuições para o mercado publicitário, ajudou a criar a ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing. Em Setembro de 2004, quando esse verdadeiro ícone da história da Publicidade Brasileira faria 90 anos, foi realizada, em sua homenagem, com pleno sucesso  na ESPM-São Paulo  a Semana Renato Castelo Branco de Responsabilidade Social da Propaganda. Ao pesquisar a trajetória de Renato Castelo Branco, descobri uma figura de grande valor, o gaúcho Rodolfo Lima Martensen, cujo maior mérito foi ter sido o idealizador e criador da ESPM e seu Diretor – Presidente durante os primeiros vinte anos da escola.

Antunes Severo, meu amigo de mais de duas décadas me solicitou que colaborasse com o seu Site Caros Ouvintes e eu decidi então contar alguns episódios  do envolvimento de Rodolfo Lima Martensen com o Rádio. Primeiro em sua cidade natal, Rio Grande e, mais tarde, em São Paulo.

A fonte é seu livro de  memórias, publicado em 1983, O Desafio de Quatro Santos e que espero seja reeditado neste ano, quando se comemora os 90 anos de nascimento de  Rodolfo Lima Martensen que será também homenageado pela ESPM, seu maior legado.

Pretendo contar a seguir  o episódio saboroso de como Lima Martensen montou, junto com um amigo, a EAX-4, a  primeira emissora de rádio da cidade de Rio Grande, uma das primeiras do estado gaúcho  e  certamente uma das rádios pioneiras do País.

EAX-4, a rádio clandestina de Rodolfo Lima Martensen (o termo pirata ainda na existia).

Antes de começar a contar essa história, é preciso dizer que naquele período, início da década de 30, os gaúchos sintonizam principalmente as emissoras argentinas, consideradas de elevado nível artístico, em especial a LS-1, Rádio El Mundo de Buenos Aires . Naquela época, a Argentina estava no apogeu econômico e Buenos Aires rivalizava em pujança e modernidade com Londres, Paris etc.

O jovem Lima Martensen vibrava com slogans como este: Casa Munõz, donde um peso vale dos. Como ele próprio conta em seu livro, o vírus da publicidade começava a ser injetado em seu sangue e do qual ele nunca mais se desligaria.

Bem, foi nessa ocasião que Lima Martensen, com o apoio técnico de seu amigo Antoninho Barreto, dotado de grande habilidade, montou na sala de  jantar de sua família a tal EAX-4. Para construir a emissora, Antoninho simplesmente seguiu os circuitos impressos de uma revista. Mas da parte artística, ficou incumbido o próprio Lima Martensen que havia tido a idéia da rádio e assumiu o pomposo título de Diretor de Broadcasting.

E o milagre foi conseguido: a  EAX-4 era ouvida com perfeição em toda a cidade do Rio Grande. O próprio Lima Martensen conta como foi a estréia da rádio: “Num domingo ensolarado de agosto de 1931 meu primeiro programa de rádio foi para o ar. Estava tão ensaiadinho e articulado que, apesar de uns tropeços aqui e ali motivados pela emoção e inexperiência, a audição foi um sucesso. Duas horas de música, humor e poesia, dirigidas por um” pau-de-virar-tripas” que só tinha altura e dezesseis anos de idade”.

Após as primeiras emissões dominicais, o pai de Lima Martensen é procurado pelo chefe da Estação Telegráfica da Junção, a emissora radiofarol instalada nos arredores do Rio Grande que orientava toda a navegação aérea. Nas palavras de Lima Martensen: “O Chefe conhecia meu pai e foi logo dizendo: – Senhor Martensen, tem havido umas transmissões de rádio clandestinas na cidade. Meu pessoal técnico procurou localizar a fonte de irradiação e chegou à sua casa… Meu pai cortou a frase do Chefe da Junção pelo meio: – Foi daqui mesmo, meu amigo. Maluquices do meu filho Rudi, que de tanto falar naquele maldito microfone está lá em cima de cama com uma febre danada. Tenho sido muito tolerante, mas o senhor pode estar certo de que não haverá mais transmissões. – Mas, seu Willy, não foi isto que eu vim fazer aqui.- É caso de polícia pergunta o pai de Rodolfo. -Nada disso responde o Chefe da Junção, eu vim trazer o meu apoio. O Rio Grande está  mesmo precisando de uma emissora de rádio e pelo que ouvi ontem, a rapaziada tem jeito. Vamos ampará-los e oficializar a  emissora”. E foi assim que Lima Martensen, o Rudi, pode continuar a tocar a sua EAX-4…

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