Terceiro tempo: Cirley bota fé e vai à luta

Cirley Virgínia Ribeiro é autora do projeto Memória do Rádio Catarinense. A pedra fundamental foi lançada, os apoios todos vieram impregnados da vontade de fazer, mas o real não aconteceu. Frustração? Não. A questão é de paciência e perseverança. 

Paciência e perseverança – essas duas palavrinhas pouco valorizadas, mas fundamentais, continuam fazendo a diferença para a jornalista e professora catarinense.

Antunes – O rádio era motivo preponderante nos trabalhos acadêmicos da época?

Cirley – Não. Nas três primeiras turmas de jornalistas formados pela UFSC em 1982, 83 e 84,  foram raros os Trabalhos de Conclusão de Curso que tiveram o rádio como objeto de estudo e pesquisa. O pioneiro foi mesmo o projeto  “A história do rádio catarinense na voz de seus atores”, concluído pela Lúcia Helena Evangelista Vieira da Silva em 1982. Na turma de formados em 1983 houve uma pesquisa da Maria Fernanda Farinha Martins com uma abordagem histórica sobre as rádios FM em Florianópolis. Na minha turma (formados em 1984), além do meu trabalho, houve também uma pesquisa de Jorge Luiz Massarolo sobre as rádios piratas no Brasil e no mundo e também o estudo do Carlos Alberto de Souza Noticiários de Rádio AM em Florianópolis.

Antunes – Você lembra que trabalhos havia sobre o rádio em Santa Catarina?

Cirley – Tive dificuldades para localizar bibliografia específica sobre o rádio catarinense na época do meu trabalho. Tanto que na bibliografia do “Projeto Memória do Rádio Catarinense” consta apenas a pesquisa da Lúcia Helena, arquivos de jornais, como o Jornal Cidade de Blumenau, de 1936, e títulos sobre o rádio no Brasil (Por Trás das Ondas da Rádio Nacional, de Míriam Goldfeder).

Antunes – Nessa época você já trabalhava como profissional de rádio?

Cirley – De 1981 a 1984, período em que cursei Jornalismo na UFSC, dediquei-me apenas à universidade. No último ano, tanto o estágio supervisionado como o trabalho de conclusão, foram relacionados ao rádio. Mas meu primeiro emprego foi no Jornal de Santa Catarina, em Blumenau, entre 1985 e 1986.

Antunes – Como foi a sua experiência profissional no serviço de rádio da Acaresc (ou já era Epagri)?

Cirley – Concluí o curso de jornalismo em março de 1985 acreditando que logo estaria no rádio. Havia passado os dois últimos semestres entrevistando radialistas, coletando fotos e equipamentos para o Projeto Memória do Rádio Catarinense. Naquele momento, todo meu afeto e interesse profissional estavam voltados ao veículo. Mas ao contrário de minhas expectativas fui parar no Jornal de Santa Catarina, em Blumenau. Menos de um ano depois estava de volta a Florianópolis para produzir um programa de rádio dirigido aos agricultores do estado. Era o Panorama Agrícola, que me proporcionou uma das boas experiências profissionais: visitar uma ouvinte na região de São Joaquim, na Serra Catarinense. O acesso ao local era tão difícil, que nem os técnicos da antiga ACARESC (empresa de assistência técnica e extensão rural) haviam aparecido por lá. A alegria misturada ao choro de dona Lorena da Silva Borges nunca me saíram da memória. Guardo também cópias de cartas de ouvintes, que ajudam a entender a dimensão daquele programa para moradores de lugares tão distantes, como São Lourenço D’Oeste, Caibi, Palmital e São Carlos.
 
Antunes – Como você qualifica o rádio como meio de comunicação em relação aos demais?

