“Telhado de vidro”

Normalmente esse – ditado ou frase popular – tem como intenção mostrar de maneira simples e clara que devemos evitar “jogar pedras no telhado” dos outros porque o nosso também é de “vidro”, é frágil. E isso pode ser direcionado a vários assuntos; vamos a um deles: O nosso possível “telhado de vidro”.

A maioria de nós deve achar graça ao ouvir alguém dizer: “Ambos os dois”. “Desceu pra baixo”. “Subiu pra cima”; “Acordou morto”; “Fulano corre risco de vida” (ele está vivo, corre o risco é de morrer).

Ou quem sabe outras frases: “A gente fomos”. “Nóis vai”. “Os pessoal já foram””. “A gente tentemos”.

Há uma ciência que estuda a linguagem, a Linguística; ela não estabelece julgamento à maneira de falar, antes, estuda as chamadas – variantes linguísticas, tais como as mencionadas acima. Claro que a Linguística não vai contra a gramática ou a norma culta da língua portuguesa; muito pelo contrário, incentiva e orienta o bom uso das normas padrões. No entanto, se dedica aos estudos de diferentes formas de falar por vários motivos.

Aí entra o do tema da coluna, todos temos nesse sentido o nosso “telhado de vidro” gramatical. Exemplos: Rimos de quem fala “ambos os dois”, “subiu pra cima”, “a gente fomos”, mas não rimos de quem fala algo considerado errado pela norma culta da língua, frases mal construídas e portanto impróprias, exemplos: “Fazem 10 anos que sou casado”. Houveram muitos acidentes no último carnaval”. “Os seguranças devem ficar alertas”. “Um agravante e um atenuante”. “Sorriso no rosto”. “Passou dasapercebido”. “Boa ortografia”. “Bonita caligrafia”. “Decapitar a cabeça”; enfim, todas essas construções gramaticais estão erradas de acordo com a norma culta; portanto, devem ser evitadas.

O correto pela norma culta ficaria assim: “Faz 10 anos que sou casado”. “Houve muitos acidentes no último carnaval”. (faz e houve são verbos impessoais, não têm sujeito, portanto ficam no singular quando se referem a tempo passado) “Os seguranças devem ficar alerta”, (não alertas). “Uma agravante e uma atenuante”, (ambas devem ser empregadas no gênero feminino). “Sorriso” (sorriso no rosto é pleonasmo, afinal de contas em que outra parte do corpo se mostra o sorriso?); diferente de dizer: “Estava com o sorriso de orelha a orelha”, aí tudo bem, é uso figurado, uma hipérbole, exagero proposital. “Passou despercebido” (desapercebido é sinônimo de desprevenido, exemplo: “Fui tomar um caldo de cana, mas estava desapercebido de dinheiro – desprovido de). A palavra ortografia vem de – orto, como em ortodoxo, opinião reta; portanto, ortografia já quer dizer – escrita correta, logo, boa ortografia é pleonasmo, assim como caligrafia. Kalli – bonito, grafia – escrita bela, então, caligrafia significa bonita escrita ou boa letra, já – bonita caligrafia é pleonasmo.
Só se encara a vida e os problemas de frente, nunca de costas, portanto está imprópria a construção: “Encarar os problemas de frente”. Encarar só pode ser de frente.

E se os nossos ouvidos “doem” quando ouvimos as palavras: “menas e seje” é normal, afinal de contas, elas não existem em nossa gramática. O correto é dizer: “Havia menos mulheres e menos meninas no concurso de dança esse ano”. (jamais – menas). “Seja como for estaremos juntos” (jamais – seje).

Vale lembrar as placas de cautela nos elevadores: “Antes de entrar verifique se o mesmo está no lugar”. Nessa frase o mesmo é mesmo dispensável, ou mal empregado.

A língua portuguesa talvez seja difícil, quem sabe tenha muitos detalhes, mas ela é ampla e nos dá diversas possibilidades de construir nossa fala e escrita. Por isso admiro a piada acerca das “pérolas” atribuÍdas a um ex prefeito de São José.
Diz a história que em certa ocasião o tal prefeito precisava preencher um cheque no valor de sessenta reais. Como tinha dúvidas sobre como escrever – sessenta – teve uma ótima ideia; resolveu escrever dois cheques de trinta reais. Daria como desculpa que havia se enganado e para não desperdiçar a folha do cheque decidiu fazer dois de 30. Inteligente.

E se os amigos leitores (a norma culta diz que quando usamos o plural no masculino, abrange também o feminino, então, não há necessidade de dizer – leitores e leitoras ou brasileiros e brasileiras) encontraram algo de errado e pretendem “jogar alguma pedra no meu telhado”, sem problemas. Se prestarmos atenção até na mídia altamente prestigiada, em escala global, percebemos erros, falhas. Mas qualquer “pedrada” será bem vinda. Aprender nossa língua deve levar o tempo que vivermos; aliás, nós até podemos ir “embora” e ela seguirá evoluindo.

Termos um “amplo telhado de vidro” nos dá a oportunidade de querer e aprender mais, mas o “telhado provavelmente continuará sendo de vidro”. Maravilhosa Língua Portuguesa!

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