Rute Gebler relembra trajetória na música lírica

Em meio a instrumentos musicais, pratarias e uma cristaleira recheada de relíquias de família, Rute Gebler fala com um impressionante entusiasmo sobre o Vozes da Primavera em seu apartamento, no Centro de Florianópolis.

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É na sala que ela recebe, desde julho, dezenas de músicos e cantores para os ensaios do espetáculo, que está em cartaz na Capital nesta terça e quarta, no Teatro Ademir Rosa, no CIC.

— Com vontade se faz tudo. A Maria Callas dizia que nunca deixou de ensaiar por causa da guerra. Ensaiavam à luz de velas, e quando passava a patrulha eles apagavam tudo. Era uma salinha pequenininha e eles preparavam as óperas ali. Se, naquela época, ela preparava uma ópera inteira assim, a gente tem que preparar um show aqui — defende.

Nascida em Pelotas (RS) em 1942 e há quase 50 anos em Florianópolis, a maestrina e soprano é reconhecida pela contribuição à música. Já foi tema do samba-enredo da escola Protegidos da Princesa, em 2004, e neste ano recebeu da Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino a condecoração mais elevada da entidade, o Mérito Cultural Carlos Gomes no grau de Comendadora, por seu trabalho de excelência musical realizado no Estado e no país.

A carreira começou despretensiosamente, ainda na infância. A mãe achava bonito uma menina tocar instrumentos musicais e a estimulava a frequentar aulas de música. No começo da adolescência, percebeu que sabia cantar e começou a estudar também canto.

— Com 17 anos, disse pra minha mãe que ia parar de estudar, já que não ia ser cantora. Ela disse: “começou, agora termina”. Comecei a participar de concursos de canto e me saí bem. E aí as coisas foram acontecendo, os caminhos foram se abrindo naturalmente — conta a cantora, que se revezava entre a carreira artística e o ensino.

Em Florianópolis, trabalhou com a Associação Coral de Florianópolis, Coral do Colégio Coração de Jesus e Escola de Música do Ceart/Udesc. Em 1991, criou o Estúdio Vozes, voltado ao ensino e produção de espetáculos de canto, que formou diversos cantores profissionais.

Reconhecida por sua elegância – e recentemente na internet por uma suposta semelhança física com a presidente Dilma Rousseff, Rute credita seu estilo à mãe, que era costureira e não a deixava sair de casa desalinhada.

— Meu pai teve varias profissões, no fim da vida era distribuidor de bebidas. Era um homem trabalhador, de quem tenho que me orgulhar. Mas a pessoa que mais me influenciou foi minha mãe. Saí de casa só para casar, aos 26 anos. Eu já tinha uma carreira, mas não tive dúvida nenhuma de que queria casar — relembra a hoje viúva mãe de dois filhos e avó de quatro netos.

As duas apresentações do Vozes da Primavera serão em comemoração aos 20 anos do espetáculo, que ocorreu anualmente em Florianópolis de 1995 a 2005, sempre em prol de instituições catarinenses. A primeira apresentação foi realizada no Clube 12 de Agosto em novembro de 1995, para ajudar na reconstrução do Hospital de Caridade, que sofrera um incêndio no ano anterior.

Segundo Rute, a ideia de realizar essa edição especial, que tem sua direção geral e regência de Giovane Pacheco, veio de um sonho que teve durante o último Réveillon, passado em Buenos Aires.

— Acho que teve uma influência do espumante. Sonhei direitinho. Meu marido e meu pai, que já faleceram, falavam que se eu não organizasse o Vozes, eles iam organizar. Aí eu disse: deixa que eu faço. Começou a aparecer o pessoal todo que já passou pelo espetáculo, e quando eu acordei eu comecei a escrever o programa. Aí já voltei de viagem com a cabeça feita que queria fazer o Vozes — conta ela em meio a risadas.

O espetáculo, que conta com 200 profissionais entre artistas e produção, vai relembrar momentos marcantes das edições passadas. Será menos luxuoso do que costumava ser, mas com mais recursos tecnológicos de som e luzes. Serão três atos: o primeiro contendo valsas, árias e coros de óperas; o segundo com repertório popular formado por clássicos nacionais e internacionais, e o terceiro com trechos de musicais da Broadway e do cinema. A maioria dos cantores convidados são pessoas que já participaram das antigas montagens e interpretarão novamente os mesmos personagens, em uma grande homenagem ao que o Vozes representou para a cena musical de Florianópolis.

“Alunos que começaram comigo na escola de música da Udesc com sete, oito anos de idade. estão comigo hoje, não é maravilhoso? Isso me entusiasma. Saber que as novas gerações já estão participando. Até minha neta tá participando. Você vê que seu trabalho não foi inútil, que ficou uma sementinha e que ela tá vindo com força”, emociona-se.

Agende-se | Vozes da Primavera | terça (10) e quarta-feira (11), às 20h30 | Teatro Ademir Rosa, no CIC (Av. Governador Irineu Bornhausen, 5600 – Agronômica) | R$ 80 e R$ 40 (meia) | Ingressos disponíveis nas bilheterias do CIC, do TAC e do Teatro Pedro Ivo. [ Texto: Yasmine Holanda Fiorini | Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS ]

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