Seresta com Humberto Mendonça

Bravas equipes de rádio dos anos 50! Aperturas de todo jeito, mas ninguém perdia o bom humor e o romantismo. E é neste último tema que desejo me deter hoje. O romantismo era usado e abusado pelos radialistas da época.

Humberto58 2Humberto já estava há algum tempo em Tubarão; eu apenas “estacionei” na Tubá por poucos meses, a seu convite, enquanto o Padre Agenor aguardava a chegada do técnico Sidney Moratto para a montagem da Rádio Difusora Urussanga ZYT-22 – que já me havia contratado.

Uma noite Humberto, na roda com Wendhausen, Jurandir, eu, e outros notívagos incorrigíveis, propôs fazermos uma serenata (ou até mais de uma, se houvesse tempo e fígado pra agüentar a “cuba-libre” sem perder o rumo)…
O Humberto, cantando, levava bem um bolero… Eu tirava umas notas da harmônica… o Wendhausen, embora atrapalhado, tocava uma espécie de maraca cubana…

E o violão? – Fazia poucos meses, um amigo da roda, funcionário da então agência Ford, tivera uma desavença num bar e acabara “em cana”.

Era um baita tocador de violão-tenor, bem adaptado ao tom alto da harmônica…

Hildeu era o carcereiro. Feio que dava dó, mas excelente companheiro. Cismava em cantar as desilusões (que não escondia) de sua vida… A música preferida (e apropriada) do Hildeu era “O ébrio”, de Vicente Celestino e Gilda de Abreu.

Mas a voz do homem era uma lástima. Ao ouvi-lo, à noite, até morcego “cortava caminho”. Mas Hildeu precisava deixar o nosso violonista sair um pouco da cela para compor nosso “conjunto”… Nossa premência foi a sua realização, pois ele condicionou de pronto: “Solto o homem, mas só se eu cantar minha música na serenata!” Não tivemos escolha e lá fomos rumo ao bairro de Oficinas, na Rua Rui Barbosa. A casa das donzelas tinha uma entrada com mureta e, a 1,50m, a porta principal e duas janelas estreitas.

O som ecoou suave na noite com o bolero “Solamente una vez”, de Agustín Lara. Beleza pura! Era só para acordar suave… Depois veio mais “Nosotros”, de Pedro Junco.

E também foi só: O Hildeu cismou de cantar “O ébrio”!!! Só deu de chegar no “Tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer…”, e o ferroviário, pai das moças, daqueles que costumavam dobrar trilhos com os dentes, berrou lá de dentro: “Péra aí que a de dois canos vai fazer o acompanhamento desse taquara rachada!”!

Até hoje não sabemos onde foi parar a capa do violão tenor, nem uma gabardine minha que estava sobre a mureta… E aquilo seria mais um peso para atrapalhar na inabalável corrida naquele momento… (Na foto, Humberto, já mais comportado ao microfone da Rádio Diário da Manhã, na Capital, em 1958) Matéria atualizada.

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