Tomates verdes fritos

Sinto saudades de quando, chegando dos treinos do Grêmio Esportivo Araranguaense, correndo feito um aloprado (treinava duas ou três vezes ao dia, tanto adorava correr o tempo todo), minha mãe corria a servir meu prato prontinho: enormes quantidades de feijão, arroz e tomates verdes fritos à milanesa (isto mesmo, muito antes do famoso filme!), na falta de carne – que o dinheiro não dava.
Por Aderbal Machado

Sinto saudades da primeira bicicleta – e única! – ganha de meu pai, depois de tempos desejando ter uma e sonhando em como seria “dirigir” pelas ruas do Araranguá. O sonho era tão acalentado quanto ter um carro novo, hoje tão mixuruca. Valeu a pena “lutar” pela bicicleta, uma Monark verde comprada no Elane Garcia, único vendedor da cidade. Vertiam meus 12 anos, vividos à beira do Rio Araranguá, à sombra das bananeiras, debaixo dos cinamomos.
Sinto saudades dos meus amores com o travesseiro, jogando para a frente idéias eróticas de mulheres polpudas, como a Sebastiana, amante morena, viçosa, companheira inveterada de todos os que, na cidade, tinham grana para bancá-la. Longas noites de cabíria, insensatas noites de virgindade lamentada.
Sinto saudades do Campolino, mendigo conversador e asseado, amigo de meu pai, o advogado Telésforo (“Doutor Telésforo”, como respeitosamente o chamavam inclusive juízes e colegas); do Santinho, outro mendigo amigo da mana Icléia, que não pedia esmolas – procurava lenha para “picar” e ganhar o seu, honestamente. Icléia sempre dispunha de “lenha para picar”, embora muitas vezes nem precisasse de lenha.
Sinto saudades do anão Faustinho, folclórico em Criciúma lá nos idos de 50/52, reunindo rodas de gente na Praça central, cantando sempre a mesma estrofe, até hoje ininteligível: “gan, gan, gan, gan, gan…”.
Sinto saudades de quando a gente morou na rua Princesa Isabel, em Criciúma, local ainda isolado, longe do centro, rodeado de matagais e montes de pirita – rejeito do carvão mineral -, com seus campinhos de “peladas” espalhados por todos os lados e por “lagoas” formadas por água da chuva, onde se banhavam todos os mais aventureiros como o Doquinha e Nereide, filhos do seu Doca Serafim, taxista que sobreviveu ao desenvolvimento da cidade. Hoje a rua se confunde com o borbulhante centro nervoso de Criciúma.
Sinto saudades das compras “de caderneta”, o velho fiado sob a confiança do fio de barba, no armazém de “secos e molhados” do seu Luiz Wendhausen, no prédio da Bene Chede, cujo filho, Richard Elias Chede, mora aqui em Balneário Camboriú, e é engenheiro da Epagri.
Sinto saudades dos meus amigos e conhecidos de infância: Juja, Nego Lulu, Nadico, Inchume, Ferrinho, Touceira de Losna, Pé-de-Carne, Sapo, Pinguin, Caveira, Cabeção, Cagão, Matias, Alemão, Curruíra, Cabide, Nozinho, Filhinho, Gancho, Compadre Queto, Totó (meu cachorrinho), Chanico (gato que morreu de velho), Loro (papagaio falante e malcriado), Luso, Tré, Loló, Nego João, Galo Cego, Nego Dido, Galo Velho, Tuca Delegado, Tuca Barbeiro, Bijo, Jóia, Mememo, Cecê, Velho, Queixada, Palhoça, Didi, Foguinho, Porca e outros. Se perguntar pelos nomes, não sei. Só sei da saudade que sinto.
Fonte: http://www.debamachado.blogspot.com/
 


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Por Aderbal Machado

Radialista e jornalista. Nasceu em Araranguá (SC) e iniciou como locutor ao microfone da Rádio Eldorado de Criciúma onde exerceu funções de repórter, redator e de diretor da emissora. Atua atualmente em jornal, rádio, televisão e internet onde mantém o site aderbalmachado.com.br | Reside em Balneário Camboriú/SC.
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