Terei saudade da vida? Parte 1

Dizem que gente vai e vem novamente. E, quando volta, não pergunta as horas pra ninguém, porque de ninguém se lembra. Mas volta. Às vezes penso: será que essa ida não é igual quando se sai de uma cidade e demora pra voltar, ou não volta mais devido às distâncias? Será que essa ida não é igual quando nos internam no Asilo e não deixam que a gente leve nem aquele chinelinho que não machuca o joanete…? Os parentes dizem: Esse chinelo está muito velho, esse violão é muito grande, esse radiozinho faz muito barulho e lá é uma casa de repouso… E, lá, tem chinelo novo.

Mas eu não queria – penso hoje ainda de olhos abertos – eu não queria sair de lá, da minha casa (minha?) eu não queria ir para lá…

Mas você vai. Então a tal de volta seria como se voltasse para aquele lugar, que calçasse novamente aquele chinelo, que tocasse no mesmo violão, ou desse um abraço nas mesmas pessoas de antigamente e tivesse os mesmos sentimentos para com os amigos e para a família. Mas dizem que, quando se volta, a gente volta outra pessoa, ou animal irracional, ou um pássaro… Nunca uma flor ou uma árvore porque isso é outro assunto.

Sempre existiu na minha vida, na sua vida, na vida de todos, momentos assim em que o pensamento vagueia, não se fixa num só ponto e fica perambulando pelo tempo e pelo espaço à procura de uma antiga sensação. Até de sensações inexistentes, que você inventa, assim como “vai que tivessem feito isso comigo…?”.

É conseqüência da saudade das coisas e das gentes que vêm bulir com a nossa sensibilidade e nosso poder de suportação. É a saudade de coisas remotas, ou mesmo recentes, de pessoas, de gestos, de cheiros ou, simplesmente, de uma terra e de um sabor.

Chega um dia, em que você está assim, sentadinho na sua cadeira preferida e já tão gasta, mas gostosa de sentar, tendo apenas o ar como distância dentro do emaranhado de pensamentos poluindo a sua imaginação.

A distância real, no entanto, estará dentro de nós, meninos que ainda somos eternamente crianças, sentindo o mundo cansado… Sentindo a vida despertar em cada célula no calor do seu carinho, como a música que a gente cantava: Sou um Menino Passarinho, do Luiz Vieira, que era depois da época do Chico Alves, do Carlos Galhardo, da Emilinha Borba, Marlene, Patápio Silva, Jorge Goulart, Nelson Gonçalves, o gago… Chega.

Nesta hora de relembranças, interessante como as coisas são. Você vê e apalpa, e sente novamente aquela pele lisinha do neto que se aproximou, olha para o seu rosto enrugado e, de repente, fica grandão, tão grandão que até assusta!

Não se deixe levar, amigo: é uma visão momentânea porque o cérebro da gente é muito esquisito e prega peças dessa natureza, sem saber que isso machuca por dentro.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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