Sempre escravos

Dia 13 de maio de 1888 foi assinada a Lei Áurea; o fim da escravidão no Brasil; a monstruosa ação de fazer de outros seres humanos servirem seus senhores muitas horas por dia, todos os dias do ano, todos os anos da vida.

Fazia parte da escravidão os abusos, as humilhações, a extrema dor mental e emocional de ver filhos sendo vendidos como simples mercadoria e não ter advogados ou a imprensa para se recorrer; muito menos o implorar aos seus donos.
Governos, igreja e pessoas com dinheiro aumentaram em muito sua fortuna com essa barbaridade. Mas no dia 13 de maio de 1888 ao se espalhar a notícia do fim da escravidão deve ter havido pulos de alegria e lágrimas de emoção; finalmente livres. Livres? Como assim?

Se o dia 13 trouxe emoção também deve ter trazido dúvidas tanto aos agora ex escravos como aos que com coragem e bondade lutaram por isso: O que seria dos ex escravos do dia 14 em diante; quem os empregaria? Quanto receberiam? Como seriam tratados pela sociedade? Que direitos lhes seriam assegurados?

O sempre companheiro – Dicionário, define escravo, como: Indivíduo que está ou foi privado de sua liberdade, sendo submetido à vontade de outrem, definido como propriedade. Por extensão: Dependente; quem não consegue livrar-se da influência de: álcool; escravo do trabalho e de outras coisas.

Alguns clássicos exemplos de escravidão: A formação do elemento – Estado nos dá proteção. Nos assegura de que somos realmente donos daquilo que compramos, do que pagamos com nosso dinheiro, muitas das vezes de anos de economia e por muitas vezes algo parcelado por muitos anos, como a compra da casa própria/apartamento; ou um carro. O Estado nos garante que não teremos a surpresa de chegarmos em nossa casa e encontrar outra família ali, e sermos recebidos pelo “novo proprietário” com um rifle nas mãos. O Estado nos dá garantia de vida e de propriedade. Opa, dá? Não. O Estado cobra algumas tarifas, alguns valores, sejam eles impostos ou outras taxas que vêm da criatividade, da brilhante mente criadora de alguns representantes públicos. Não daria para citar quanta criatividade já houve e tem havido. Lá nos anos 90, por exemplo, foi um tal de – Kit primeiros socorros; justamente quando a população já havia sido alertada para não tocar em feridos no trânsito. E por quanto tempo essa e outras leis duraram? O quanto renderam? A população era livre para dizer aceito ou não aceito?

A população de muitos lugares, aqui na Grande Florianópolis não é diferente, é escravizada pela falta de mobilidade; trânsito intenso praticamente todos os dias e em quase todos os lugares. Um martírio diário por um problema que já deveria estar resolvido; escravos do trânsito e de falta de vontade de quem tem a responsabilidade e as condições de resolver o problema.

Lutamos para comprar; depois para quitar e continuamos pagando por toda a vida por aquilo que já pagamos; afinal, somos livres para ir ao banco pagar tais taxas. Só um louco acharia que impostos não deveriam existir. O atual sistema o exige. Todos sabem que o problema não são os impostos em si, mas sim ser de alto valor e saber que uma grande fatia vai na direção oposta às necessidades do povo.

Representantes públicos e outros grupos têm muita criatividade. Se alguém ouve música e brinda seus clientes com as canções dos artistas, pronto, que tal uma taxa para isso? Eis o Ecad. Não só de rádios e shows são cobrados, mas de consultórios médicos ou qualquer lugar que use as obras, as músicas para descontrair seus clientes pode ser “convidado” a pagar o Ecad.

Na Grande Florianópolis até dois anos atrás para transportar um corpo depois do velório até um município vizinho para a cremação havia uma taxa de 1200 reais. Claro, paga só se quiser; se não quiser pagar o corpo no caixão não cruza os municípios.

Ninguém teve a ideia e tomara que eu não a dê agora de cobrar uma taxa de oxigênio. Fácil. Uma média de quanto respiramos por dia e começa a pagar assim que se nasce. A gestante talvez pagaria uma taxa adicional, com um desconto por ter o bebê ainda no ventre.

Alguém poderá dizer que isso tudo é palhaçada, os escravos sofriam muito mais; dizer que foi terrível o que o governo, a igreja católica e mercenários fizeram uma desgraça a vida dos escravos: concordo plenamente. Um dia prestarão contas num tribunal maior. Refiro-me a situações em que nossa liberdade é vetada a cada dia. Da grande luta para comprar e manter uma casa ou carro. De manter os filhos em uma escola, seja pública e mais ainda numa particular. De vivermos sob alerta por causa dos constantes assaltos seguidos de impunidade. Cabe aqui dizer: Palmas à polícia que faz o que pode, mas não tem o apoio de leis que se cumpram. Muitos hoje veem seus filhos sendo como que vendidos para as drogas e as incertezas de um sistema podre, pobre e cheio de dinheiro. Ainda morremos por falta das coisas que temos em abundância.

Quando muitos conseguiram ter um condicionador de ar em casa sofrem com um grande aumento na conta de luz e muitas quedas de energia.

Quando alguém ousa falar uma verdade é silenciado. Se for um jornalista com nome reconhecido as chances de ser demitido são grandes; ou o convidam a pedir desculpas por dizer uma inconveniente verdade.

Desde o dia 13 de maio de 1888 comemoramos o fim de algo que jamais deveria ter ocorrido; uma vergonha mundial, escravizar. Mas é bem verdade que desde aquele eufórico e belo dia milhões de pessoas precisam certificar-se de até onde podem ir, falar e fazer. Claro que há o lado bom, o bom senso. Não podemos sair por aí falando ou fazendo o que bem entendemos, afinal, somos vistos como racionais. Só é lamentável de que nunca sejamos realmente donos de nada.

Pessoas e organizações se apoderaram de grande parte da natureza sem pagar por isso e lucram muito. E continuam fazendo com que a maioria de nós de um jeito ou de outro tenhamos pelo menos a sensação de que – somos livres, quando na verdade de um modo ou de outro todos, sem exceção sejamos ainda escravos; ou por escolhas erradas ou por imposições.

Se no dia seguinte às comemorações ao fim da escravidão alguns pensaram: “E agora, o que vamos fazer com essa tal liberdade?”; talvez nós se fôssemos realmente livres faríamos a mesma pergunta.

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