Sujeito orgulhoso

E esse balanço, quer ver que é pneu furado? É, é pneu furado, raio que o parta, diabo que o carregue! Não tinha outra hora pra acontecer, desgraçado?
Por Flávio José Cardozo

Mas tudo bem, não é à toa que sou precavido, tenho este bom costume de nunca sair de casa em cima do laço. Em cinco minutos faço a troca, chego com folga no horário da reunião. Não há de ser logo hoje que vou falhar na minha pontualidade. E que sorte essa lua cheia, que lua boa pra trocar pneu, mãos à obra!
Macaco, porcas, pneu furado, ufa. Gastei três minutos para  isso, até pareço daqueles caras de carro de corrida que fazem tudo num piscar de olhos. Vamos pegar o pneu no porta-malas, ligeirinho. Quê! Hein? Não é possível, é um pesadelo, o pneu de reserva está vazio.  Raios me partam ao meio, diabos me levem para o inferno. Vazio!
E agora?
Ainda me gabei de ser um homem precavido. Faltam vinte minutos para a reunião. Até a cidade são dez, tenho outros dez para conseguir uma carona. Imagine, um futuro deputado pedindo carona em beira de estrada. É cômico, mas tem outro jeito? E isso… sim, sim, isso se eu tiver a sorte de arrumar uma carona  logo.
Ei, ei, ei! Filhos da mãe, ninguém quer parar. Nunca tinha notado como o povo anda ruim para dar carona. Ei, ei, ei!
Faltam quinze minutos. Se em mais cinco não aparecer uma alma boa, me atraso. Imagine, bem no dia da confirmação do meu nome para concorrer à Assembléia acontecer isso comigo, logo comigo que tanto condeno a impontualidade dos outros. Ainda ontem fui dizer que o nosso partido devia multar, suspender, até expulsar os impontuais. Eu e minha infeliz pontualidade… Tenho de pegar uma carona de qualquer jeito.
Lá vem um, esse eu pego, ah pego, São Judas Tadeu vai me ajudar, ei, ei, ei, meu Deus, é um caminhão, imagine só um futuro deputado catarinense indo de caminhão… mas não é que ele está parando! Obrigado, meu São Judas.
Vai para a cidade, amigo? Poxa, vai? Que maravilha! Com licença. Sabe, já estava me desesperando, tenho de estar às oito em ponto numa reunião diante do Clube Doze. Deve dar tempo, não dá? Ótimo, o caminhão corre bem, estou vendo.
O senhor é mesmo de que ramo? Ah, anh?, desentupimento de fossas. Está vindo de um grande entupimento em Canasvieiras. Bem que eu estava sentindo um cheir… mas tudo bem, como vão os negócios? Vão ótimos? Que bom. Eu? O que eu faço? Deixa eu ver aqui um cartãozinho para o amigo. Aqui está. Advogado. Mas em outubro, modéstia à parte, acho que vou para a Assembléia. As perspectivas são muito favoráveis. Se o amigo ainda não tem candidato…
Corremos bem, hein? Maravilha. O amigo me deixa num táxi qualquer, certo? É, num ponto de táxi. Não, não precisa me levar até a sede do partido, não se incomode. Não, por favor, não se incomode. Quê? Vergonha? Vergonha do seu caminhão, eu? Não diga isso, que pensamento é esse? Eu o ofendi? Espere, espere, o que é que o amigo está fazendo? Vai me levar de volta pra onde me pegou? Onde tu estás, meu São Judas?
Tenho certeza de que ele está armado, por isso volto calmo. Pense na necessidade de renovação dos nossos quadros políticos, venho repetindo mil vezes, mas ele não me ouve. Sujeitinho orgulhoso.
Filho da mãe orgulhoso!
Está bem, eu desço.
Ei, ei, ei, ninguém pára. Merda.
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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