Cirley – O que me fascina no radiojornalismo é a interação com o público, uma quase intimidade que se estabelece entre o ouvinte e o repórter. O rádio é o veículo mais descontraído, mais pessoal, o que favorece a comunicação. O grande trunfo é permitir a aproximação do público. O ouvinte identifica-se, aposta, pede orientações e acredita no veículo justamente porque ele é próximo. No meu caso, como jornalista atuante no rádio, o melhor da profissão é saber que sou útil a alguém no Espírito Santo, em Minas Gerais, São Paulo, ou Santa Catarina.
Saber que minha informação foi fundamental para alguém é o que importa na profissão de jornalista. Trechos de cartas enviadas por ouvintes traduzem a importância do veículo e da credibilidade do apresentador.
“Prezada Cirley,
Como vai? Na semana passada você levou ao ar, pela Rádio Cultura AM de São Paulo, uma reportagem sobre uma organização que atua nos hospitais psiquiátricos. Como tenho um caso na família, gostaria de entrar em
contato…” (Espírito Santo Dourado – Minas Gerais – maio/2002)

“Quero em primeiro lugar parabenizá-la pelo excelente trabalho nos microfones da Rádio Cultura…” (Afonso Cláudio – Espírito Santo – junho/2002)
“Inicialmente, gostaria de agradecer pelo apoio durante essa jornada. Minha mãe ainda não acredita que eu falei com você!!! Ela escuta sempre seus programas na Cultura AM.”(Guarulhos – São Paulo – julho/2001)
“Sou ouvinte de seu programa e agradeço por ele existir, porque só assim iremos nos prevenir contra o abuso do comércio”.   (São Paulo – SP – junho/2001)

Antunes – Como ocorreu a sua transferência para Rádio Cultura AM de São Paulo e como tem sido a trajetória até aqui? Você continua estudando?

Cirley – Amigos da minha época do Curso de Jornalismo da UFSC devem se lembrar como eu era (e continuo) fã do compositor mineiro Beto Guedes. Uma das canções interpretadas por ele é uma homenagem a São Paulo. Diz a letra: “Só quem não te conhece, ó cidade, não pode entender; teu portal sem cor, o real  valor que se oculta em suas sombras…” Para mim, era um desafio conhecer e vencer a cidade, descrita na canção como um universo de luzes e promessas. Procurava também uma emissora de rádio com espaço para o jornalismo, já que em Santa Catarina as possibilidades eram mínimas. O rádio e o desafio da cidade grande me trouxeram para São Paulo em 1988. Na Cultura AM comecei como redatora e logo passei a repórter. Desenvolvo pautas nas áreas de cultura, artes, educação e cidadania. A experiência mais prazerosa nos últimos cinco anos tem sido a apresentação do programa Central do Consumidor, no qual consigo viabilizar alguns ideais: a defesa do consumidor, a orientação ao cidadão e a proximidade com o ouvinte. Pela Rádio Cultura AM de São Paulo conquistei alguns prêmios importantes na minha carreira:  O 20º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos com a reportagem “Crianças Sem-Teto: o ABC da Militância”, conferido pelo Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo em 1998. A mesma matéria ficou entre os cinco finalistas do 6º Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo, também em 1998. Em 2002 conquistei o “Prêmio Jornalismo e Responsabilidade Social” do Instituto Ethos, com o Programa Central do Consumidor, que já havia sido finalista do mesmo prêmio em 2001, na categoria mídia eletrônica. E em 2002, novamente finalista do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, com a série de matérias de rádio “Brincando e Vivendo nas Cidades”.

Antunes – E a vida de professora?

Cirley – Há oito anos também sou professora de Redação e Roteiro no Curso de Rádio e Penteado. Tem sido uma missão importante despertar os alunos para as possibilidades que o rádio oferece. A maioria matricula-se no curso pensando em trabalhar na televisão. A cada semestre, ao lecionar para novas turmas, constato que o interesse pelo rádio não passa de um, dois por cento. Mas isso se deve simplesmente ao desconhecimento. Ao longo das aulas, ouvindo exemplos de entrevistas, reportagens e documentários, os estudantes descobrem o que é possível realizar sem o recurso da imagem.  Na FAAP obtive o 2º lugar na Expocom-Intercom, na categoria radiojornal, como orientadora do trabalho “A Guerra dos Mundos”, realizado por alunos do curso de Rádio e TV. A experiência como professora exigiu que eu voltasse a estudar. Estou na fase de conclusão do MBA – Master em Tecnologia Educacional também na Fundação Armando Álvares Penteado. Meu trabalho de conclusão, a ser defendido no dia 30 de outubro de 2004, é uma proposta de criação de um curso de roteiro de rádio e televisão on-line.

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