Todos ao redor da Praça XV

Florianópolis, 1940. Foto acervo Velho Brucho

Florianópolis, 1940. Foto acervo Velho Bruxo

O mundo tem lá seus caminhos imprevistos para chegar aos nossos sonhos. Vindo de Porto Alegre, desembarca em Florianópolis em 1942, o desempregado Ivo Serrão Vieira para se tornar o pai do rádio da capital de Santa Catarina.

Embora chegando de Porto Alegre, Ivo Serrão Vieira é catarinense de São Francisco do Sul, onde nasceu em 11 de março de 1921. No entanto, ainda pequeno, vai com a família morar na capital gaúcha. Lá mesmo, aos 21 anos, tenta ingressar na Rádio Gaúcha. Porém, o diretor artístico da emissora, Rui Figueira, reprova o jovem postulante a um cargo de locutor. Motivo: o sotaque catarinense de Serrão Vieira que salienta um “R” arrastado.

No retorno a seu estado natal, Ivo Serrão Vieira dá-se conta que a Capital está no marco zero da comunicação radiofônica. Assim sendo, uma semana depois de sua chegada à Florianópolis retorna a Porto Alegre a fim de formar uma sociedade com dois colegas para pelo menos colocar no ar em terras catarinenses um serviço de alto-falantes. Ivo Serrão Vieira se une a José Carlos da Costa Gama e a Dionísio Ferreira Derquim para juntos ratearem os 10 contos de réis, que seria o custo inicial do projeto. O pioneiro do rádio em Florianópolis relata: “Fechei negócio com a Siemens do Brasil para a compra dos equipamentos necessários, alto-falantes de rua, fios, microfones e mesa de controle com toca disco, tudo instalado e funcionando, por três contos de réis. Paguei adiantado e tratei de pensar na discoteca – 200 discos da época (78 rotações), com uma música de cada lado, deveriam bastar para começar o negócio e tomei o primeiro ônibus para Florianópolis com a sensação de quem vai ao encontro da glória, da realização total”

Para viabilizar o projeto Ivo Serrão Vieira conta ainda com a situação político-administrativa da cidade a seu favor, pois o prefeito Rogério Vieira é seu tio. Desta forma, a prefeitura libera o alvará para a instalação do sistema de propaganda Guarujá, uma homenagem à região homônima do litoral santista de onde eram emitidos sinais da Rádio Atlântica, muito bem captada em algumas partes de Santa Catarina.

Para convencer o seu tio de que a sua idéia é interessante, Ivo Serrão Vieira argumenta para Rogério Vieira que o sistema de alto-falantes é o ponto de partida para uma estação de rádio na capital do Estado. A isso, o prefeito contra-argumenta que os alto-falantes iriam fazer muito barulho. O sobrinho não deixa por menos e ataca: “Mas é fazendo muito barulho que a gente acorda as pessoas para os problemas, tio. Florianópolis é só uma ponte maravilhosa que liga nada a coisa nenhuma. As autoridades precisam se comunicar com o povo e o povo com o povo. E isso uma estação de rádio faz. Para conscientizar as autoridades é que nós vamos fazer barulho na cidade… bastante barulho. Será um barulho ilhado… mas um dia nossa voz atravessará a ponte e alcançaremos o continente. Então, até o governador virá se servir do nosso microfone”.

Situação regularizada junto à prefeitura, o trabalho de instalação dos alto-falantes é feito de madrugada, em quatro pontos. Um alto-falante fica em cima de uma árvore junto à Praça XV, onde hoje em dia funciona uma banca de revista, e os demais são afixados junto às marquises de casas comerciais. O outro ponto é defronte à Livraria Xavier, na primeira quadra da rua Felipe Schmidt, mas um outro na segunda quadra da mesma rua e um quarto alto-falante é localizado na esquina das ruas Trajano com Conselheiro Mafra, na marquise da loja A Capital.

O estúdio da empresa está localizado nos altos da Confeitaria Chiquinho, esquina da Trajano com Felipe Schmidt, estabelecimento comercial bastante freqüentado na época. A sala é pequena, na qual trabalha o operador em uma mesa de madeira com os dois pratos para rodar os discos. Do outro lado ficam os locutores a postos para ler a propaganda, recados, poesias, esportes e noticiários, principalmente sobre a Segunda Guerra Mundial. Há ainda mais uma saleta para atender as pessoas que vêm conhecer o estúdio, contratar publicidade ou fazer oferecimento musical.

A Empresa funciona das 8 horas até às 20 horas. Depois desse horário a velha Florianópolis adormece. Os oferecimentos musicais são pagos, cerca de cinco mil réis por música rodada, o que ajuda a fazer o caixa da Guarujá. A maioria que oferece uma canção, a dedica a amigos, parentes e, sobretudo, a namorados e namoradas quando da entrada e saída do comércio. Uma outra atração musical do sistema de alto-falantes é Alma Portenha, programa de tangos e boleros. Por sua vez, A Hora Literária tem o comando de Lourival de Almeida, um funcionário do Banco Mercantil, que lê poesias para posteriores comentários do professor Osvaldo Mello. No final do dia entrava no ar, pontualmente às 18 horas, o Instante da Prece, apresentado por Acy Cabral Teive. Neste momento, muita gente se concentra no miolo central da cidade para, compenetrado, ouvir sempre uma oração em exaltação à Virgem Maria, tendo ao fundo a música Ave Maria. “Que seja mais este dia em louvor à Maria”, finaliza o apresentador.

Mas nem todos são unânimes na aceitação do novo serviço. Através da imprensa Rubens de Arruda Ramos faz chacota do serviço em sua coluna “Frechando” no jornal O Estado. Ele apelida os alto-falantes de boca de Jacaré, o que para alguns não é assim tão injusto, face ao fato das caixas que protegiam a aparelhagem parecerem muito com a boca do animal. Além disso, o jornalista resolve fazer um trocadilho com o nome da empresa. A invés de chamá-la de Guarujá, prefere intitulá-la de Maracujá. (Com a participação de Antunes Severo)


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