Sons na madrugada

Os sons são um ingrediente indispensável na construção das madrugadas. Noite adentro, há um mundo à parte criado pelos sons.

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Na madrugada, tudo ecoa; tudo é ruído, entonação; mesmo o silêncio ressoa, nem que seja somente dentro das almas insones.

Mínimos barulhos se engrandecem e fazem-se presença forte e por vezes ensurdecedora, na madrugada.

Um simples lápis que cai da escrivaninha expõe-se integralmente como um lápis que cai e soa. Esse mesmo esguio e retilíneo pedaço de madeira macia que abraça o grafite, quando caído da carteira da menina em meio à algazarra do dia, na sala de aula, não se mostra como som; anula-se na confusão sonora das algazarras.

O coaxar de sapos na madrugada transforma uma lagoa escura, pantanosa, plena de vida, no palco da sinfônica de batráquios, cujo solista é o sapo-martelo, secundado pelo som profundo do sapo-boi. para a delícia de rãs meio submersas.

E os cães? Ganem, uivam, ladram como donos do espaço sonoro da madrugada, nas ruas e nos quintais. O coral canino sem uníssono é democrático: convertem-se à folia de sons desde o cheiroso e penteado cachorro de madame e o tonitruante cão-de-guarda – cães com pedigree – até o esquálido e sarnento vira-latas.

Sons da madrugada exibem-se em variadíssimas modulações. Uma sirene de ambulância rasga em ruído, numa demonstração quase gloriosa, o silêncio da noite; goza do álibi da dor e do desespero conduzidos à pressa em busca do socorro. Já marcante em sua discrição, na sua cadência elegante, mas por vezes também aterrador, é o tique-taque do relógio.

Há sons tão naturais na clareza do dia que se tornam aterradores na madrugada. Assim é o barulho do telefone, quando estilhaça sem dó o aconchegante silêncio da madrugada. O sobressalto torna-se inevitável; o medo entra na alma enquanto esse som entra nos ouvidos. Quem será? O que aconteceu? Jamais as boas notícias atravessam a noite para aquecer os corações; elas esperam a companhia do sol cálido das manhãs para alegrar as almas.

Um som prosaico dá bem a medida da contaminação dos sons pelas madrugadas: uma torneira defeituosa ou mal fechada é bastante para mobilizar a atenção e tornar-se, mais que um incômodo, uma fonte segura de irritação. Se esse som é no apartamento ao lado, torna-se quase insuportável, pelo quanto que demonstra de nossa impotência.

Fora de nosso alcance, a água pinga, pinga, pinga como se a inexorabilidade se tornasse liquefeita.

Na madrugada, existem sons surdos, abafados, misteriosos, simplesmente inexplicáveis. Fantasmagóricos, é como se os ouvíssemos com o âmago do ser medroso que habita dentro de cada um de nós. Uma porta que parece ranger, abrindo-se ou se fechando; um som de chinelos arrastados, como se um ancestral há muito pranteado fosse se chegando devagar; sons guturais, quase inaudíveis, como se tentassem irromper de gargantas impotentes, semi-estranguladas mas desejosas de soltar um grito forte e pavoroso.

A cozinha é sempre um lugar de ruídos estrondosos; se visitada de madrugada, pela vontade por vezes irresistível de comer alguma coisa, mostra-se uma câmara que amplifica os sons de talheres que caem, pratos que se chocam, panelas que se esbarram.

No banheiro, a descarga – som escandaloso e quase envergonhante – parece uma agressão perpetrada contra o sono reparador do prédio inteiro.

Quando feito de madrugada, o amor impõe seus ruídos: sussurros audíveis somente pela pessoa amada; gritos roucos no desvario da paixão; gemidos que corporificam sonoramente o prazer; e muitas vezes gritos bem audíveis, escandalosos, como a testemunhar sem medidas a importância do amor bem praticado.

Sons: trilha sonora indispensável no mistério das madrugadas.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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2 respostas
  1. Gercina Alves de Oliveira says:

    Como sempre, amigo, você divide com seus leitores a beleza de suas observações onde a poesia invade e dulcifica a racionalidade de sua mente privilegiada, pronta a surpreender todo encanto e mistério imerso nas coisas mais simples do do dia a dia.
    Gercina.

  2. Geraldo Silveira de Andrade says:

    Parabéns, Professor J.Cirino!Mais uma de suas brilhantes crônicas.

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