Sol e a Lua

O Nordeste brasileiro é a terra do Sol!

O problema é que às vezes o Astro-Rei passa um pouco da conta e maltrata seu povo, que até que gostaria que a profecia de Antonio Conselheiro se realizasse, com o sertão virando mar.

Curiosamente, no barro ressecado dos rios temporários, os sertanejos ficaram muito tempo à deriva, sem ter quem contasse sua história de sofrimento e superação.

Foi quando um jovem de Exu decidiu que sua vida seria viajar por este país, primeiro como soldado, quase abandonando suas raízes…

O resfôlego da sanfona o encantou longe de sua terra, mas suas primeiras incursões na carreira musical, no Rio, não refletiam o que trazia adormecido, na alma. Fazia solos de acordeão, mas o que tocava pouco de acordo tinha com seu solo natal.

Até que resolveu tocar coisa sua, que virou coisa do Brasil, e cuja nobreza o elevou a categoria de “rei”: Rei do Baião! E como tal, foi reverenciado em todo país.

Luiz Gonzaga cantou e encantou, com sua voz e imagem fortes!

As parcerias com Humberto Teixeira, Zé Dantas e tantos outros proporcionaram alguns dos maiores clássicos do cancioneiro nacional, músicas cantadas até hoje, por quem sequer ouviu falar deles.

Algumas frases são inesquecíveis, com mensagens poderosas entoadas a plenos pulmões, que ilustram um misto de tristeza, alegria e paixão:

“Vai boiadeiro, que a noite já vem! Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem.”, ecoa em minha mente como um hino que une lida diária e amor com a mesma intensidade. Afinal, de certa forma, somos todos um pouco “boiadeiros”, tocando a vida ao sabor dos elementos, lutando contra as adversidades, sonhando dias melhores e, principalmente, amando.
Querem maior tristeza do que ouvir que: “Até mesmo a asa branca, bateu asas do sertão!”, daquela que pode ser considerada a “canção do exílio” do sertanejo? Querem maior malvadeza do que quando: “… furaram os olhos do assum preto, pra ele assim, ai, cantar melhor”?

Mas, se o sol ardia e queimava, a noite tinha duas luas, a do céu e Luiz Gonzaga. E nela queimava a fogueira de São João e de toda menina que enjoava de boneca, que: “… só quer, só pensa em namorar”, talvez o xote mais amado de seu repertório de centenas de músicas.

Já coroado “Rei”, também resolveu ser matreiramente “veterinário”, receitando, com base no dito popular: “… pra cavalo véio, o remédio e capim novo!”. Matreiramente porque, sendo bicho-homem, conhecia essa terapia: “Vem, morena… Esse teu fungado quente, bem no pé do meu pescoço… faz o véio ficar moço!”.

Luiz Gonzaga fez cem anos! Fez porque permanece vivo, não apenas no coração do povo, mas também em sua voz!
Ele nunca há de ser esquecido, mas também precisa ser conhecido pelas novas gerações, que também estão perdendo as raízes nacionais.

Daí, uma súplica, que não é apenas cearense, mas brasileira: valorizem nossa cultura!
E viva Luiz Gonzaga: o cabra que fez o sol encontrar com o “Lua”!

Adilson Luiz Gonçalves | Membro da Academia Santista de Letras | Mestre em Educação | Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor

Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento)

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