Sozinho na multidão

selo-peco-sua-atencaoMuito, muitíssimo interessante é prestar atenção aos trejeitos da multidão e descobrir o que, na verdade, sobra para o indivíduo como saldo de suas relações. Todos os estudiosos da evolução humana assinalam que sem o grupo, a começar pela família (pai, mãe, filhos, no mínimo) não haveria a espécie homo sapiens sobre o planeta. Somos gregários, sempre estivemos dependentes uns dos outros não só quanto às coisas elementares da sobrevivência.

Então por que a partir de um determinado ponto evolutivo nós estamos em casa cada um num quarto, ligado cada um num programa de tevê ou videogame ou mais ou menos isso que nos coloca dependurados num site de relacionamento através de computadores ou celulares ou algo semelhante? Por que um grande número de pessoas anda na rua com os ouvidos conectados em algum som, preferindo “avisar” que nem está aí para o que acontece do lado de fora de sua individualidade?

Por que estamos indo sempre mais aos mega eventos compartilhando a presença com milhares de outros, mas indo ali para ouvir um som extra elevado em decibéis enquanto isoladamente saracoteamos como se estivéssemos possuídos por um espírito devastador de energia? Por que os moradores do mesmo bloco de apartamentos tomam juntos o mesmo elevador e não se olham nos olhos, não se dizem “bom dia”, não querem nem saber quem é o seu vizinho? Pior ainda se o ocupante do mesmo elevador for uma criança; ninguém dá bola. Mas, se o passageiro for um cãozinho, muda tudo, há quem se desmanche em atenções ao animal. Por que? Você sabe? Você se interessa estudar isso?

É isso. Estamos sozinhos em casa, estamos sozinhos no elevador, estamos sozinhos andando na rua, estamos sozinhos nos megashows, estamos sozinhos na multidão.

Muito provavelmente também estamos sem mais ninguém em casa, oferecendo-nos ao consumo de alcoólicos, drogas e outras porcarias (o motoboy chega à portaria dos edifícios e anuncia “farmácia para o senhor ou senhora fulano(a) de tal”, sobe e faz a entrega da droga, recebe e vai embora.

Pior ainda, estamos sozinhos no bar, em meio a outros solitários que se embriagam e chamam para si pesadas energias obsedantes de suas faculdades mentais, não raro, também, mesclado ao consumo de cigarros, charutos e cachimbos ou coisa pior.

Estamos sozinhos na boate, em ambiente fechado, poluído, barulhento, não conversamos, não trocamos carinhos, voltamos para casa cansados, derrotados, dormimos dez, doze horas e ao abrir os olhos descobrimos que tudo ficou para trás sem nenhum outro saldo do que a derrota, mesmo que o fim de noite tenha ocorrido num motel em companhia de alguém desconhecido, em que a relação não tenha ido além do prazer (?) carnal.

O que há com o ser humano?

Há muitos estudos, mas quem deveria olhar para isso com redobrada atenção, que são os pais dos muitos adolescentes dessa multidão, adolescentes que são arrastados para estas valas, repito, os pais não olham, não querem ver, estão sozinhos também na árdua tarefa de educar. Acham que a educação é coisa para a escola.
Tem volta? Tem de ter. O que você acha?

Como marido, pai, avô, terapeuta, amigo de alguns amigos e com algum interesse por observar e ler, li trabalhos escritos por Marcelo Bernstein, jornalista, psicanalista e terapeuta, publicados no Correio do Brasil. Gostei tanto que resolvi ensaiar sobre o mesmo tema e reproduzir isso aqui na rede de Caros Ouvintes, com o alerta: isso que está aí não fica assim, incha, entra em erupção, explode, e vem pra cima de nós, já veio…

Sai de baixo!!!

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