Sayão Lobato, o homem do “Não diga não”

Com emissoras como Itaí, Caiçara, Difusora e Farroupilha disputando os ouvintes das classes C e D em Porto Alegre, a forma espontânea e agitada garante, nos anos 70, o apelido de Magrinho Elétrico a João Baptista Sayão Lobato. Aproveitando a rima fácil com o próprio nome, o radialista ganha espaço com uma brincadeira que marca época no rádio do Rio Grande do Sul: o “Não diga não”. Por Luiz Artur Ferraretto

No mês de abril de 1969, um pouco antes do jogo em que a seleção do Brasil, no dia 7, enfrenta e vence por 2 a 1 a do Peru, dentro das promoções de inauguração do Estádio Beira-Rio, do Sport Club Internacional, Sayão Lobato começa a se destacar na chamada reportagem musical da Itaí. Utilizando uma série de artimanhas, incluindo contornar pela margem um trecho do rio Guaíba com água pela cintura, o radialista consegue entrar na concentração do selecionado em um clube da Zona Norte de Porto Alegre e falar com os jogadores brasileiros:
– Quando me pegaram com o gravador, vieram os seguranças, dizendo que eu não podia entrar na concentração.
Como eu já tinha entrado e, ali perto, numa turminha, estavam o João Saldanha, o Pelé, os jogadores… Aí que eu digo: “Só um pouquinho, deixa eu só falar. Pega meu gravador, não tem nada ligado. Acontece o seguinte: eu sou casado, pai de cinco filhos, eu consegui um emprego, estou conseguindo entrar numa rádio e vim aqui para fazer uma coisa. Não estou falando de futebol. Eu quero só perguntar para o Pelé qual é a música que o Pelé gosta, o João Saldanha, o Jairzinho… Eu quero que eles peçam uma música”. Aí o Pelé disse: “Isso aí nós podemos, vamos pedir uma música!”. E ele pediu uma música do Moacyr Franco. Aí, eu gravei com todos os jogadores da seleção.


Sayão Lobato – Programa Supershow Sayão Lobato (1983)

No dia seguinte, os pedidos entram de hora em hora na programação da Itaí, com grande repercussão junto aos ouvintes. A partir daí, Sayão Lobato percorre as ruas da cidade, gravando pedidos do público em geral e, por vezes, de personalidades. A reportagem musical é irradiada como quadro ao longo da programação com o apresentador, por exemplo Edy Amorim, usando o apelido criado por Marne Barcellos, outro comunicador muito popular na época, chamando no ar:
– O Magrinho Elétrico Sayão Lobato das ruas de Porto Alegre.
Ou simplesmente:
– Fala, Sayão…
Ao que o radialista, aproveitando o sucesso da canção “Você pediu e eu já vou daqui” de Antônio Marcos, repete o refrão:
– Edy, você pediu e eu já vou daqui… – respondendo e já introduzindo a pergunta sobre o pedido musical seguida da resposta do ouvinte.
É na Itaí que Sayão Lobato cria o “Não diga não”, a mais conhecida brincadeira do rádio popular no Rio Grande do Sul, gerando, inclusive, cópias em outros estados. Para ganhar um brinde, o ouvinte tem de evitar a palavra “não” durante dois minutos, enquanto o radialista, justificando o apelido de Magrinho Elétrico, faz pergunta após pergunta, sem deixar tempo para raciocínio algum, em um diálogo extremamente rápido:
– Como é o teu nome?
– Elisa…
– Dois minutos sem dizer não! Se disser não ganha um relógio de presente! Tá pronta, Elisa?
– Sim.
– Então tá… Atenção! Cuidado que o teu coraçãozinho tá sa-sa-cudindo, porque cooomeeeçou… Tudo bem, Elisa?
– Sim.
– Não! Ficou nervosa, eu vi daqui!
– Não…
– Já disse…
No início dos anos 70, a cada dia, durante o seu horário, Sayão Lobato realiza até seis brincadeiras deste tipo, com poucos vencedores. Para participar do “Não diga não”, os ouvintes inscrevem-se previamente e é tal a procura que chegam a esperar três meses para ocupar o seu lugar dentro do estúdio e responder a uma saraivada de perguntas. Fora isto, o comunicador inclui charadas como esta em seus programas:
– Descubra meu amigo, o que é que se tu fores ao meu, eu não posso ir ao teu e, se eu for ao teu, tu não podes ir ao meu? Vale três compactos simples! Não sabe? É o velório.
A popularidade do comunicador na programação vespertina da Itaí faz com que a rádio aposte no “Domingo alegre de Sayão Lobato”, um programa de auditório, das 10 às 12h, apresentado em cinemas com calouros e brincadeiras. Quando o radialista se transfere para a Farroupilha, em meados da década, conduz atração semelhante nas tardes de sábado da TV Piratini. Na mesma época, grava um compacto simples com duas canções. Uma delas – a versão em português de “Prometemos no llorar”, do argentino Palito Ortega – chega a aparecer nas paradas de sucesso. No entanto, seja em rádio ou em televisão, independente da emissora, o momento principal dos programas de Sayão Lobato é sempre o “Não diga não”, presente até hoje na memória dos ouvintes daqueles tempos.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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1 responder
  1. luci beatriz da costa toledo says:

    SAYÃO LOBATO SE POSSIVEL ENTRE EM CONTATO COMIGO
    É IMPORTANTE OBRIGADA LUCI TOLEDO.

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