Roubando almas

Relatos antropológicos nos dão conta de que índios, em seu contacto com os brancos, fugiam espavoridos ao verem sua imagem registrada pelas máquinas fotográficas.

Perguntados sobre o porquê desse pavor, os silvícolas explicavam, de olhos esbugalhados, que iriam morrer, porque suas almas teriam sido capturadas por essas engenhocas infernais.

Pois o que mais vemos agora são “ladrões de alma”. Se antes as fotografias exigiam um equipamento pesado e complicado, agora quase todo mundo tem à mão máquinas fotográficas, ou simplesmente um telefones celulares que permitem tirar fotos.

Desde meados do século XIX, quando Niépce, Daguerre e outros geniais inventores criaram as máquinas que permitiram “desenhar com luz” – segundo a etimologia da palavra “fotografia”, oriunda do grego – não pararam mais os aperfeiçoamentos que elevaram as simples, toscas e grandemente perecíveis formas de gravar imagens à condição da maravilhosa arte de fotografar.

Nos tempos que vivemos, a fotografia saiu do círculo exclusivo e especializado dos fotógrafos para as mãos muito menos experientes das pessoas comuns, com isso elevando à enésima potência o Narciso que há em cada um de nós.

Se levarmos em conta que este é o tempo do paroxismo das imagens, e mais, que a comunicabilidade instantânea internética dá o tom da comunicação global, temos criado o terreno fértil para o inimaginável crescimento dos “cliques”.

Há não tanto tempo assim, viam-se casais de namorados interrompendo seu passeio de mãos dadas em plena praça. Com o coreto ou o chafariz ao fundo, esses apaixonados substituíam a natural dinâmica corporal ditada pela paixão, inserindo entre um beijo e outro, a estática da pose para o lambe-lambe.

Hoje, quase não existem mais o coreto e o chafariz; escasseiam as praças; e raros namorados românticos assim se encontram por aí. Quanto aos fotógrafos de praças, com suas caixas sobre cavaletes, onde estão? Onde andam aquelas caras enrugadas, com óculos sobre o nariz, que víamos, encantados, emergir debaixo do pano preto que cobria a máquina – laboratório improvisado, rápido e prático – para nos apresentar um registro indelével de nossos amores?

Agora, todo mundo tem sua máquina, ou seu celular com câmera, para fazer fotografias. E o avanço tecnológico, trazendo a fotografia digital, aposentou as emulsões, as revelações malcheirosas com banhos químicos, as fotos em preto e branco… Aquela expectativa entre o clique e a observação do resultado acabou, matando muito da magia do fazer fotográfico. A foto apresenta-se imediatamente, no visor, boa ou ruim, com foco ou sem, mau ou bem enquadrada.

Fico pensando: será que essa vida corrida, com seus modernismos, sua insensibilidade crônica para o romantismo e a poesia, sua vocação irremediável para a pressa, não estará agindo como a máquina que assustava os índios? Será que essa vida não é, hoje em dia, u´a máquina que se impõe nos roubando as almas?

Como já lembrei, caro leitor ou ouvinte, há cada vez menos praças. Também há menos lagos, como um daqueles em que Narciso acabou mergulhando e afogando a si e a sua vaidade. Será que esse registro cotidiano, compulsivo, dos cliques fotográficos que cada vez aumentam mais, não estarão nos arrastando para um mundo em que uma certa opacidade requerida pela condição humana, e a mínima privacidade, que nos permite encontrarmo-nos conosco, morrerão afogadas num lago de imagens e de narcisismo?

Máquinas fotográficas registram nossas imagens; câmeras nos espreitam de todos os lados. Mesmo quando escrevo estas modestas linhas, a câmera encarapitada na prateleira, logo acima do computador, me enquadra impiedosamente, lembrando-me de que, a qualquer momento, minha imagem pode ser captada e lançada aos quatro cantos do mundo através das infovias.

Felizmente, paciente leitor ou ouvinte, ainda não inventaram máquinas que roubem o pensamento, a poesia, a paixão, a felicidade, a loucura mansa – tudo isso que pode abrigar nosso verdadeiro ser das insensibilidades do mundo.

Por enquanto, acho que ainda podemos ficar tranquilos – nós, os índios e nossas almas.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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