Saudades… Luiz Lopes Corrêa

Vários personagens que passaram pelo rádio santista enriqueceram bastante a história do rádio brasileiro, e três deles são citados pelo radialista e escritor Reynaldo C. Tavares, na obra Histórias que o Rádio Não Contou (Negócio Editora, São Paulo/SP, 1997): Vicente Leporace, Luiz Lopes Corrêa e Oswaldo Molles.

Histórias que o Rádio Não Contou, Luiz Lopes Corrêa, na televisão SBT SP

Histórias que o Rádio Não Contou, Luiz Lopes Corrêa, na televisão SBT SP

Hoje vamos conhecer um pouco mais da história do jornalista catarinense de Itajai, Luiz Lopes Corrêa. Comecemos com o que nos conta o historiador Reynaldo Tavares.

Numa bela manhã de outono do mês de abril de 1949, surgiu não sabemos de onde, na PRG-5 Rádio Atlântica de Santos, um jovem franzino e de baixa estatura, ostentando, como complemento do seu terno alisadinho, uma vistosa e colorida gravata borboleta, desejoso de se submeter a um teste para speaker, antiga denominação dada aos locutores de rádio.

A PRG-5 Rádio Atlântica de Santos se autodenominava “A Voz do Mar”. Após as conversações preliminares, ficou decidido pelo então chefe dos locutores e diretor da emissora, Ernani Franco (Virgilato Franco Baccarat), que o estranho que ali buscava uma oportunidade iria ter sua chance, mas para isso teria que mostrar suas qualidades, porque na sua opinião, o candidato parecia muito mais um “jóquei de elefante” do que locutor de rádio.

O teste transcorreu normalmente e o aspirante ao estrelato gecincano saiu-se satisfatoriamente; esta, porém, não foi a opinião do Ernani Franco.

Repentinamente, sem que ninguém tivesse percebido ou pudesse imaginar, formou-se um tumulto, nascendo uma acalorada discussão entre o postulante e o próprio Ernani, que culminou com a expulsão do moço que ali fora em busca de trabalho, o qual, aos berros e safanões, foi jogado na rua quase que aos pontapés.

Já no meio da calçada, o estranho ainda vociferava.

– Ernani Franco, você é um grosso; você não entende bulhufas do que é ser locutor ou speaker de rádio. Você não tem cultura para poder avaliar a pronúncia estrangeira. O teu negócio é irradiar futebol. (pausa) Você sabe com quem está falando? Eu sou o…

Naquele exato momento aproximamo-nos do estranho que, ainda transtornado, tentava se recompor dos empurrões, aprumando-se todo, cuidando do seu terninho, recolocando a colorida e vistosa gravatinha borboleta no lugar.

– Ouça, rapaz, acho até que você não foi mal. Mas não precisava exagerar. Teste é sempre teste. E depois, aquelas improvisações em inglês… Onde é que você estava querendo chegar? Você não acha que foi um pouco de esnobação da sua parte?

– É, companheiro. Você está com a razão. Perdi a cabeça. O pior é que eu precisava muito desse emprego. Estou sem dinheiro e numa cidade totalmente estranha para mim.

– De onde você é?

– Sou de Itajaí, Santa Catarina, e, além de não conhecer ninguém e não ter aqui nenhum parente ou amigo, estou completamente quebrado e faminto. Já é quase meio-dia e ainda nem tomei o café da manhã.

– E o seu nome? Como se chama?

– Luiz. Luiz é o meu nome.

– Bem, Luiz, primeiro vamos cuidar do seu café.

Após uma boa média com pão e manteiga, retomamos o diálogo.

– Aqui bem próximo existe outra emissora de rádio, recém-inaugurada e o dono é meu amigo. Vamos tentar um novo teste, mas veja lá como vai se portar (pausa). Nada de ansiedade ou improvisações. Deixe que eu fale, está bem?

Em poucos minutos estávamos diante do Paulo Mansur, diretor presidente da ZYH-3 Rádio Cultura São Vicente, cujos escritórios ficavam bem no coração da cidade de Santos.

– Paulo, o Luiz está chegando de Santa Catarina e, como você está buscando novos valores, lembrei-me de apresentá-lo antes mesmo de a qualquer outra emissora concorrente.

O Paulo Mansur, como todo bom árabe, meio desconfiado, ainda hesitou…

– Mas… Ele é bom mesmo? Tem experiência em rádio? É seu amigo?

– Paulo, Paulo, se eu não o conhecesse, se ele realmente não fosse bom, você acha que eu teria coragem de trazê-lo até aqui, sabendo o quanto você é exigente? Dê a chance que o Luiz está buscando e, tenha certeza, nós ainda vamos ouvir falar muito a respeito desse moço, acredite!

