Rumo ao profissionalismo

Música | Ilha de meu som | BAM Produções

Márcio Tonelli

Praça XV de Novembro. Divulgação

No final da década de 70, o Folk foi empresariado pela BAM Produções, da qual eu era sócio. Seu show “Folk Canta Beatles” foi grande sucesso, excursionando por todo o estado de Santa Catarina, depois de uma apresentação antológica no T.A.C. Era uma pessoa de fino trato, educadíssimo e cordato, que liderava mais por carisma do que pela força, apesar de ser maltratado pela bebida, que sempre tentou largar, mas que teimava em não deixá-lo. Reinaldo nos deixou cedo, ao ser atropelado na BR 101, após um ensaio musical em Palhoça,

Valmir curtia Stones e tocava seu violão nas rodas de “malditos”. Ao lado dos amigos “Paraná” e Paulinho “Marinheiro”, foi o primeiro da nossa roda a compor canções de protesto e, paradoxalmente, canções de paz e amor. Adorava desacatar e desafiar a polícia, com discursos de liberdade de expressão e atitudes provocativas, que lhe deu muitas e rápidas passagens pelas delegacias locais; apesar de não gostar dele, dois irmãos de Cirineu, policiais civis (Airton e Paulinho), o livravam de uma pena maior. Anos mais tarde, numa mudança radical, já formado em Letras e trabalhando no Fórum da Capital, uniu-se a Cabral e, com seus filhos, formaram Os Manessauros, pelo qual ainda passaram Miro e Ringo.

Cirineu era mais politizado e com tendências comunistas, o que o levou a prisão durante o A.I. 5, onde sofreu torturas que, anos mais tarde, veio a colaborar com sua morte precoce. Era uma figura pacata, simpática, meio tímido, mas de grande carisma. O amigo que todos gostariam de ter.

Ringo foi companheiro de Toicinho em sua busca pela batida ideal na bateria. Tocou em várias bandas, sempre com rápidas passagens, normalmente substituindo Roberto Costa. Anos mais tarde, depois de se aposentar da polícia civil, onde era delegado, participou do Grande Pássaro, ao lado de Zuvaldo, Landinho e Neno Correia.

Gilberto tocava violão elétrico e integrou os Mustangs e A Messe. Outra figura simpática, em cuja casa, na Rua Esteves Junior, os ensaios foram realizados por um tempo. Seu irmão mais novo, Nicolau, participou do Folk e hoje tem um estúdio de gravações na Rua Felipe Schmidt, sendo ótimo tecladista e arranjador.

Miro era a referência para “tirar” novas músicas para os repertórios de bandas onde os citados anteriormente atuavam, pois sempre tinha os lançamentos discográficos em primeira mão. Sua casa era um dos mais concorridos locais para reuniões da turma, em cujo quarto compomos muito; seu fusquinha, único veículo da turma, levava a gente aonde precisava, inclusive acampamentos “ecológicos” no interior da Ilha. Sempre ficou dividido entre a música e o desenho, outra grande virtude sua, participando de quase todas as formações do Capuchon.

Até hoje, considero a turma da Crispim Mira (onde, de todos, só Zuvaldo realmente morava) como o núcleo principal da música nos anos 60 e 70 de Floripa, comparável a turma do Clube da Esquina e à casa carioca dos Novos Baianos.

Cheguei à casa do Miro num anoitecer de verão e, adentrando a sala de estar, estava este pessoal na penumbra ouvindo Beatles. Sentei-me com eles e participei daquela “viagem”, a primeira de muitas outras.

Márcio Tonelli. Florianópolis: Edição do autor. Pgs. 31 a 33

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Por Marcio Santos

Músico profissional na Ilha de Santa Catarina há 40 anos. É autor do livro Ilha de meu som que está sendo publicado em capítulos pelo site Caros Ouvintes sobre a música local a partir da década de 1960. Sonhador, luta contra a perda diária que sofre a identidade musical deste “pedacinho de terra perdido no mar”, como disse o poeta Zininho.
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