Tenho saudades de Florianópolis

Conheci relativamente bem a Florianópolis dos anos cinqüenta. Era como tudo o que aconteceu ou existiu naquela década, romantismo puro, recheado de coisas peculiares da velha e querida capital catarinense. Tentei chegar até os estúdios de rádio da capital naquela época, porém…
Por Agilmar Machado

Depois de algumas tentativas, cheguei à conclusão de que tentar modificar ou acrescentar alguma coisa ao que a gente assistia e ouvia em suas rádios, era destoar de uma realidade já formada para valores certos nos lugares que lhes cabiam ocupar: jornalismo dinâmico com astros que nos deixaram saudades; programação ao vivo comandada por profissionais identificados com a atualidade florianopolitana de então.


Duas das três primeiras emissoras da Capital foram instaladas na Praça XV.
A Guarujá e a Diário da Manhã ficavam nas proximidades onde está hoje o
prédio do Bradesco. Na foto está o Miro, ouvinte de carteirinha que dava plantão
diário nos programas de auditório da RDM no final da década de 1950.

Como sulista, concluí que naquele meu início de caminhada meu lugar era no meu chão: o sul do estado.
Mas, sempre apaixonado por Floripa, acompanhei alguns aspectos próprios de sua vida cotidiana e ouso “afrontar” meus queridos colegas daquela época, muitos ainda na estrada e tantos outros cujas passagens pela vida nos deixam ternas recordações.
Lembro que meu primeiro contato com a intenção de chegar a Florianópolis como profissional foi junto ao bondoso e imensamente estimado médico, Dr. Julíbio Jupy Barreto. Ele, assessorado por Hélio Kersten da Silva, como heróis de uma jornada que parecia impossível, montavam, aos fundos do consultório  do primeiro, numa característica meia-água que aproveitava uma das paredes do antigo edifício da Rua Arcipreste Paiva, 5, o rudimentar equipamento da Rádio Anita Garibaldi, num início muito difícil, mas com a coragem de um pequeno Davi, disposto a enfrentar os poucos “gigantes” da época…


O TAC – Teatro Álvaro de Carvalho era o point onde se realizavam os principais programas de auditório das rádios Guarujá, Diário da Manhã e Anita Garibaldi.

Era um período que, sobretudo, marcava pelas coisas vistas e comentadas pela Praça XV e Rua Felipe Schmidt, então os logradouros mais notavelmente destacados. Da Praça XV tudo ficou até hoje, exceção feita aos personagens que – na sucessão natural da vida – por ali passaram.
 
A Felipe não estaria completa se ali não se vissem os manezinhos da Confeitaria Chiquinho, quase em sua maioria exibindo brilhosas gravatas borboletas; o Adolfo “vendendo” o automóvel do Dr. Deba para ele mesmo, quando este vinha apanhá-lo por volta das cinco horas, para se deslocar ao Veleiros da Ilha, onde sua roda de bate-papo o aguardava (e assim o Adolfo “descolava” diariamente, do conceituado político e destacado empresário, pelos menos cinco pilas…); o Manoel de Menezes desfilando literalmente em carro aberto (conversível), seu flamante Ford cor-de-rosa, cor que escolhera exatamente para fugir ao trivial preto ou branco de todos os demais carros; do velho amigão Nazareno Coelho, que por ali sempre marcava ponto em suas horas de folga da antiga Rádio Guarujá, da Rua João Pinto. Do Alírio Bossle, do Moacir Pereira e do Cyro Barreto se sucedendo no comando da Casa do Jornalista, esbanjando simpatia e eficiência enquanto ali estiveram (e hoje nos conforta novamente o Moacir comandando aquela querida Casa).


Nessa época o IEE – Instituto Estadual de Educação passou por uma reforma e se tornou o maior colégio de segundo grau do estado. E o bom é que a moçada vinha pegar o “buzum” na Praça XV, bem em frente ao Miramar.

Tenho saudades da Livraria do velho Otto Entres, cujas obras, por ele selecionadas para expor, eram vendidas com a elegância de quem vende um valioso brilhante, incluindo os preciosos comentários que o velho livreiro fazia de cada uma delas… Desejaria voltar a olhar – com o respeito que sempre lhe dispensei – a velha ponte Hercílio Luz, imponente, oferecendo seus préstimos a quem entrava ou saía da cidade. Gostava de ouvir, na travessia, aquele “plac-plac” dos dois trilhos de tábuas em cada sentido de trânsito. Quando se entrava, parecia o anunciar de chegada a um lugar que sempre me pareceu incomum e sobremaneira aconchegante; quando saía, nos deixava a vontade de retornar breve…
Coisas assim, tão ternas e saudosas, é que marcaram indelevelmente meu amor pela ilha do Miramar, dos clubes de remo, da pesca submarina (tão bem relatadas pelo estimado coronel Carlos Hugo de Souza em obra que já alcança várias edições), esporte que divertiu mas também resultou em lágrimas, quando o mar levou para sempre o jovem Túlio César Gondin Filho, para desespero de seus colegas de esporte, Hélio Lange, Laudares Capella, Raúl Tavares e tantos outros…
Era a Florianópolis onde também me hospedei em casas de amigos em noites quentes… e se dormia de janela aberta !!!


Assim como a praça XV nos dias de semana, os sábados e domingos eram dominados pelos encontros nas proximidades da sede balneária do Clube Doze de Agosto, no Estreito. Afinal, a rapaziada do rádio tirava onde de gente fina. O ponto era tão requintado que o Cacau Menezes e o Walter Souza iniciaram a carreira de repórteres fazendo transmissões diretas e ao vivo das cálidas águas da praia de Coqueiros.

Quão tranqüila era Florianópolis dos anos 50!
De tudo isso restou uma coisa que me comove: a cordialidade florianopolitana; o sorriso aberto e franco dos ilhéus que, hoje de cabelos brancos cobrindo suas cabeças cheias de recordações, ainda nos cumulam com suas imorredouras amizades…
Obrigado, minha Florianópolis de ontem…
Site relacionado:
http://www.ufsc.br/~esilva/Albuma04.htm com especial agradecimento ao Edson, El Brujo.


{moscomment}

Categorias: Tags: , ,

Por Agilmar Machado

Iniciou suas atividades profissionais no rádio em 1950, tornando-se jornalista em 1969. Atuou nas principais emissoras do Sul de SC como redator, produtor e apresentador de programas jornalísticos. Historiador, é co-autor História da Comunicação no Sul de SC. É membro fundador da Academia de Letras de Criciúma/SC.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *