Sopa de pedra, meios de fortuna e criatividade

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

Certos recursos didático-pedagógicos na informação, no treinamento, na educação e na capacitação de nossos jovens muitas “artes” têm sido usadas, principalmente as histórias orais, ou ”boa a boca” como se dizia. Pois é dessa simplicidade que vem a sua credibilidade a ponto de se tornaram lendas e se consagrarem como bons exemplos de sucesso e sabedoria. Assim é, por exemplo,  a história da Sopa de Pedra. Certa vez, entre meus quatro e cinco anos de idade, quando o mar da Rita Maria chegava acima da praia natural, meu amigo e protetor, ”Seu Vital”, zelador do Galpão do Clube Náutico Riachuelo perguntou se eu estava com fome.

Confirmando a velha crença, que todo guri está sempre com fome, disse que comeria até pedra. Aí ele me disse: “Meu filho, vai lá na beira do mar e traz uma pedrinha bem limpa e lavadinha na água salgada”.

Assim foi feito e quando lhe entreguei a pedrinha vi uma fogueirinha acesa e um panelão de água potável, quase fervendo. Seu Vital pegou da pedrinha e jogou-a no panelão. Aí lhe perguntei: e a minha fome? Calma que ela já passa, mas precisas ir naquele matinho atrás do galpão do clube e cata uns galhinhos de cebolinha verde, salsa e outros temperos e cheiros verdes. Passa na água salgada e bem lavadinhos traz para mim…”.

Assim feito ficamos os dois a picar com os próprios dedos aquela fortuna silvestre, nascida espontânea à beira mar…

E com a infusão fervendo, ei-lo a chamar a esposa: – “Ô Maria! traz do ninho das meninas aqueles três ovos que os gambás não conseguiram roubar…”.

Logo a boa mulher em seu vestido de chita e branquíssimo avental doméstico, vem com a encomenda… “Cuidado véio que as meninas pararam de ponhar ovos  … E tu menino, vai naquele pé de limão vermelho e busca umas frutas…”.

De volta da missão cumprida, lá estava uma mesinha sobre uma pedra cabeçuda, três pratos de barro, talheres de pau, uma cuia de farinha de mandioca e um caldo de inigualável perfume e apetitosa aparência…

Era a açorda portuguesa: a sopa de pedra das lendas antigas.

Saciados, segue a prosa e seu Vital me pergunta: e aí meu barrigudinho, acabou a fome e aprendeu alguma coisa?

Mudo fiquei e mudo escutei: “Ora pois, meu gajo, quem tem criatividade faz da natureza seu baú da fortuna e da criatividade, o sucesso na vida…”.

Espantado olhei para aquele obscuro sábio de aparência modesta e já bem idoso, e perguntei: Seu Vital, quando for grande eu posso contar essa história para os outros?

A resposta está aqui, nessa história que conto para você, mais de sessenta anos depois. E era raro o acampamento escoteiro em que à noite o nosso jantar, como prato único, não era um belo sopão… sem pedras, claro.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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3 respostas
  1. eno josé tavares says:

    O texto dessa milenar estória de criatividade e estímulo aos que se acham traídos pela sorte, distraídos pelas bonanças da vida e atraídos por falsas quimeras, eis que na prática, a qualquer nível, condição social ou profissional, não é necessário ser escoteiro para transformar certos momentos desfavoráveis em um fator de sucesso. Na verdade, o Movimento Escoteiro Mundial não pretende e não deve fazer de suas atividades um compromisso profissional. Porém, uma oportunidade de aprender ensinando… Assim, nossos textos para Caros Ouvintes têm esse escopo: provocar em nossos leitores reações positivas e produtivas na vida de cada um de nós todos… Ao nos incorporarmos ao tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Sampaio Guimarães nosso objetivo ainda continua sendo a auto educação, a auto instrução e a auto informação valorizando o potencial dos mais simples ou simplórios que existem dentro de cada um de nós com nossas estórias, casos, causos e histórias. Nessa forma de narração com muito de fantasia, retoques pictóricos e dados superficiais, sentimos que aprendemos e que nossos leitores têm uma imensa capacidade de entender o que pretendemos…

  2. ENO JOSÉ TAVARES says:

    Comentário exigido: do escotismo prático à escola risonha e franca à escola de artífices. Na tristeza profunda da destruição deliberada pelo poder público dos Grupos Escolares, do Curso Primário aos Cursos Ginasiais, Clássicos e Científicos, preparando nossas crianças e adolescentes, para os impactos dos cursos universitários e por extensão, às profissões e formadores de outras levas de alunados, destruíram a instrução, o ensino, a formação e a educação nacional. Mesmo processo.

  3. eno josé tavares says:

    PLANTAR A VARINHA,CULTIVA-LA,COLHE-LA,FAZER O FOGUETE E CORRER ATRÁS DELE…

    é como sinto, ao ler esses textos sobre Escotismo em Caros Ouvintes…Nossos leitores e Ouvintes(se a matéria for para a rádio),estão democráticamente autorizados, a não acreditar neles e até nos cahmarem de mentirosos,pois como chefe de escoteiros do mar,nossas diabruras(falares dos amigos Sapiroca e Patrocínio),passdos mais de cinquenta anos, são coisas do outro mundo…Por exemplo, Praia dos Naufragados-Sul da Ilha Encantada- Junho de 1961 ,Primeira Campanha da Vacinação SABIN contra a poliomielite…Meia tarde,ainda na Praia dos NAUFRAGADOS
    quase chegados no Farol,uma gritaria feminina aterrorizante…No mar, Costão ,uma baleeira carregada de meninos,redes de pesca de alto mar ,e, as ondas varrendo a quase submersa…mochilas ao chão, roupas tiradas ao léu,e, sem qualquer comando,arrastamos os náufragos, para a praia…de volta,só de cuecas,aproamos para o mar alto,esgotamos as águas e jogamos as redes borda afora…Navegabilidade ótima,recolhemos as redes,palamentas e demais objetos à vista…voltamos ao rancho sede da quase siistrada canoa grande….Só meninos de onze a dezessete anos(oito ao todo),autores dessa proeza…Acreditem se quizerem,eram os Escoteiros do Mar do Chefe Feijão, mostrando o quanto vale um estilo de vida, dedicado ao próximo…Comandantes da Óperação? Marcos Noronha e Luiz César de Souza-O Negão Luiz,aquele que alguns adoravam…por seus bolinhos de fubá…O Chefe Feijão?Acalmando mães,avós e irmãs ,de nossos pequenos pescadores…

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