Seu Dulcino volta

– Olha quem está aí! – exclama o atendente, mal o vê se encostando no balcão. Não há mais ninguém na sala, ele vai lá dentro, volta dizendo que está com sorte, pode passar, o delegado o aguarda.
– O Dico me falou no seu caso, Seu Dulcino. Escreveu aqui: um radinho assim e assim… Andaram roubando o seu radinho, foi isso?
Por Flavio José Cardozo

– Foi, foi, semana passada. Um radinho de muita estimação.
– Mas o senhor não registrou queixa nem tem nota fiscal.
– É isso mesmo.
– E quer levar o radinho.
– Bem, se o senhor concordar…
– O Dico disse que o senhor até já identificou o radinho.
– Foi, foi.
– Vamos lá ver isso. Dico!
O funcionário aparece, ágil, bem disposto, e o delegado pede que vá buscar o radinho. O velho fica aparentando uma calma que não tem – por dentro é uma agonia só, uma agonia boa, pois aquilo está com jeito de que vai dar certo.
– Cá está ele – diz o Dico.
O velho pega o radinho, examina-o com amor. Diz, com um nó na voz, que é ele, sim. Carinha de pau, pensa o delegado, lendo na etiqueta que faz pra mais de dois anos que aquele rádio está ali e ninguém reclama. Mas simpatiza com Deu Dulcino, seu jeito de olhar o aparelho, sua roupa, sua coragem.
Aquilo não chega a ser um crime, chega? Um radinho que talvez é só atravessar a ponte e já não pega mais nada. É o legítimo assunto para o bom senso, não? O velho pode, digamos, ser nomeado zelador daquele treco enquanto não aparece ninguém devidamente documentado para reclamá-lo, não pode? É isso aí. Decidido. Dico que faça o termo de compromisso, com o nomezinho certo, o endereço etc. e tal.
– O senhor vai cuidar bem dele, Seu Dulcino?
– Vou, doutor. Desta vez ninguém me rouba ele não. Prometo que nunca mais venho aqui incomodar o senhor.
Sai afagando o radinho.
– Nunca vi uma carinha de pau assim – comenta o delegado, sentindo que o coração está leve.
– Nem eu – diz o Dico.
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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