– Está bem…. Está bem…. Aí sobre a mesa, há um exemplar do jornal A Tribuna de Santos. Você, Luiz, imagine-se no interior de um estúdio e leia em voz alta o noticiário internacional. E de primeira. Será como se os telegramas estivessem chegando nesse momento. Eu quero tudo de primeira.

Nas décadas de 40, 50 e 60 (N.E.: 1940 etc.) o jornal A Tribuna de Santos, a exemplo dos grandes matutinos de circulação nacional, veiculava na primeira página notícias internacionais, que eram recebidas diretamente dos teletipos das agências noticiosas de todo o mundo.

Em rádio, a terminologia “de primeira” significa que o texto deve ser apresentado ao microfone sem nenhuma leitura prévia ou ensaio. É o chamado voo cego. Manchetes, textos foguetes (textos curtos) eram as características do Luiz (havíamos presenciado seu teste na Rádio Atlântica); além de possuir uma bela voz, ele tinha uma excelente pronúncia para nomes estrangeiros e dava a dimensão exata que cada notícia impusesse.

Foi um verdadeiro banho.

Ao final daquele teste improvisado pelo Paulo Mansur, o Luiz foi contratado por oitocentos mil-réis por mês e, de quebra, levou um “vale-adiantamento” para que pudesse se instalar numa pensão em São Vicente, iniciando sua vitoriosa trajetória nos meios radiofônicos fora de Santa Catarina e que não terminaria ali, na “célula mater” da nacionalidade brasileira.

Alguns anos mais tarde, em 1956, agora na capital de São Paulo, após uma passagem pela PRB-9 Rádio Record, transferiu-se para a PRE-4 Rádio Cultura de São Paulo, emissora integrante da Organização Victor Costa.

Naquela época, predominavam os programas dedicados aos hits da música popular norte-americana, que levava nítida vantagem sobre os demais gêneros. Era a famosa fase das big-bands que, no rádio, teve em Lúcio Rangel e Paulo Santos seus maiores expoentes pelos prefixos cariocas, cabendo um destaque especial a Luiz Jatobá que, diretamente dos Estados Unidos da América, transmitia pela PRF-4 Rádio Jornal do Brasil, dentro do programa Big Broadcasting Matinal da Exposição, os últimos sucessos musicais daquele país; na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Haroldo Barbosa produzia e apresentava A Hora dos Amigos do Jazz.

Em São Paulo, Renato Macedo e Moacyr Expedito Moarrê Vaz Guimarães dividiam as apresentações do Ecos da Broadway pelas ondas da PRG-9 Rádio Excelsior; no mesmo prefixo, José Cândido Cavalcanti produzia e apresentava o seu inesquecível Swing Show, Homero Macedo pela PRA-6 Rádio Gazeta brindava-nos todas as tardes com Ritmos de Tio Sam; Roberto Corte Real impunha-se com seu Amigos da América pela PRE-7 Rádio América. Na PRA-5 Rádio São Paulo, Broadway Melody e na PRE-4 Rádio Cultura, J. Alvise Assumpção produzia e apresentava o Século XX e o Midnight. É exatamente sobre este último que iremos contar.

O Midnight era levado ao ar todas as noites a partir da zero hora, em ondas médias e curtas, pela Rádio Cultura de São Paulo. Um público fiel aguardava todas as madrugadas aquele verdadeiro desfile dos grandes mitos da música popular norte-americana, apresentado pela voz inconfundível do Alvise Assumpção.

No meio da década de 1950, o Alvise, já um pouco cansado dos microfones, decidiu que ficaria só com a parte artística, onde acumulava as funções de diretor de broadcasting, designando que o Midnight passasse a ser apresentado pelo locutor do horário, que não era outro senão o nosso Luiz Lopes Corrêa.

Naquela oportunidade, o Luiz já era um motoqueiro assumido.

A Rádio Cultura de São Paulo ficava na Avenida São João, quase esquina da Avenida Duque de Caxias; um dos grandes orgulhos do nosso herói era comparecer aos seus horários de trabalho exibindo sempre uma portentosa máquina incrementada, dentro dos padrões que a maioria dos motoqueiros concebe.

Osmar Campos Filho, diretor geral da emissora, um mineiro que primava pela elegância, dono de um guarda-roupa que faria inveja a qualquer Lord inglês, apreciava tudo que fosse belo, principalmente as mulheres, que diariamente enfeitavam seu gabinete de trabalho, independentemente da cor, raça, credo religioso ou condição social; a única restrição imposta pelo Osmar é que fossem bonitas e do sexo feminino.

