Sobrevoo

Olho do alto a grande cidade. Essa imensa maquete nem parece prenhe de vida. A esta distância, em sobrevoo, não me chegam as verdadeiras proporções das coisas: ruídos, cheiros, texturas não existem. Demiurgo, posso criar minha própria cidade imaginária. Desenho ruas com caprichosas sinuosidades de rios: nada me impõe as angulosidades funcionais. Crio praças, muitas praças – círculos para encontros, espaços para o povo. Semeio verdes generosamente: tapetes e mais tapetes de grama; árvores grandes e pequenas, antecipando-as pejadas de flores e frutas, pouso certo dos passarinhos. Construo prédios, uns grandes outros pequenos. Neles, sem pressão e azáfama, há gente que faz coisas não esperadas: recita poesia pelas salas; dança pelos corredores; faz dos elevadores câmaras de eco ideais para os assovios…

 

Ergo casas pequenas em terrenos grandes, cercando-as de jardins. Trepadeiras firmam-se nos beirais e sobem aos telhados; samambaias curiosas se metem pelas janelas, num doce voyeurismo em verde; flores saturam o interior das moradas com infinitas variedades de perfumes.

Ao invés de veículos que atravancam, há gente nas ruas; gente que passeia com total liberdade. Há crianças despreocupadas  brincando sob as árvores. Ninguém se sufoca nas casas sob o jugo hipnótico da parafernália eletrônica.

Daqui de cima, em meu sobrevoo, não distingo o que dizem, mas sei que se conversa muito nesta minha cidade imaginária. Fala-se livremente: de amor, de solidariedade, de cooperação. As palavras são as únicas armas – para convencer, nunca para impor, humilhar,  ordenar. Ri-se muito; o humor perpassa os contatos humanos, dando à vida um sabor inigualável.

Ah, como se canta nessa cidade! Melodias e harmonias embalam o cotidiano. Cantos singulares e cantos conjuntos fazem-se ouvir todo o tempo; todos amam a música que, em seu milagre sonoro, suaviza o viver e destrói a rudeza, penetrando pelos ouvidos e chegando às almas.

Ama-se total e exuberantemente nessa cidade: do amor carnal, físico, sensual, ao amor platônico, tímido ou incapaz de declarar-se. Mãos, lábios, corpos inteiros aproximam-se, tocam-se, entrelaçam-se.

Labora-se muito na minha cidade imaginária. Trabalho e lazer são quase indistinguíveis, dado que cada um faz o que lhe cabe com prazer, exercitando, de modo feliz, um labutar que resulta no benefício de todos.

Daqui desta altura, posso sentir a paz que reina em minha cidade. Uma paz que penetra em tudo, que a tudo e a todos envolve. Pacíficos são os objetivos, os empreendimentos e os modos suaves embora determinados de alcançá-los. Não há guerras em andamento ou em perspectiva: sejam as grandes carnificinas que lançam a raça humana no lodaçal da indignidade, sejam as pequeninas guerras do dia a dia – as disputas miúdas pelo poder, os embates para sobrepujar o outro, os duelos de prestígio, as brigas em torno de questiúnculas que tanto tempo roubam à possibilidade da vivência plena da vida.

Sobrevoo minha cidade. É linda, me faz feliz e… melancólico, por sabê-la tão bela; por vê-la como um fruto perfeito da engenharia imaginária de que nosso espírito é capaz; por contemplá-la em sua singeleza e felicidade; mas igualmente por sabê-la utópica e irrealizável.

Realizador fracassado diante da impraticabilidade do que foi concebido, sinto-me, porém, eufórico com a dimensão poética de meu sonho. Lanço mais um olhar à minha querida cidade, lá embaixo. Cubro-a de nuvens brancas,  com as quais desenho caprichosamente carneirinhos, buquês de intensa alvura, flocos de brancura imaculada e outras formas comuns ou estranhas, ao sabor de meu delírio.

Sigo voando, célere, pelo céu quase absurdamente azul, em cujo horizonte vislumbro a vermelhidão de um intenso pôr-de-sol. Quem sabe, lá longe, no infinito, existirá, nalgum lugar, nalgum tempo, uma cidade assim!

