São Sebastião

A frase é música para os ouvidos: “Quando Maria começou a falar me pareceu com muita saudade”. Tinha um quê de poético e era a síntese do que viria depois, porque Maria passou a contar como foram a sua meninice e juventude em São Sebastião, um bairro de Palhoça também conhecido como Cova Funda, próximo de onde começam as montanhas que vão dar em São Pedro de Alcântara, Angelina e outros recantos encravados na Mata Atlântica catarinense. Ela fora entrevistada por Karoline Mendes Ortiz, aluna da sétima série da E. E. F. Profª. Maria Clementina de Souza Lopes, e falou do mato, dos pastos, das antigas brincadeiras de criança, dos terrenos baldios que foram dando lugar a residências e casas de comércio.

Hoje, queixou-se, os vizinhos não se dão mais bom-dia e os brinquedos são eletrônicos. Nada de pega-pega, pipa, bola de gude, pião, esconde-esconde, o chefe mandou, carrinhos de madeira, zagaia, futebol de botão, bola de meia. E nem banhos na cachoeira, descer a encosta na folha de bananeira, pegar jabuticaba no pé, fazer trilhas ou acompanhar o pai em alguma caçada.

Este é apenas um dos mais de 180 textos que o professor de português Jair Francisco Lusa recebeu dos alunos de 5ª a 8ª série após promover uma oficina de produção textual, em 2010. O material resultou num livreto de 80 páginas que ajudou a estimular a leitura e a escrita entre os estudantes e promoveu uma aproximação da escola com a comunidade.

Tanto quanto a ideia, chama a atenção o conteúdo das histórias e impressões dos alunos e das pessoas que eles ouviram. São relatos de grutas assombradas, de temporais que ficaram na lembrança, de gente que se escondeu na Cova Funda durante a revolução, dos carros-de-boi cortando estradas. E da água de poço, da roupa lavada nos rios, da pomboca que antecedeu a luz elétrica, das olarias e roças de cana, do cheiro da terra após uma chuva de verão.

Apesar das palmatórias, da penúria e das ruas barrentas, muitos gostariam de voltar àquela rotina sem pressa, às amizades sinceras, ao “cheirinho do café caipira no fogão de lenha” e aos “bolinhos de chuva que mamãe fazia”. Pode ser que, assim como o tempo, a memória seja uma ilusão, mas ela conserva experiências que foram vividas – ou apenas ouvidas e, por força da reiteração, ganharam contornos de verdade na cabeça dos moradores.

São Sebastião, a 10 minutos dos ruídos urbanos, ainda guarda algo do modus vivendi rural, que tende a desaparecer com os loteamentos que tomam conta da região. Por isso, a iniciativa do professor Jair é digna de todos os louvores.

Paulo Clóvis escreve no ND as quartas-feiras.

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Por Paulo Clóvis

Jornalista, cronista e escritor fez carreira no jornal O Estado de Florianópolis, destacando-se como pesquisador cultural. Autor dos livros Pequena História do Teatro Álvaro de Carvalho e Mercado Público e suas histórias. Atualmente trabalha no jornal Notícias do Dia e na Agência de Comunicação da UFSC.
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