Ser justo

Justo: “Quem age ou vive seguindo as normas da justiça e da moral; honesto”. Palavras do grande amigo, Dicionário.

Há também quem diga uma frase interessante: “Difícil não é ser bom, difícil é ser justo”. Então, que tal caminhar por histórias sobre – justiça? São três histórias, duas reais e outra, talvez um conto ou uma parábola, mas todas ensinam muito.

Faz alguns anos que escrevi uma crônica sobre como: Somos os nossos melhores “advogados” e os mais duros “promotores” para quem está no nosso “banco dos réus”. Se somos nós ou um dos nossos a defesa é incrível; caso contrário, fortes “advogados” de acusação. E quanto a ser justos, como é desafiador. Vamos às histórias?

A primeira foi contada pelo jornalista, Mário Motta. Envolve ele mesmo, seu irmão Gilberto, também jornalista e o sábio pai deles. Mário disse que quando eram crianças seu pai comprava uma Maria Mole que era para seus dois filhos, então, logicamente, ela deveria ser dividida com justiça. O pai dava ao Mário um privilégio especial, cortar o doce ao meio. Aí entrava o ensinamento do saudoso pai dos nossos comunicadores; o irmão mais velho, Mário, cortava a Maria Mole, mas Gilberto, 4 anos mais novo, recebia a tarefa de ser o primeiro a escolher qual das duas partes seria a sua. O ponto era claro; enquanto o mais velho tinha a honra de cortar o doce ao meio o mais jovem tinha a tarefa de escolher primeiro. Fico imaginando o irmão mais velho cortando o doce, talvez fosse a toque de olhos clínicos; exatamente ao meio.

A segunda é muito conhecida; do famoso rei Salomão. Certo dia soldados levaram ao ainda jovem rei duas mulheres. Tratava-se de um grande dilema. Ambas haviam dado à luz horas ou dias antes; bebês recém nascidos. Uma das mulheres encontrou o filho morto durante à noite e segundo a outra mulher seus filhos haviam sido trocados. A que perdera o filho teria trocado os bebês; deixou seu filho morto ao lado da outra mulher e pegou o filho dela. Enquanto uma dizia: “Ela trocou o seu bebê morto pelo meu que está vivo, quando o vi logo pela manhã percebi que não era o meu filho”. A outra dizia: “É uma mentirosa. O filho dela morreu e agora quer o meu filho; o dela está morto, o vivo é o meu, está em meus braços”. Como o rei resolveria a questão? Ele convocou um dos soldados e disse perante todos: “Uma diz que o filho morto não é dela, a outra fala que o filho vivo é seu. Basta. Soldado, pegue a sua espada e corte o bebê ao meio e dê a metade da criança a cada mulher”. A história conta que uma das mulheres disse: “Isso mesmo, não será nem meu e nem seu”. Ao passo que a outra mulher ajoelhou-se e disse chorando: “Não. Por favor, meu rei, não faça mal ao bebê. Que fique com ela”. O rei imediatamente mandou entregar o bebê à mulher que suplicou pela vida da criança e disse: “Somente uma mãe verdadeira preferiria entregar seu filho a vê-lo morto. Esta que suplica pela vida do bebê é a verdadeira”.

A terceira pode ser um antigo conto, mas também é intrigante; diria que vale apresentá-la aos amigos reunidos num churrasco, por exemplo. Se é real, não sei, mas é boa. Um rei estava muito doente. Todos os médicos e curandeiros já haviam o tratado sem bons resultados. Ele já tinha a morte como certeza quando alguém indicou a ele um velho médico que morava sozinho em uma montanha. O ancião fora convocado pelos súditos dos reis. Disseram a ele que se curasse o rei poderia pedir o que quisesse; o rei nada lhe negaria. O senhor visitou rei. O examinou, preparou alguns chás e uma dieta. Em poucos dias o rei estava curado, completamente saudável; melhor ainda do que antes de adoecer. O rei perguntou o preço, o quanto o senhor queria; poderia ser ouro ou terras; o que ele quisesse. O senhor disse que agradava-lhe ver o rei curado e foi embora. Depois de poucos passos o senhor voltou-se para o rei e seus nobres e disse: “Perdão meu rei, mas creio que há algo que gostaria de pedir-lhe”. O velho médico disse: “Gostaria de sua clemência aos seus prisioneiros. Peço o seguinte, vossa majestade, que reduza pela metade a pena de cada um dos prisioneiros. O que tem 30 anos que cumpra 15; o que tem 20 que cumpra 10. Só peço isso, reduza pela metade o tempo de prisão de todos os prisioneiros”. O rei deu imediatamente a ordem; que se cumpra o que pediu o homem que havia salvado sua vida. Nesse momento o chefe da guarda aproximou-se do rei e perguntou: “Meu rei, e como faremos com os que tiverem prisão perpétua?” O rei levantou-se e chamou o idoso que já se afastava devolvendo a questão que o chefe dos soldados havia levantado. O senhor aproximou-se do rei e com leve sorriso apresentou a solução para esse problema. Ele disse: “Que o meu rei faça o seguinte para que também esses presos e condenados tenham a mesma oportunidade. Que esses que têm prisão perpétua fiquem pelo resto de suas vidas um dia na prisão e um dia soltos. Sempre aqui na cidade; um dia na prisão e no outro livre; até que se cumpram seus dias”.

Para alguns pode parecer difícil até mesmo ser bondoso, mas para outros o desafio não é o – ser bom e sim o ser justo. Justiça envolve mais atenção e responsabilidades do que ser bom. Para ser justo é preciso se despir de preconceitos. É necessário olhar para os outros com igualdade de direitos. Envolve ser imparciais, mesmo quando falamos de um filho, de pai ou de mãe, de irmão ou de amigo, da razão numa reclamação, quando estamos no trânsito e às vezes de nós mesmos. Ser justos significa que a nossa opinião não é o mais importante e talvez nem entre em questão, e sim os fatos.

Provavelmente muitos de nós confundimos bondade com justiça. Ambas são boas qualidades, mas o ser justo envolve muito mais. E sem essa de dizer que “ninguém deve julgar os outros”. De forma geral isso é óbvio. Por outro lado somos obrigados a fazer julgamentos praticamente todos os dias, independente de nossa profissão. Pais, casais, patrões, funcionários, clientes, vizinhos; todos somos levados a julgar algo ou alguém em algum momento. O grande desafio é quando a questão não envolve simples decisões. Por vezes temos que tomar decisões ou fazer julgamentos que afetarão a nós e a outros; muitas vezes pelo resto da vida.

Desde o cortar a Maria Mole; o saber de quem é o filho vivo ou mesmo como reduzir pela metade uma prisão perpétua a vida nos leva à posição de juízes. Dificilmente uma decisão, um julgamento, agradará as duas partes. Só poderemos saber se agimos com justiça se essa ultrapassar a bondade e for guiada por princípios, moral e imparcialidade.

Pobres de nós no papel de juízes; pior ainda para àqueles que dependem de sermos justos.

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