Santa Catarina se despede de Mário Pereira

O jornalista e escritor Mário Pereira morreu na manhã do dia 21/07/2014, no dia em que completaria 73 anos.

Membro da cadeira de número oito da Academia Catarinense de Letras (ACL), ele estava internado no Hospital Baía Sul, em Florianópolis, por causa de um edema pulmonar. O corpo foi velado na capela B do Cemitério São Francisco de Assis, no Itacorubi, em Florianópolis, e cremado no Crematório Vaticano, em Balneário Camboriú.

Mário tinha nove livros lançados e dois prestes a serem publicados. Foto: Diário Catarinense

Foto: Daniel Conzi (19/03/2013)

Nascido em Porto Alegre, Mário foi um dos pioneiros na implantação do Diário Catarinense, onde atuou como editor de opinião, cronista, articulista e colaborador fixo do DC Cultura.

Autor de romance, contos, crônicas e de obras técnicas de jornalismo, tinha nove livros lançados e dois prestes a serem publicados. Ainda na semana passada, enviou à editora Marta Martins da Silva, da editora Cuca Fresca, os originais das obras infanto-juvenis: Francisco e a Lebre da Quaresma, sobre a história de São Francisco de Assis, e O Gato Mingau volta pra Casa.

Formado em Direito, preferiu as redações de jornal à burocracia dos escritórios. Atuou como repórter no Rio de Janeiro e, aos 26 anos, foi editor-chefe do jornal gaúcho Zero Hora. Em Santa Catarina, foi também editor-chefe do jornal O Estado. Entre os anos 2000 e 2006 foi professor de redação do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul).

Amor por Florianópolis

Mário Pereira chegou a Florianópolis em 6 de janeiro de 1986, tinha então a missão de, com outros jornalistas, implantar o Diário Catarinense, na época o primeiro jornal informatizado da América Latina. O plano era ficar apenas um ou dois anos, mas o autor adotou Florianópolis para viver, amar e escrever.

– Ele fazia parte desse grupo de pessoas que veio de fora e abraçou Florianópolis como sua terra natal. Ainda na semana passada ele me telefonou para contar que estava terminando um novo livro sobre as belezas da cidade destinado às crianças, para conscientizá-las sobre a importância de valorizar nossa cultura – conta o jornalista Laudelino José Sardá, amigo e ex-colega.

Mário acreditava que não se pode amar e cuidar aquilo que não se conhece. Por isso mergulhou na história da Capital e dedicou a ela muitas linhas. O livro Roteiro Histórico e Sentimental pelas Ruas de Florianópolis (Editora Unisul, 2013) é um exemplo da relação afetiva dele com cada canto da cidade. A obra é uma espécie de roteiro turístico com conteúdo poético-histórico de Florianópolis.

Dedicação à literatura

Da mesma forma que amou a cidade, Mário Pereira foi um grande defensor da valorização da literatura catarinense.

– Ele não só escreveu aqui, como se dedicou a analisar e fazer crítica – destaca Nelson Rolim de Moura, diretor-editor da Editora Insular, pela qual Mário publicou três obras, entre elas Saudade do Futuro e Outras Crônicas, de 2011.

Um de seus primeiros livros foi Fazendo a Cabeça – Jornalismo de Ideias e Crítica, (Editora Paralelo 27), em 1993. Dois anos depois, lançou Certas Certezas – Ensaios (Editora Terceiro Milênio), pelo qual recebeu o Prêmio Othon Gama D’Eça, conferido pela ACL.

Publicou uma série de livros sobre Florianópolis, inclusive dedicados às crianças, como História de Florianópolis para Ler e Contar.

Um mestre do jornalismo

Mestre Mário, como era conhecido, costumava dizer que existem duas coisas que são incompatíveis: a burrice e o jornalismo. Colegas de profissão relembram seus textos brilhantes – uma escrita lúcida, nítida, enxuta – e seu posicionamento extremamente crítico com relação à função do jornalismo.

Em 2012, Mário foi homenageado com o Prêmio Dakir Polidoro de Imprensa, na Câmara de Vereadores de Florianópolis. Foto: Diário Catarinense

Prêmio Dakir Polidoro de Imprensa, 2012. Foto: DC

– Ele era muito lúcido e um crítico sarcástico e mordaz. Os artigos dele sempre traziam algo novo, mas sempre em tom de crítica – comenta o jornalista Marcos Espíndola.

Para quem queria aprender a fazer jornalismo, ele recomendava: “leiam e aprendam!”. Tinha um jeito de “adorável ranzinza” e eterno indignado que inspirou dezenas de alunos, quase discípulos.

– Mário tinha a capacidade de perceber o invisível, de captar o não dito, de fotografar o perfume. Apesar de ser um crítico de grande rigor, era extremamente generoso – escreveu o jornalista, documentarista e ex-aluno de Mário, Fernando Evangelista.

Mário Pereira foi professor entre os anos 2000 e 2006. Em seu perfil no Facebook muitos de seus ex-alunos publicaram mensagens enaltecendo o mestre e agradecendo os ensinamentos para o jornalismo e para a vida.

Paixão por animais

Além do jornalismo e da literatura, Mário Pereira tinha outra paixão: os animais. Não era casado e não tinha filhos, mas dividia sua casa em Capoeiras, região continental de Florianópolis, com os seis cachorros e dois gatos, quase todos adotados da rua. Dudu, um dos mais velhos da família, um vira-lata surdo, reumático e alérgico que Mário adotou quando era filhote, morreu recentemente, aos 15 anos, e deixou o escritor abalado.

– Conhecia o Mário havia oito anos. Eu passeava todos os dias com os cachorros dele e o ajudava com os animais da rua. E ele sempre ajudava os outros animais, mesmo quando não podia adotar, comprava ração – conta Edson Costa, vizinho que acabou se tornando braço direito do autor na lida com os bichos e em questões práticas do dia a dia, como serviço de banco e supermercado.

Tamanho era o amor do jornalista pelos animais que ele comemorava o aniversário de cada um deles e usava seu perfil no Facebook para divulgar casos de maus-tratos e compartilhar animais que estavam para adoção.

[ Carol Macario, Diário Catarinense, 22/07/2014 ]

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