Soap-opera na terra do Tio Sam

Os Estados Unidos foram os pioneiros no meio radiofônico. Neste país, em dois de novembro de 1920, era inaugurada pela Westinghouse a primeira estação de rádio do mundo, a KDK-A.
Por Ricardo Medeiros, de Florianópolis

Dois anos mais tarde, os norte-americanos já contavam com 382 emissoras e em 1923 o número de estações passou para 556. Quanto ao número de ouvintes, a audiência cresceu de 600 mil para quatro milhões, entre 1921 e 1925.

Com este cenário, os Estados Unidos foram também os pioneiros na inserção de folhetim nas ondas hertzianas, a partir da década de 1930. Lá, a história seriada no rádio foi chamada de soap-opera e a primeira ficção a ser transmitida foi Painted Dreams, seguida por Today’s Children. Este gênero dramático, difundido pelos grandes monopólios radiofônicos, RCA (Radio Corporation of America) et NBC (National Broadcasting Company), recebeu um tratamento diferente do folhetim original impresso que era apresentado em capítulos breves até o desfecho final. A história seriada do rádio americano se constituía numa multiplicidade de plots (tramas), sem realmente ter um término, permanecendo no ar até 20 anos.

Conforme Ciro Marcondes Filho (1994) na soap-opera: “Há um grupo básico de personagens, normalmente parentes, uma ou duas famílias, e em torno desse grupo desenvolvem-se múltiplas relações, correlações com outros indivíduos em histórias que se desenvolvem, começam e acabam, mas a vida desse grupo, ou desses grupos de pessoas, continua sempre renovada e repetida. Esse tipo de relato é substancialmente diferente da narrativa clássica, já que não há um fechamento assim como não há m início marcado”.

De imediato o radioteatro dos EUA ganhou um caráter popular, quando se analisam os dados fornecidos por Renato Ortiz (1991) que diz que somente entre 1930-1934 foram comercializados 4,6 milhões de aparelhos de rádio, a forma mais barata de lazer encontrada pelos americanos que passavam por uma grande depressão econômica. O novo meio de comunicação não era mais privilégio da elite, mas uma realidade para 90% da população urbana daquele país.

Para manter no ar as emissões, as rádios americanas contavam com o apoio publicitário das multinacionais de produtos de limpeza como: Procter and Gamble, Colgate-Palmolive e Lever Brothers. Por isso o nome soap-opera, ópera de sabão, que implicava que a radioteatralização tinha como anunciantes as marcas citadas. Essas empresas apostaram nas estórias seriadas após constatarem, através de uma pesquisa, que era a dona de casa quem decidia sobre o lugar e o teor das compras domésticas e que durante os afazeres do lar elas preferiam ouvir algo de entretenimento ao invés de didático. Aplicar verbas nos dramas foi a melhor opção para conquistar o universo feminino, particularmente o de baixa renda, que fazia das ficções seu momento de entretenimento.

Os anunciantes aproveitavam os intervalos do radioteatro para dirigir mensagens comerciais para o público alvo. Desta maneira as encenações radiofônicas mostravam-se um forte aliado para criar junto à dona de casa novos hábitos de consumo.

Entre 1932 e 1939 mais da metade das óperas de sabão encenadas tinham uma preocupação clara com os problemas femininos. Foi o caso dos títulos Ma Perkins, Stella Dallas, Joyce Jordan, Girl Interne, Pretty Kitty Kelly, Big Sister, Girl Alone e Backstage Wife. Aproveitando o momento de crise nos Estados Unidos, os personagens, como Perkins (Ma Perkins), passavam a imagem de mulheres fortes e determinadas com o objetivo ideológico de levantar o moral das americanas com o colapso generalizado na economia após a queda da bolsa de valores de Nova Iorque. 

A radioteatralização americana servia para vender idéias e produtos. O rádio transformava a vida dos habitantes da terra do Tio Sam, sobretudo da mulher presa ao lar. As encenações traziam um mundo de fantasia para a senhora do lar. Ela não mais se sentia tão solitária quando se dedicava aos trabalhos domésticos. Ela tinha agora como companheiro o rádio, que por vezes lhe proporcionava tensão, mas que no final trazia o alívio compensador , sob o auspício de alguma marca de sabão.

Link Relacionado:
>> Primeira transmissão de rádio dos EUA (requer WMP instalado)

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Por Ricardo Medeiros

Doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Le Mans, França). Radialista, jornalista, escritor e professor de rádio do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e assessor de imprensa da Prefeitura de Florianópolis. É um dos fundadores do Instituto Caros Ouvintes.
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