Severino bom de papo

 Voz forte e meio fina, soando muitas vezes com som tão agudo que incomoda os freqüentadores do Mercado do Produtor em Guaratuba. Severino Estrela é uma das figuras populares mais estimadas da cidade e assíduo freqüentador do mercado onde aos sábados costuma fazer longos discursos com criticas ácidas contra políticos e todos os governantes em evidência.
Por Jamur Júnior

Tem boa memória e sabe desfilar seus argumentos. Fala com desembaraço sobre a CPMF, o terceiro mandato, a invasão do Iraque pelo exército de Bush, a amante do senador que virou modelo fotográfico de revista masculina.

 

Severino é nordestino. Nasceu em Umbuzeiro, Paraíba, filho de lavradores, sem estudo e sem rumo para o futuro. Deixou sua terra, seus amigos e familiares em 1950, com destino a Pelotas no Rio Grande do Sul. A viagem no Itatinga durou vários dias de enjôo e vontade de nunca ter entrado naquele navio. Chegou em pleno inverno com o vento “Minuano” soprando forte e gelado na região. Ficou uma semana em terras gaúchas e pegou outro navio. Agora o destino era Paranaguá.

 

Hospedou-se na Pensão São Pedro, na Rua da Praia e saiu em busca de um trabalho. Começou como servente de pedreiro e mais tarde conseguiu emprego na Cia Progresso de Armazéns Gerais. Trabalhou quatro anos na cidade, sem muito entusiasmo e fazendo planos para voltar a sua vida na lavoura.

 

Em 1954 pegou um ônibus com destino a Guaratuba, para trabalhar como cortador de uma madeira leve e forte muito usada na fabricação de lápis. Quando conseguiu algum dinheiro comprou uma canoa e atravessou a baia em direção ao Rio das Onças na encosta da Serra do Mar.

 

Ali construiu sua moradia. Uma pequena casa sem divisão interna e rodeada de mato por todos os lados. Montou uma roça de mandioca, banana, feijão e milho. No quintal cercado por varas e cipós, umas galinhas e um cachorro magro e lento. Severino reencontrou seu mundo particular rodeado pela exuberante mata onde o silêncio era cortado pela sinfonia dos pássaros.

 

Sem medo e determinado, foi ficando, casou e teve seis filhos.  Aos 75 anos de idade a vida continua com muito trabalho na roça e muito discurso na cidade. As críticas de Severino aos políticos no poder despertaram curiosidade nos ouvintes ocasionais. Quando conversa fala baixo, com calma e gosta de um bom bate-papo. Responde tudo com desembaraço e franqueza. 

 

– Severino qual é sua fonte de informação?
– Mas, que fonte, ó chente.
– De onde você tira essas informações sobre os políticos, o governador, o presidente… Você lê nos jornais, em revista, onde?
-Não, senhor. Não sou de lê. Tenho dificuldade com as letras. Eu ouço no radinho de pilha. Tenho dois: um que carrego na cintura quando estou na roça e outro maior que fica na casa.

 

Severino que mora no mato continua ligando no mundo, pelo Rádio.

 

 


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Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
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