Sem bússola, mas bem intencionado

Cronistas da época dizem que esta história é verídica e ocorreu em Curitiba na década de 60. O personagem principal , um profissional de comunicação, considerado muito competente, alegre, divertido e responsável. Vivia uma vida tranqüila entre o trabalho, a família e os amigos que amava tanto quanto o resto. Mantinha hábitos antigos que não mudava, apesar dos apelos que ouvia em casa. Gostava da companhia dos amigos e de uma cervejinha no final do expediente. Todo inicio de noite encontrava a turma num bar das Mercês, para um bom bate-papo e algumas cervejas.

Costumava chegar em casa por volta da meia noite, quando ouvia um discurso que se repetia quase todas as noites. Olívia repreendia o marido na frente do filho com esperança de conseguir, pelo constrangimento, uma mudança no comportamento boêmio do marido .Marilio (nome trocado) não encontrava pecado no que fazia; umas cervejinhas no final do expediente, conversas com os amigos e o leito macio e quente ao lado da mulher, o resto da noite. Era um boêmio bom caráter, cheio de virtudes mas,  tinha grande dificuldade para se posicionar no tempo e no espaço, depois que tomava cerveja além da conta. Os amigos diziam que costumava “perder a bússola e” saia do bar sem rumo. Morava no centro da cidade e em muitas ocasiões se viu no Bacacheri a procura de sua casa .

Certa ocasião saiu a pé do bar nas Mercês em direção ao centro da cidade. Parou logo adiante quando ouviu uma orquestra tocando o bolero Solamente Una Vez. Nessa época era realizado um baile famoso, todo final de semana na Sociedade Protetora dos Operários, no Alto São Francisco. Era ali que a rapaziada ia a procura de uma parceira para uma noite de amor livre, curto e ligeiro.  Nesse tempo não bastava ser charmoso, rico, elegante e bonito.

Uma noite de amor só se conseguia na zona, a um preço bem elevado e com possibilidades de ficar bom tempo para se livrar de uma doença venérea. O baile do Operário era uma saída. Ali encontravam moças, a maioria delas, empregadas domestica, que ficavam encantadas com aqueles rapazes perfumados, elegantes , como “artista de cinema”. Foi num sábado por volta de meia noite que Marilio, atraído pela música  entrou no baile do Operário. Já havia tomado muito e aumentou o volume com mais algumas cervejas. Dizia ele, que não se lembrou de mais nada, depois que dormiu e babou no colo de uma mulata bonita que encontrou no salão. Quando acordou estava numa cama estranha, no sótão de uma casa enorme. – O que é isso? Como é que vim parar aqui? Procurou uma saída e encontrou a mulata, com uma cara marota sem maiores preocupações. – Escuta moça, me explique o que esta acontecendo. Eu preciso sair daqui já, já…

– Fique tranqüilo. Você bebeu demais, dormiu no meu colo e eu trouxe para o meu quarto.

Aqui é a casa onde trabalho. Os meus patrões estão lá embaixo. Agora não da pra você sair. Espere o momento oportuno.Ficou esperando o retorno da mulata que só chegou ao meio dia com um prato de comida.  -Aqui esta o seu almoço. Assim que eles saírem eu aviso e você vai embora.Uma hora depois, Marilio esta “apertado” num quarto onde não havia banheiro. A mulata chegou na hora certa.

– Olha, eu quero mijar e não agüento mais segurar.

O problema foi resolvido com uma bacia de alumínio que ela trouxe.

– Você mija ai e depois derrama devagar no telhado. Bem devagar pra não pingar na varanda lá embaixo.
Cumpriu  as instruções, sem deixar grandes vestígios. As cinco da tarde a mulata retornou com a boa noticia.

– Olha a barra esta limpa. Pode sair.

Foi um alivio, Marilio saiu rápido pela porta da frente,e nem observou os detalhes da bela mansão em que passou a noite com uma mulata que só veio a conhecer melhor quando acordou. Ao chegar na calçada da rua quase deserta,  teve uma surpresa.

– Mas esta é a minha rua. E naquela quadra seguinte é a minha casa.

Assustado com tudo o que estava sendo revelado a sua frente, decidiu ir para a casa e aguardar o tradicional discurso da mulher.E foi o que aconteceu. Abriu a porta e ouviu.

– Que historia é essa, Marilio, sai de casa no sábado pra trabalhar e retorna na tarde de domingo. Explique, vamos.

– Olha Olívia, se eu contar, você não vai acreditar.

– Não interessa, conte, tudo direitinho, e já.

Marilio contou tudo, ou quase tudo.Omitiu o endereço e a mulata bonita e charmosa foi transformada, em sua narração, numa mulata gorda, suada de cabelo gorduroso e cheirando a armário de pia.

Terminou a narrativa e esperou a reação da mulher que, postada em sua frente com as duas mãos na cintura, disse em alto e bom som:

– Era só o que faltava…agora alem de boêmio, virou mentiroso.

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *