Será que nos tornaremos seres em extinção?

Pois não é que o nosso camarada Antunes Severo joga-nos um balde de água fria com a sua matéria sobre Aninha, a namorada de Jerônimo/Herói do Sertão, que vem de nos encharcar e refrescar a memória?
Por José Alberto de Souza

Lá se vão praticamente 60 anos e me vejo, de repente, recortando um cupom de jornal ou revista, propaganda dos Chapéus Ramenzoni, para solicitar a remessa gratuita de um folheto com as Aventuras do Capitão Atlas, aquele do chapelão tipo explorador das selvas africanas, que recebi e tenho extraviado ai por um dos escaninhos dos meus guardados.
Decorrido algum tempo, recém chegados os anos cinqüenta, a Rádio Tamoio do Rio de Janeiro das sete às sete e quinze (da noite), diariamente, apresentava essas Aventuras, numa oferta de Standard Brands do Brasil, fabricante dos famosos produtos Pudim Royal e Gelatina Royal.
Nesses quinze minutos em que me ligava ao receptor de ondas curtas para escutar essa programação, mantinha todos os meus sentidos bastante atentos ao decorrer da narrativa vibrante do speaker Paulo Ferreira, então um dos melhores locutores da Rádio Tamoio, com destacada apresentação das mais importantes novelas da época, como Os Que Não Devem Nascer, do cubano Felix Caignet.
E nesse curto intervalo de tempo, ainda conseguia ouvir os diálogos dos diferentes personagens vividos através da interpretação de radio-atores como Eugenia Levi (Rainha da Cachoeira), D’Andréia Neto (Índio Chico), Hamilton Pacheco (Quati), Carlos Cotrim (Capitão Atlas), Radamés Celestino (Tunicão), Paulo Célio (Índio Chico), Paulo Raimundo (Capitão Atlas), Aidé Miranda (Rainha da Prata), Aldo Madureira (Cacique Tuçaba), Márcia Gonçalves (várias caracterizações), Mario Jorge (Índio Chico), Heloisa Mafalda (Feiticeira da Lagoa), Ronaldo Magalhães (Ling Tung), Nair Amorim (Dulce) e outros tantos; alguns deles revesavam-se num mesmo personagem.
Em 02/1951, foi lançado precariamente o primeiro número da Revista do Capitão Atlas, com melhoras significativas a partir do nº. 2 através das diversas fases de reformulação da mesma, até passar à direção artística (nº.20) de André Lê Blanc, conceituado artista plástico, quando atingiu o ápice de sua apresentação gráfica.


Capa da Revista Capitão Atlas

Na ocasião, o nacionalismo emergia nos mais diferentes setores da vida nacional, o que se refletiu na valorização do traço de desenhistas e roteiristas das histórias em quadrinhos brasileiras, até então dependentes e influenciadas pelo patriotismo norte-americano do pós-guerra que criou estereótipos alheios à nossa cultura.
Assim como Jerônimo, o Herói de Sertão, também o Capitão Atlas constituiu-se num marco da nossa afirmação em valores mais condizentes com a dignidade de nosso povo, apesar da indumentária estilizada dos personagens principais desse seriado.
Quando comecei a tomar contato com as imagens reveladas nos quadrinhos, admirava-me como aquelas histórias contadas pelo rádio conseguia estimular o meu imaginário, reconhecendo as vozes dos personagens, enxergando os cenários sugeridos, enfim todos sentidos aguçados no desenrolar da trama escrita por Aldo Madureira.
Coisas que somente a magia do rádio-teatro poderia nos conduzir nesses meandros da nossa consciência e que agora infelizmente vai perdendo a sua razão de existir.
Revista do Capitão Atlas – ilustração da capa e sobrecapa, nesta última publicava-se fotos dos integrantes do elenco da Radio Tamoio-RJ atuando nesse programa.


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1 responder
  1. Urbano Loureiro says:

    Eu nem frequentava a escola nesta época e a vibrava com as aventuras do Capitão Atlas.Tenho guardado até hoje os gibis. Bons tempos que se foram. A TV poderia trazer estes personagens de volta no lugar de tanta novela cheia de sexo e filmes americanos de ação que só enaltecem heróis extrangeiros.

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