Olho do alto a grande cidade. Essa imensa maquete nem parece prenhe de vida. A esta distância, em sobrevoo, não me chegam as verdadeiras proporções das coisas: ruídos, cheiros, texturas não existem. Demiurgo, posso criar minha própria cidade imaginária. Desenho ruas com caprichosas sinuosidades de rios: nada me impõe as angulosidades funcionais. Crio praças, muitas praças – círculos para encontros, espaços para o povo. Semeio verdes generosamente: tapetes e mais tapetes de grama; árvores grandes e pequenas, antecipando-as pejadas de flores e frutas, pouso certo dos passarinhos.

Construo prédios, uns grandes outros pequenos. Neles, sem pressão e azáfama, há gente que faz coisas não esperadas: recita poesia pelas salas; dança pelos corredores; faz dos elevadores câmaras de eco ideais para os assovios…

Ergo casas pequenas em terrenos grandes, cercando-as de jardins. Trepadeiras firmam-se nos beirais e sobem aos telhados; samambaias curiosas se metem pelas janelas, num doce voyeurismo em verde; flores saturam o interior das moradas com infinitas variedades de perfumes.

Ao invés de veículos que atravancam, há gente nas ruas; gente que passeia com total liberdade. Há crianças despreocupadas  brincando sob as árvores. Ninguém se sufoca nas casas sob o jugo hipnótico da parafernália eletrônica.

Daqui de cima, em meu sobrevoo, não distingo o que dizem, mas sei que se conversa muito nesta minha cidade imaginária. Fala-se livremente: de amor, de solidariedade, de cooperação. As palavras são as únicas armas – para convencer, nunca para impor, humilhar,  ordenar. Ri-se muito; o humor perpassa os contatos humanos, dando à vida um sabor inigualável.

Ah, como se canta nessa cidade! Melodias e harmonias embalam o cotidiano. Cantos singulares e cantos conjuntos fazem-se ouvir todo o tempo; todos amam a música que, em seu milagre sonoro, suaviza o viver e destrói a rudeza, penetrando pelos ouvidos e chegando às almas.

Ama-se total e exuberantemente nessa cidade: do amor carnal, físico, sensual, ao amor platônico, tímido ou incapaz de declarar-se. Mãos, lábios, corpos inteiros aproximam-se, tocam-se, entrelaçam-se.

Labora-se muito na minha cidade imaginária. Trabalho e lazer são quase indistinguíveis, dado que cada um faz o que lhe cabe com prazer, exercitando, de modo feliz, um labutar que resulta no benefício de todos.

Daqui desta altura, posso sentir a paz que reina em minha cidade. Uma paz que penetra em tudo, que a tudo e a todos envolve. Pacíficos são os objetivos, os empreendimentos e os modos suaves embora determinados de alcançá-los. Não há guerras em andamento ou em perspectiva: sejam as grandes carnificinas que lançam a raça humana no lodaçal da indignidade, sejam as pequeninas guerras do dia a dia – as disputas miúdas pelo poder, os embates para sobrepujar o outro, os duelos de prestígio, as brigas em torno de questiúnculas que tanto tempo roubam à possibilidade da vivência plena da vida.

Sobrevoo minha cidade. É linda, me faz feliz e… melancólico, por sabê-la tão bela; por vê-la como um fruto perfeito da engenharia imaginária de que nosso espírito é capaz; por contemplá-la em sua singeleza e felicidade; mas igualmente por sabê-la utópica e irrealizável.

Realizador fracassado diante da impraticabilidade do que foi concebido, sinto-me, porém, eufórico com a dimensão poética de meu sonho. Lanço mais um olhar à minha querida cidade, lá embaixo. Cubro-a de nuvens brancas,  com as quais desenho caprichosamente carneirinhos, buquês de intensa alvura, flocos de brancura imaculada e outras formas comuns ou estranhas, ao sabor de meu delírio.

Sigo voando, célere, pelo céu quase absurdamente azul, em cujo horizonte vislumbro a vermelhidão de um intenso pôr-de-sol. Quem sabe, lá longe, no infinito, existirá, nalgum lugar, nalgum tempo, uma cidade assim!

Categorias: , , Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *