Sociedade de consumo, a Venezuela e o bicho…

Caso minha memória tenha captado direito o que disse o professor de religião do antigo cientifico no Colégio Conceição, “dilema é uma situação difícil, na qual é preciso escolher entre duas alternativas contraditórias ou antagônicas ou insatisfatórias”. É algo parecido com o que diz a canção do Nei Matogrosso: “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.” Se ainda estivesse entre nós Shakespeare talvez mudasse sua sentença interrogatória: consumir ou não consumir, eis a questão?

Lembrei-me dessa aula ao acompanhar um debate ácido contra a “sociedade de consumo, que nos arrasta para um mundo caótico”, segundo um interlocutor que segue a lógica do engenheiro de obra pronta. Foi conversa boa embora, ao final, o dilema permanecesse ainda mais pungente. O Planeta entra em colapso se o padrão de consumo europeu (mesmo com a crise) fosse estendido a todos os cinco bilhões de terráqueos, disse o interlocutor, que colocou a questão na perspectiva ambiental. Não houve discordância consistente na plateia. Caso se apele ao padrão de consumo dos Estados Unidos precisaríamos três planetas para espicha-lo para todos.

Em aparte alguém botou lenha na fogueira ao lembrar com avalanche de dados e o mapa-múndi que em todos os locais do Planeta onde não há intenso consumo de bens a miséria é assustadora. Não houve qualquer discordância consistente. É intrigante detalhe: apenas os de barriga cheia, bem agasalhados, usufruindo dos bens gerados pela ultima tecnologia em todos os níveis tem vociferado contra a sociedade de consumo.

Pobreza e, vejam que dado interessante, opressão estão muito mais presentes em sociedades de consumo ralo, onde o abastecimento as necessidades básicas das pessoas é feito com enormes dificuldades. Exemplo mais próximo e atual é o da Venezuela, onde o socialismo/bolivariano (o que é isso?) da dobradinha Chávez-Maduro implantou o controle biométrico nos supermercados que sua politica caolha esvaziou. No passado remoto o polegar foi instrumento de libertação do homem agora, num dos países mais ricos da América Latina, é usado para humilhar e submeter uma população inteira aos caprichos de governantes populistas que desestruturaram a logística de consumo.

Será que um dia entenderei porque as coisas que são simples na cabeça ficam extremamente complicadas na vida cotidiana? O ser humano começou a consumir com crescente intensidade ainda quando vivia nas cavernas (o domínio do fogo, a invenção da roda e outras ferramentas colocaram à disposição coisas inimagináveis) e desde então há relação direta entre consumo e desenvolvimento, consumo e dignidade, consumo e liberdade, consumo e democracia, consumo e segurança.

O debate em torno do consumismo tende a se aprofundar, quer pelo aumento da população, pelo desenvolvimento de outras regiões do Planeta – a África, por exemplo – ou pela rapidez com que bens e produtos se tornam obsoletos. E até porque, como disse o filósofo Jean Baudrilhard: os objetos não possuem apenas valor de uso e valor de troca, mas também um valor de signo, determinante nas práticas de consumo. Ouso dizer que isso pode estar no DNA, pois porque motivos os indígenas de todas as eras usavam/usam todo tipo de enfeites na cabeça, braços, orelhas, nariz, umbigo…
Ah, sim, no Brasil há algo poderoso no debate consumir X não consumir: “os mais renomados e influentes artistas que berram contra o consumismo ganham milhões de reais fazendo propagada de tudo o que condenam como supérfluo.”

* Membro da Academia Passo-fundense de letras

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