A esta altura, o leitor estará se questionando e com certa razão: o que é que tem a elegância e a fixação do Osmar por mulheres com a motocicleta do Luiz e o programa Midnight?

A priori nada, não fosse o fato de o excelente locutor ter subornado o operador de áudio do horário para gravar o programa em fita magnética, sem o conhecimento do J. Alvise Assumpção e muito menos do Osmar Campos Filho.

Várias semanas se passaram e tudo corria às mil maravilhas.

O Midnight era apresentado em tape magnético e, simultaneamente, no mesmo horário, o Luiz, de charuto na boca, com um sobretudo escuro, daqueles pesadões, luvas pretas, chapéu (ainda não havia capacetes) e óculos à prova de vento, demonstrava todas as suas habilidades motociclísticas, realizando proezas as mais ousadas, fazendo inveja ao famoso Capitão Tony, que se exibia no Parque do Ibirapuera no globo da morte.

As acrobacias do Luiz aconteciam entre as avenidas Duque de Caxias e Ipiranga e sua passarela era a avenida São João, onde os termômetros acusavam uma temperatura de 6 a 9 graus, já que naquela época o inverno era rigoroso, com sua clássica e tradicional garoa cismarenta a completar o cenário das madrugadas paulistanas.

O fleumático e britânico Osmar Campos Filho havia importado dos Estados Unidos o último modelo dos carros lançados no mercado (a indústria automobilística brasileira ainda não havia sido implantada), um Chevrolet Freet Line, zero quilômetro, reluzindo um verde-metálico diferente, pneus faixa-branca, ar condicionado, rádio (de válvulas), linhas aerodinâmicas, oferecendo conforto e segurança ao seu feliz proprietário, que a exemplo do Luiz, chamava a atenção de todos aqueles que o vissem circulando em frente ao Palácio do Rádio, sempre com uma linda mulher a bordo, ali mesmo na avenida São João, disputando o espaço com os tradicionais “bondes-camarão” que por ali trafegavam.

Uma certa madrugada, o Osmar, como sempre muito bem acompanhado, ao volante do seu vistoso carrão, ainda não muito identificado com todos aqueles botões e pedais (o veículo era hidramático), numa manobra infeliz, no cruzamento da praça Júlio Mesquita, próximo ao antigo Hotel Lord, atropelou um motociclista que vinha ziguezagueando em sentido contrário.

Estava formada a confusão. Gritos, corre-corre e finalmente a rádio-patrulha para a indispensável ocorrência policial.

De um lado, o Osmar xingando contra a imprudência do condutor da motocicleta que, segundo ele, vinha na contramão e que não era outro senão o Luiz Lopes Corrêa, que, com escoriações de pouca monta, tentava justificar sua incômoda presença naquelas circunstâncias, com charuto, luvas, sobretudo, chapéu etc. No memo daquela discussão, o rádio do Freet Line do Osmar, sintonizado na freqüência da PRE-4, continuava transmitindo placidamente o Midnight pela voz do Luiz, sem que tivesse havido qualquer autorização para que aquele programa fosse levado ao “ar” em forma de gravação em fita magnética ou acetato.

Será que os leitores avaliaram a extensão das discussões? Das consequências? Da reação do Osmar Campos Filho ao constatar que a frente do seu Chevrolet, novinho, cheirando a tinta, estava inteirinha amassada?

E a motocicleta do Luiz Lopes Corrêa, que também era importada, parecia mais um oito, toda retorcida e inerte no meio da avenida, à espera de socorro mecânico.

O resultado de tudo isso nós vivenciamos, mas vamos deixar por conta de cada um, a criação do final desse pitoresco episódio, levando em consideração que os fatos existiram e os personagens são reais, enfatizando apenas que nada disso teria acontecido se, há 47 anos, um jovem franzino e baixinho, que mais parecia um “jóquei de elefante” e buscava avidamente ingressar no rádio paulista, não fosse colocado na rua pelo Ernani Franco, aos berros e safanões, quase que aos pontapés, porque falava fluentemente o inglês e possuía uma boa cultura geral, tão necessária aos profissionais dessa área.

Luiz Lopes Corrêa, moço correto e competente, manteve-se na Organização Victor Costa até a sua encampação pela Rede Globo de Rádio e Televisão, atuando ao longo desses anos todos, com o mesmo entusiasmo e um raro brilho com que sempre engrandeceu os prefixos aos quais emprestou o seu valioso concurso!

