Sou grato pela homenagem, afinal são 50 anos abraçando as causas da sociedade

Amigos, estou em Chapecó no Encontro Estadual de Jornalismo, onde, neste sábado, recebi homenagem pelos 50 anos de profissão.

 Sim, comecei cedo, no Correio do Estreito, onde passei a receber uns trocados para ajudar a família e sustentar meus estudos de adolescente.

Laudelino J SardáVivi as transformações do mundo que, quando eu nascia, encerrava um ciclo de guerras mundiais. Mas logo vivenciei os efeitos da guerra ideológica, que mudou nossos comportamentos, motivou a riqueza musical e do teatro. Os movimentos da contracultura dos anos 1960 significaram os protestos das gerações contra padrões sociais. Joplin, Hendrix, Tom Zé, Caetano, Chico, Geraldo Vandré e tantos outros que nos ajudaram a sentir e refletir a sociedade mergulhada na hipocrisia. Não foi à toa que Hemingway não concordava em chamar as gerações pós-guerra de perdidas.

Vivemos uma época de fartura musical, de artes plásticas valorizando tendências e escolas, o teatro dramatizando a vida e as contradições. Em 1965, realiza-se no teatro Álvaro de Carvalho um festival que escolheu a canção da Ilha. Zininho sai vitorioso com a música “Rancho do Amor à Ilha”, magnificamente interpretada por Neide Maria Rosa. Até a nossa Ilha cantava e poetizava.

A ditadura amordaça a cultura. O educador Paulo Freire vai para a Suíça, onde, em 1980, me concede a sua última entrevista no exterior antes de voltar do exílio. E ele afirma: “O povo brasileiro é autoritário por natureza”. Sim! As leis são fracas perante o homem autoritário.

Entre as dezenas de grandes reportagens, destaco uma. Certa vez desci em um garimpo de ouro na Amazônia. A matéria do contrabando foi pequena, mas outra mereceu uma página: uma menina de 17 anos estava na prostituição do garimpo havia três anos. Ela me contou o drama de precisar todas as noites ir para a cama com mais de 10 homens que nunca se banhavam, a não ser nas águas barrentas do garimpo. Vocês acham que jornalista não chora? Pois eu escrevi esta matéria com as lágrimas pingando sobre o papel da máquina Olivetti.

Nos últimos 15 anos eu fui, como todos vocês, impactado pela revolução tecnológica. A instantaneidade da informação e a presença de usuários flagrando fatos mudaram o dia-a-dia do jornalista. Antes, precisávamos ir às fontes e olhar tête-à-tête o entrevistado. Preocupávamo-nos com a reportagem completa que ensejasse a reflexão. O mal do jornalismo hoje é que se viciou na velocidade de dados e informação e se não mudar vai ter de dividir seu diploma com o usuário da internet. O furo de reportagem acabou e as novas e velhas gerações exigem que o jornalismo exerça a criatividade e a reflexão. Dados e informações pertencem a um grande universo de democracia da comunicação. Nós jornalistas precisamos ir além: exercer a crítica abraçando as causas da sociedade. Não existe jornalismo imparcial, pois está justamente na parcialidade o nosso papel de defender a sociedade.

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