Sem os “outros” tudo seria muito melhor!

Para o destemido escritor moçambicano Mia Couto entre as causas dos terríveis problemas sociais e econômicos que se abatem sobre a África está “a nossa tendência para culpabilizar os outros pelos nossos próprios erros”. Acrescenta, com ênfase, que outro fator a dificultar a vida dos africanos “é o coitadismo que praticamos vezes sem conta.” Ele não mede e nem poupa palavras nas análises que faz a respeito da situação social e econômica do continente africano: “a construção de diabos é, afinal, um investimento a prazo: a nossa consciência pode dormir à sombra dessas ilusões”.

O complexo de coitadinho não é exclusividade africana, nós da América Latina o praticamos com rara maestria. Na raiz dessa traumática mania está inclusive a postura de figuras veneradas como Simon Bolívar, por exemplo, que em 1815 (já revelando os pendores ditatoriais apontados por Karl Marx) teve a cara de pau de afirmar que éramos inferiores aos norte-americanos: Disse Bolívar: “Enquanto nossos compatriotas não possuírem os talentos e as virtudes políticas que distinguem nossos irmãos do Norte, os sistemas inteiramente populares, longe de nos serem favoráveis, receio que virão a ser a nossa ruína. (…) Estamos dominados pelos vícios contraídos sob a direção de uma nação como a espanhola, que só sobreviveu em atrocidade, ambição, vingança e avidez.”

Sacaram a sutileza que virou praga entre nós? O europeu que foi para a América do Norte estava apto à democracia, o europeu assentado do Rio Grande para baixo, não. E ai o mal do México (e o nosso) foi estar sempre muito próximo dos estadunidenses.

No século seguinte surgiu um especialista em apontar culpados pelos nossos problemas de pobreza, atraso, analfabetismo: o uruguaio Eduardo Galeano. Sua bíblia do atrasado chamada de “As veias abertas da América Latina” fez coro como Simon Bolívar e nos tratou como mentecaptos. Já pararam para pensar no tipo de geração de alienados que esses conseguiram produzir com suas acatadas afirmações?

Esses dois foram oportunistas, movidos por ideologias ou ingênuos? Embora os enormes estragos que suas ideias produziram não sei responder. O que disseram, porém, caiu em caldo de cultura fértil e nos cegou sobre as reais causas de nossas mazelas sociais e econômicas e sobre as possibilidades que estão ao nosso alcance para fazer deste um continente melhor. E apesar de tudo, os dois ainda são venerados entre nós.

Como notamos, vem de longe essa mania que brasileiros em particular, e que os latino-americanos e os grandes teóricos da esquerda em geral possuem em grudar nos outros a culpa pelas nossas fraquezas, equívocos, tolices e quejandos.

Mas há agora até explicação cientifica para isso! O psicólogo canadense Steven Pinker garante: “o cérebro humano evoluiu de forma a sempre advogar a favor de si próprio. A primeira reação ao sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer de que não fizemos nada de tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade”. Bingo!

Bem, o que desejo registrar mesmo é que o governo brasileiro disse que nossa economia vem crescendo a passos de tartaruga por causa da crise que se abateu de modo feroz na Europa. Que coisa, hein? Quem diria, os europeus de novo incomodando a gente. Eles, outra vez? Quando esses caras vão parar de atrapalhar nossos projetos? Bons tempos aqueles em que a economia não se desenvolvia só por causa do imperialismo americano…

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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