Atualmente (N.E.: o texto é de 1997, e sua sobrinha-neta Mariana Corrêa informou ter ele falecido em 16/10/1999), o Luiz Lopes Corrêa, com sua indefectível gravatinha borboleta, é um dos apresentadores do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), atuando no noticioso Aqui Agora, onde apresenta os principais acontecimentos internacionais do dia, e sempre de primeira. [http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0067m.htm]

O último trabalho do Luiz foi na Rádio Capital, em São Paulo, onde atuava como locutor noticiarista. Logo depois faleceu aos 70 anos. Começou, como dito acima, na Rádio Cultura AM de Santos, Rádio Nacional de São Paulo e foi também o “Repórter Esso” na Rádio Record.

Atuou na TV Globo de São Paulo entre 1969 e 1981, apresentou “O Globo em 2 Minutos” e na Rádio Globo o noticiário “O Globo no Ar”. Foi o último correspondente estrangeiro a entrevistar o líder religioso Martin Luther King, nos Estados Unidos.

Para os mais jovens, Luiz Lopes Corrêa ficou conhecido ao trabalhar no extinto telejornal “Aqui Agora”, do SBT. Era ele quem lia as manchetes na abertura do programa. Também era o responsável pela narração das matérias internacionais deste telejornal (Luiz tinha um inglês impecável). E para finalizar, ele ainda mandava expressões em inglês no meio de suas falas. Como exemplo, para chamar uma matéria, ele soltava o famoso “Heeeeeere Now”.

o texto a seguir é de 1997, da sua sobrinha-neta, Mariana Corrêa. Ela informou ter ele falecido em 16/10/1999)

Luiz Lopes Corrêa, moço correto e competente, manteve-se na Organização Victor Costa até a sua encampação pela Rede Globo de Rádio e Televisão.

O Luiz Lopes Corrêa, com sua indefectível gravatinha borboleta, foi um grande radialista e apresentador, atuando ao longo desses anos todos, com o mesmo entusiasmo e um raro brilho com que sempre engrandeceu os prefixos aos quais emprestou o seu valioso concurso!

(nota do autor) – Conheci e tive oportunidade de trabalhar ao lado do Luiz Lopes na Tv Globo, na década de 1970. (Rabbit) [ Fonte: http://www.novomilenio.inf.br/
http://www.bastidoresdoradio.com/ ] Postado por ROALD às 16:40 | Quinta-feira, 29 de outubro de 2009 | TV Globo Anos Dourados.

Encontrei-me com o Luiz Lopes Corrêa em duas oportunidades memoráveis: Em 1955 quando eu estava tentando me mudar de Curitiba para São Paulo e trabalhava a noite na locução comercial da Rádio Panamericana (atual Jovem Pan), até o fechamento da emissora a meia noite. Encerrada a minha escala eu ia direto para Rádio Cultura ficar no estúdio ouvindo o Luiz apresentar o Midnight. Ele trabalhava praticamente no escuro. Tinha apenas uma pequena lâmpada instalada junto ao microfone para ler os títulos das músicas. E o barato é que ele falava baixinho com os lábios encostando no microfone – o que, naquela época, era uma verdadeira heresia. Mas, eu me babava deslumbrado.

A segunda vez que nos encontramos, foi numa visita que fiz como Secretário de Comunicação, acompanhando o governador Pedro Ivo Campos, ao Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Ele foi extremamente gentil conosco servindo de “cicerone” nosso junto às feras paulistanas que queriam comer o nosso fígado por causa da “Farra do Boi” na região da Grane Florianópolis.

3 respostas
  1. jose predebon says:

    Pois, pois, Severo, tua bela matéria sobre Luiz Lopes Correa falou-me ao coração, pois ele “é do meu tempo”. Tomei chope com ele no Redondo, um bar da moda perto de onde ele transmitia o Repórter Esso. Bela matéria, ilhéu amigo, valeu. Abrako do predeba 160203

  2. Newton C Braga says:

    Em 1961, fui para São Paulo fazer o curso de Química Industrial, vindo de Curitiba, onde estudei em 1960 e trabalhei durante algum tempo na Rádio Colombo. Morava em uma pensão, na Rua das Palmeiras, ao lado da TV Paulista, Organizações Victor Costa, e nunca perdia o “Midnight” pela Rádio Cultura de S. Paulo, nessa época apresentado por Renato Macedo. Seleção musical excepcional, um desfile de lindas melodias, como não se ouve mais, já prenunciadas pela fantástica abertura do programa por Roger Williams interpretando Twilight Time. Também ouvia muito a Rádio Panamericana (isso foi muitos anos antes de se transformar na Jovem Pan), que fazia uma enorme quantidade de propaganda da Serraria Americana, creio que devia ser o principal anunciante da emissora.

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