Seu Costa e dona Maria

Osmar Silva *

Eu a conheci há mais de onze anos, seguramente. É uma preta velha, de idade indefinível, uma relíquia humana do tempo da escravatura, quando a babá transferia toda a imensa ternura do seu coração, para os filhos do Sinhô. E fazia suas as tristezas e as alegrias da Sinhazinha e babava-se de ingênuo orgulho com as façanhas do Sinhô Moço. Ela vem de uma época em que um fio de cabelo era documento de honestidade e a decência tinha um sentido diferente! E, embora viva da caridade de alguns, conserva aquela dignidade que era o apanágio de outras gerações e que hoje, na baixa constante dos títulos de nobreza de caráter, é tida como falso orgulho.

A preta velha aceita esmolas, mas não estende a mão à caridade pública. Alta, magra, o rosto anguloso, capengando um pouco à perna esquerda, pode ser vista diariamente na Rua Conselheiro Mafra.

De onde vem e para onde vai, não sei, mas eu a vejo sempre com simpatia e já me habituei aos seu cumprimento invariável: “Como vai, seu Costa?”

Eu que sempre a chamei de dona Maria, faço-lhe, quando posso, presente de uma modesta nota representando alguns desvalorizados cruzeiros.

Dona Maria não pede a esmola, mas eu, que a conheço há tanto tempo, sei que o seu “Como vai, seu Costa?” equivale a pergunta: “Tem uma esmolinha pra mim?”

Há mais de onze anos ela me chama de seu Costa, sem qualquer protesto de minha parte, mas, outro dia, decidi esclarecer o assunto.

Chamei-a, quando passava, e disse-lhe: “Dona Maria, tenho aqui uma lembrança para a senhora, mas de hoje em diante não me chame de seu Costa: meu nome é Osmar Silva.

Ela me olhou e sorriu, dizendo: “Que engraçado, meu filho! Meu nome também não é Maria. Eu me chamo Francisca e pode deixar que não chamarei mais o senhor de seu Costa”.

Obrigado, dona Maria, disse-lhe ao sair e ela, seguindo seu caminho, respondeu: “Até logo, seu Costa”.

Estou escrevendo esta crônica e rindo! Rindo da inutilidade de nossa conversa. Porque eu continuei sendo, para ela, o seu Costa e ela continua sendo, para mim, a dona Maria.

* Coquetel de Crônicas. Edição do autor. Florianópolis, 1962

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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