Telefonema

Seu Victor está em seu apartamento quando toca o telefone.

– Alô.

– Boa tarde, vô. Tudo bem?

Seu Victor tem uns 25 netos. Era um deles; um rapaz, mas qual dos netos? “Essa rapaziada muda a voz nessa fase da vida”, pensou ele. Resolveu seguir a conversa, logo descobriria qual dos netos estava ao telefone.

– Como você está, rapaz? Mais trabalho ou mais estudos? – Quem sabe alguma pista sobre o nome do neto surgiria com as respostas.

– Eu estou bem, vô. Na verdade na correria; trabalhando e fazendo faculdade. É puxado, mas dá tempo para curtir o fim de semana. Estou até com vergonha, não falava com o senhor há muito tempo. Descuido meu.

Seu Victor lembrou que deve ter uns 8 ou 10 netos que poderiam estar trabalhando e estudando. Agora, o educado e atencioso neto demonstra seu interesse.

– Mas quero saber como o senhor está. Saúde, se precisa de alguma coisa. Mesmo com a correria de que falei para o senhor, se precisar de algo, é só falar.

Seu Victor pensa em perguntar de uma vez o nome do neto, mas seria muito constrangedor. O que o rapaz iria pensar dele, não reconhecer um neto tão atencioso. Manteve a conversa. Respondeu ao neto que estava tudo sob controle, agradeceu e perguntou:

– E você está gostando do curso que está fazendo?

– Sim. Além de gostar é um ótimo curso; irá me abrir muitas oportunidades. O vô sabe que esse curso é muito… Desculpe, essa tosse está me matando.

Seu Victor já havia notado o neto afastar-se do telefone várias vezes para tossir, então disse:

– Tome um xarope. Ou faça um chá de limão com mel.

– Não adianta, vô. Eu preciso é criar vergonha e parar de fumar.

Seu Victor toma um grande susto. Nenhum de seus 12 filhos e dos cerca de 25 netos jamais colocaram um cigarro na boca; nenhum fuma. Como o tal neto cai numa besteira dessas?
O velho avô resolve respeitar o direito do neto e mesmo pasmo segue a conversa.

– Teus pais estão bem?

– Sim. Trabalhando bastante, mas estão bem, obrigado. E o senhor, como tem se virado sozinho?

– Tranquilo. Tua avó saiu faz umas duas horas. Deve estar quase voltando.

Agora o rapaz é quem fica pasmo. Sua avó havia morrido há um ano. Não sabia nada sobre o avô ter se casado outra vez e mesmo assim não diria que era sua avó. O rapaz pensa em Alzheimer; afinal de contas, viúvo e com mais de 80 anos. Que triste. Um homem tão lúcido e ativo. Mas resolveu seguir a conversa com o avô.

– E o vô tem pescado? – Agora seu Victor acredita que o neto talvez esteja usando algo mais do que cigarros, ele nunca havia pescado. Mas pensou em deixar pra lá. Quem sabe o neto só está com a cabeça cheia devido aos estudos e o trabalho.

– Vô, agora preciso desligar. Vou pegar minha moto na oficina. E eu sem moto não sou nada.

Seu Victor pensa; “mais essa agora; um neto fumando e dirigindo moto. Eu sempre tive e gostei de motos, mas meus filhos e netos nunca quiseram saber de motos”. Resolveu se despedir do neto dando alguns conselhos:

– Só tome cuidado com essas coisas. Você é jovem; tente parar com o cigarro e tome cuidado com a moto.

– Claro, Vô. Prometo ao senhor que vou fazer isso.

– E teus irmãos, estão bem? – Como é filho único o rapaz se convence de que é Alzheimer. Coloca o telefone na testa e pensa: “Pobre do vô; e morando sozinho; tenho que dar mais atenção a ele”.

Seu Victor resolve por fim chutar o nome de um dos netos, se errasse se desculparia:

– Obrigado por ter ligado, Leonardo. Quando quiser venha tomar um café comigo e com a tua avó.

O rapaz toma mais um susto e diz:

– Desculpe, Vô. Mas meu nome é Bruno – Seu Victor se sente constrangido.

O jovem respira fundo e mesmo com medo da resposta resolve fazer um teste:

– Como é mesmo o seu nome, vô?

– Victor Antunes Carriel. Sou casado com Helena e temos 12 filhos e 25 netos.

O rapaz do outro lado da linha começa a pensar:

“Sou filho único e o único neto do meu avô que se chama Otávio, e minha avó, dona Josefa, faleceu no ano passado; preciso pegar minha moto e ir agora mesmo visitar meu avô, coitado”.

Seu Victor estranha o silêncio do neto e pergunta:

– Você ainda está aí, tudo bem? – O rapaz responde:

– Sim, ainda estou aqui. Vou pegar minha moto na oficina e já passo aí, pode ser?

– Claro. Sua avó vai ficar muito contente. Estaremos te esperando.

Eles se despedem e Bruno sai preocupado como o avô. Só não havia percebido que tinha ligado para o número errado.

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