Talento precoce

O Clube Mirim da Rádio Guairacá , foi, na década de 50, um dos programas favoritos do curitibano, nas manhãs de domingo. O auditório da emissora ficava lotado para assistir os pequenos artistas que desfilavam no palco, cantando, executando um instrumento, dançando ou apenas falando. O diretor do programa, Aluizio Finzetto apreciava descobrir novos talentos e para isso costumava promover testes com jovens que freqüentavam o auditório. Foi num desses testes que surgiu Gilberto Fontoura. Fez imitação de um narrador de futebol, mostrou desembaraço e simpatia; foi escolhido.

Começou ali e de calças curtas uma das mais brilhantes carreiras no radio paranaense. Em pouco tempo passou a fazer parte do quadro de locutores, chegou a participar da equipe esportiva como plantão e mais tarde como repórter. Programador musical, discotecário, produtor de programas, diretor, animador, Gilberto fez  um curso completo de radialista.

Em 1963 foi convidado por Jair de Brito para trabalhar na Rádio Independência. A nova emissora era comandada por Kalil Maia Neto e Jorge Nassar, ambos parlamentares filiados ao PTB, de João Goulart.  Nessa ocasião Gilberto Fontoura testemunhou um dos primeiros atos políticos contra emissora não alinhada com os detentores do poder. Era o ano de 1964, período em que os militares promoveram a deposição de João Goulart e assumiram o poder.

Alegando que a Rádio Independência, tinha pendências legais junto ao órgão federal que fiscalizava rádios e televisões, o governo mandou tirar do ar a rádio dos amigos de João Goulart. Depois de uma grande batalha nos bastidores da política e cumprir uma série de exigências, os transmissores foram liberados para funcionar normalmente. O episódio que poderia provocar  um clima de desânimo entre os membros da diretoria e funcionários serviu como grande energético dando força e entusiasmo para a equipe dirigida por Jair de Brito.

Experiente e profundo conhecedor nos mínimos detalhes do rádio e do comportamento e preferências dos ouvintes, Brito inaugurou uma das melhores fases da emissora. Como bons técnicos de futebol que montam equipes de craques para ganhar campeonatos, Jair de Brito, saiu em busca dos melhores profissionais para reforçar seu time. Escalou para uma espécie de meio campo, seu antigo companheiro de outras jornadas, Gilberto Fontoura.

Nesse período de sua vida, Fontoura se dedicava aos programas musicais envolvendo os grandes nomes da música popular brasileira. Em 1967 deu um salto como repórter especializado em cantores populares. Era época dos festivais de música da TV Record de São Paulo que dominavam a audiência em todo o país. Gilberto foi designado para fazer a cobertura desses festivais, entrevistando cantores e gravando mensagens para os ouvintes da Rádio Independência.

Ao chegar a São Paulo se deparou com um problema. Não tinha credenciais como jornalista para entrar no Teatro Record. Criativo e muito habilidoso decidiu conquistar o porteiro do teatro.  Na primeira tentativa fez um discurso, dizendo que era de Curitiba e precisava muito entrar para realizar seu trabalho. O porteiro ouviu e fez uma proposta.
-Você me traz café do Paraná e a porta estará aberta sempre…

E assim fez. Toda semana lá estava o repórter com microfone e um quilo de café para o porteiro. Um dia esqueceu do café, mas como já era amigo, combinou que na próxima traria dois quilos. Promessa feita, promessa cumprida.

Gilberto Fontoura transformou as transmissões desses festivais numa das melhores atrações da excelente programação que Jair de Brito produziu para a Rádio Independência.

JamurJr (do livro Sintonia Fina)

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