Segundo tempo: o princípio na palavra de Lúcia Helena

Inspiradora do Projeto Memória do Rádio Catarinense, de Cirley Virgínia Ribeiro e do livro A História do Rádio Catarinense que ela assina em co-autoria com Ricardo Medeiros, Lúcia Helena fala aos Caros Ouvintes.

“Caro Antunes Severo, a nossa conversa nesta quinta-feira me fez voltar no tempo. Como um filme, vieram-me à cabeça os tempos de faculdade. Bons tempos, alegres momentos, quantas descobertas. Entrei em 1979. Primeira turma do curso de Jornalismo da UFSC. Éramos 40 alunos, empolgados com a perspectiva de “mudar o mundo” através das nossas matérias.

Naquela época, o curso tinha excelentes professores (como sempre, aliás), mas não tínhamos nada de equipamento. Lembro-me do Paulo Brito, desenhando um quadrado no quadro negro e dizendo: “imaginem que isso é uma máquina” (fotográfica)! O laboratório de fotografia foi instalado lá pela metade do curso. Tínhamos cinco máquinas fotográficas… Antes disso, também “ganhamos” dez máquinas de escrever. Manuais, é claro. Nos revezávamos nelas. Quando foi montado o estúdio de rádio, a minha turma já havia passado pelas disciplinas relacionadas. Estudamos tudo na teoria. Naqueles tempos, não tínhamos equipamentos de televisão.

Na sétima fase, primeiro semestre de 1982, tivemos que definir nossos projetos de conclusão de curso. Foi um horror! Para mim, parecia tarefa dificílima, cheia de exigências. Sentia-me incapaz. Controlado o desespero inicial, procurei alguns professores para trocar idéias e tentar entender melhor, para poder dominar o processo. Procurei a professora Maria Helena Drumond Saraiva, grande mestra e amiga, dona de grande conhecimento e sensibilidade. Chilena, ela sabia tudo sobre o Brasil. Foi ela quem sugeriu: “Por que tu não pesquisas a história do rádio em Santa Catarina?”. Helena argumentou que não havia nada escrito sobre o assunto e que era necessário começar a registrar o que depois descobri, havia sido essa grande aventura. Topei, com a condição de que ela aceitasse ser a minha orientadora.

Realmente, os registros escritos eram raríssimos, notas esparsas em jornais antigos. Pesquisei tudo, aqui em Florianópolis e também em Blumenau, onde nasceu o rádio catarinense. Mas o principal conteúdo do trabalho encontrei nos depoimentos das pessoas que fizeram a história do rádio. Cada um que eu entrevistava me dava uma lista de muitos outros nomes. O primeiro deles foi o Antunes Severo que, além de relatar a sua própria vivência, me levou pela mão a vários dos pioneiros, na cidade de Blumenau. Foi uma experiência fantástica, mas também angustiante e frustrante. Eu tinha prazo para terminar e tive que restringir a pesquisa. Muitos não foram ouvidos – aí a frustração.

Porém, a idéia do trabalho era traçar uma linha básica, para que outros pesquisadores pudessem aprofundar os estudos do tema. Foi uma experiência muito importante para mim, não só pelo que aprendi sobre o rádio, mas também porque descobri que também havia aprendido, de fato, a fazer entrevistas e passá-las para o papel com alguma clareza. A experiência do trabalho me deu a segurança que faltava para o exercício da profissão de repórter, que exerço até hoje, e despertou em mim o gosto pela política, já que as duas histórias se entrelaçam.

Com muita dedicação e esforço, sempre contando com o apoio da minha orientadora, que lançou luz sobre as pesquisas e me deu o norte das investigações, o trabalho foi concluído a tempo de me formar. Mereceu conceito A da banca examinadora, o que me fez sentir recompensada.

No semestre seguinte, já formada, o professor Sérgio Moreira me convidou para um encontro com os alunos da então sétima fase, para falar sobre o meu trabalho de conclusão de curso. Durante a exposição, disse que, inicialmente, além de escrever sobre a história do rádio, também pretendia recolher material para começar a formar o Museu do Som, da universidade. Porém, esta parte do projeto teve que ser abandonada, por uma série de dificuldades. Sugeri que alguém retomasse a idéia, que foi imediatamente aceita pela Cirley.

À medida em que o tempo foi passando, volta e meia alguém me pedia o trabalho emprestado, o que sempre foi feito. Até que, em 1998, o jornalista Ricardo Medeiros assumiu a cadeira de rádio, na Unisul, em Tubarão, e também solicitou cópia da minha pesquisa. Depois que devolveu, nunca mais me deixou em paz! Durante o ano inteiro, martelou no meu ouvido que eu devia publicar o trabalho. O argumento era sempre o mesmo: não há nada publicado sobre o rádio.

No final daquele ano cedi às pressões do Ricardo e concordei em publicar, com a condição de que ele dividisse a tarefa comigo. Havia necessidade de atualizar as pesquisas e ampliá-las. Iniciamos o projeto em fevereiro ou março de 1999. No dia 6 de outubro daquele ano fizemos o primeiro lançamento da obra, num grande evento na Assembléia Legislativa. O livro teve grande aceitação e também o apoio, imprescindível, de muita, muita gente querida. Foi uma grande alegria para nós. Até hoje, é sempre uma alegria reviver aquelas experiências e poder passá-las aos mais jovens. Ninguém pode compreender o presente, nem projetar o futuro, se não conhece o passado. A preservação da nossa memória é uma tarefa de todos nós. E a história do rádio ainda tem muito a nos ensinar.

Florianópolis, 20 de setembro de 2004.

Lúcia Helena Vieira

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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