Surpresa noturna

Década de sessenta, a televisão dava seus primeiros passos no Paraná, o Rádio mantinha índices invejáveis de audiência, os jovens se encontravam na Rua 15 para ver o desfile das mocinhas casadoiras, os bailes reuniam famílias inteiras, meninas bonitas cheirando a perfume francês dançavam de rosto colado sob olhares vigilantes dos pais.
Por Jamur Júnior

Quem não era sócio dos clubes mais chiques da cidade se contentava com a vida noturna na cidade. As boates funcionavam no centro com shows ao vivo e um elenco de belas garotas, muitas delas argentinas e por isso mesmo boas dançarinas de tangos e boleros.
Nesse tempo o tango havia invadido as casas noturnas do Brasil e a programação das emissoras de rádio. Na boate Cadiz, na rua José Loureiro quase esquina com Muricy, um pequeno conjunto típico porteño formado pelos argentinos Menendez e Pelejero e o uruguaio Leo El Morocho se encarregava de dar uma atmosfera portenha às noites de Curitiba.
A certa altura Getúlio Cury entrava com seu programa de rádio transmitido ao vivo e com o titulo sugestivo: O Tango Abraça o Samba. O pianista Gebran e seus companheiros eram encarregados de defender o nosso samba nesse encontro amistoso.
Na boate Marrocos em plena Praça Zacarias cantores famosos da Radio Nacional costumavam animar as noites com os  maiores sucessos do cancioneiro romântico brasileiro. E as argentinas repetiam constantemente uma frase que ficou famosa: “paga um uique, bem”.
As moças que trabalhavam nessas boates ganhavam percentagens sobre a venda de bebidas alcoólicas. Bebiam bem para ganhar alguma coisa e muitas vezes fingiam beber para chegar ao final da noite em condições de andar e levar consigo o seu eleito entre tantos clientes que eram atendidos no horário de trabalho.
Na  Alameda Cabral, a boate Luigis era a preferida de empresários, jornalistas e alguns políticos. O lugar era repleto de moças bonitas que hoje são chamadas de garotas de programa, mas naquela época atendiam por outro nome menos suave. Mais adiante o Jane Dois anunciava seus contratados e entre eles apareceu Jair Rodrigues que ficou quase um mês alegrando a noite curitibana.
Nesse cenário o travesti, que atualmente é personagem permanente, era figura rara. Os existentes eram bem conhecidos e muito discretos, mesmo nas boates onde a bebida se encarregava de tornar as pessoas menos inibidas. Um grupo de jornalistas que apreciava a noite curitibana elegeu o Luigis como um de seus locais preferidos. No pequeno grupo se destacava Dico Cambeta – apelido que ganhou quando jogava no juvenil do Atlético. Experiente, engraçado e gozador, Dico era acima de tudo um bom jornalista e exímio improvisador. Em qualquer situação não se embaraçava. Sabia sair de uma “saia justa” com habilidade e muita classe.  Não gostava de pagar mico e a facilidade de improvisar ajudava nas ocasiões mais difíceis.
Certa noite deixou a redação mais cedo que os demais companheiros para chegar antes no Luigis. Deu a impressão de que estava mantendo um romance com alguém muito especial na boate da Alameda Cabral. Cerca de meia noite os colegas chegam e encontram Dico aos beijos e abraços com uma lourinha, magra de peito miúdo, como ovo frito, e um corpinho de bailarina. Beijos cinematográficos e grandes amassos, chamaram a atenção dos amigos que já conheciam aquela figura que havia conquistado Dico com tamanha paixão.
Todos tiveram o mesmo desejo; avisar que aquela lourinha era na verdade um lourinho. Tratava-se de um travesti que havia chegado de São Paulo na semana anterior. Se arranjava tão bem como mulher que a primeira vista era difícil identificar, mesmo com um toque na parte mais baixa. Era um craque na arte da transformação.
Dico foi chamado de lado para receber a noticia.
-Olha, Dico, não leve a mal mas você entrou numa fria.
-Mas que fria que nada. Estou com a criatura amarradíssima, apaixonada. Saio daqui para uma noite de grandes prazeres no Hotel Carioca.
-Essa lourinha não é lourinha. É um ¨baita¨ veado vestido de mulher.
Foi um susto inicial com grande impacto aparente. Dico demonstrou uma expressão de grande surpresa que imediatamente foi substituída por uma cara de “e eu não sei”?
A tradicional habilidade de improvisar e uma forte reação na hora de” pagar o mico”,  levaram o herói da noite a uma declaração surpreendente.
-Vocês pensam que eu sou bobo, que não vi que era um veado. Estou sabendo e gostando.
Minutos depois Dico foi visto no banheiro lavando a boca, com cara de traído, enojado e revoltado por ter beijado um homem.

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Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
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