Sarney, Maluf & Lula

Uma reflexão mais franca com nossos botões confirma: a pobreza de lideranças políticas é franciscana. Vigora inquietante miserabilidade. Para país onde é astronômica a quantia de eleitores que dizem votar na pessoa e não no partido isso se constitui em tragédia. Na prática, quem possui 30 partidos políticos não tem nenhum (impossível um com ideologia e programa claros); assim, óbvio, torna-se fácil o exercício do poder ocorrer fora de princípios republicanos. Aqui está a raiz de nossos males.  Essa tragédia se percebe claramente na internet, desaguadouro do desespero de muitos brasileiros, com a campanha para anular o voto. Lembro bem de iniciativa semelhante nos anos de 1970: o voto nulo fortaleceu a Arena, justo quem queríamos derrotar. Mas deixa estar, cada cidadão é livre para expressar sua angustia como desejar.

Nós, brasileiros, não possuímos o que nossos professores definiam como sendo o estadista (não confundir com populista), ou seja, alguém de saber notável, integridade absoluta, de visão aguçada que governe objetivando o interesse coletivo, o bem geral da Nação. Um tipo Nelson Mandela, por exemplo, que ao sair da prisão assume o governo da África do Sul sem qualquer ânsia de vingança pelas injustiças sofridas no passado e se torna, para muitos, um dos maiores lideres morais e políticos de nosso tempo.

Nós temos o que mesmo que se compare a um estadista? Em nosso imaginário a figura mais forte que viceja é a de Getúlio Vargas, ditador que nos governou com mão de ferro. Para quem gosta da democracia tê-lo com ídolo é, no mínimo, contraditório. Juscelino esteve longe de ser estadista, Jânio esteve mais para delegado de costume, Jango foi fraco na hora decisiva. Com a postura que vem mantendo e o prêmio que ganhou da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos Fernando Henrique Cardoso começa a ganhar inusitada respeitabilidade interna e externa.

Na ativa temos o eterno José Sarney que, segundo Palmério Dória, é a negação de tudo o que se define como republicano. Ganhou musculatura na ditadura militar e, com faro para detectar movimentos do porvir na política, deixa os militares e se torna menina dos olhos da esquerda (particularmente no governo Lula) que chegaria ao poder na redemocratização. Quem mais? Ah, sim, sim, Paulo Maluf, outro eterno, procurado pela Interpol e que não está na cadeia somente porque nosso aparato de leis é hábil apenas para colocar ladrão de galinhas atrás das grades. Em qualquer pai mais sério os dois não teriam o poder que possui, não deteriam o peso que aglutinam na máquina pública, não teriam tanto prestigio no aparato partidário.

Mais quem? Tem Luiz Inácio Lula da Silva, amado pelo povo, mas que titubeia nos escaninhos do populismo e da vaidade adorando o próprio umbigo. Ele deu um tiro na sua bela biografia e na possiblidade de se tornar estadista com o mensalão e fez disparo quase de misericórdia ao tentar justificar como postura pragmática a busca do apoio de Maluf para seu candidato a prefeito de São Paulo. Não bastasse isso queima pontes que levam ao patamar de estadista intervindo em assuntos internos de outros países, como fazer campanha política em favor de Chaves na Venezuela.

Nossa realidade atropela a ficção, humilha a teoria política, espanta sociólogos e filósofos. Acho que não nasceu o ficcionista capaz de montar 50 anos de historia de um país aonde personagens tão díspares quanto Sarney, Maluf & Lula cheguem, na atualidade, dividindo a cena política nacional como se fossem “companheiros” de longa jornada (como vinho da mesma pipa?). Ou seria dividindo o butim?

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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