Tony & Louise

Já de caneta na mão, ele hesitou: não, velho Antônio, não é direito o que estás pensando fazer.
Por Flávio José CardozoSe a moça diz na revista que quer se corresponder com alguém entre 30 e 35 anos, alto e bem humorado, que idéia é essa tua de, já com quase 70, mal e mal de mediano tamanho e tantas vezes melancólico, querer escrever para ela?

Molecagem, velho Antônio. Larga a caneta, vai tomar um café, sossega o juízo, não inventa moda.

Tomou o café e voltou pensando: besteira, que mal existe em fazer isso? É apenas um passatempo, mais de 500 quilômetros nos separam. Ela tem 25 anos, se anuncia romântica e divertida, então vou escrever dizendo que tenho 35 e mostrar como é que um homem de 35 trata uma mulher assim.

E botou mãos à obra. Pôs-se a escrever num estilo tão macio que chegou a ficar surpreso. E descreveu-se de um jeito a seu ver tão convincente que, após dar o arremate da assinatura, beijou o papel: Tony, meu rapaz, és um artista.

Em dez dias, recebeu carta de Luísa. Louvou a rapidez do Correio e abriu o envelope numa agitação otimista: tão certo como dali subia um sutil perfume, ali ia encontrar a mais simpática resposta. E encontrou mesmo. Numa letrinha decidida, para não dizer atrevida, Luísa dizia-se encantada com os desejos dele de um relacionamento alegre e maduro. Precisamos de alegria, sim, concordava, a vida é vida sem ela?

Na segunda carta, o velho Antônio dobrou a extensão da escrita e o capricho da letra. Sondou os gostos de Luísa, antecipou alguns dos seus, como um bom vinho, uma dança lenta (mas topava dançar qualquer loucura, deixou claro), passeios com a pessoa certa. Reforçou a idéia da alegria – é verdade, Louise, a vida sem ela não é vida – e assinou-se Tony. Luísa declarou-se emocionada por ser chamada de Louise, aquilo deixava-a tão solta, tão heroína de cinema, e contou que também apreciava  vinhos, danças, passeios. E, dentre os males do mundo, destacava dois: a solidão e a tristeza.

A aventura de Tony e Louise pediria mais espaço. Como condensar numas linhas os dois meses de aproximação, ele a cada carta mais temerário e mais envolvido no que supôs ser só um brinquedo de velho para matar o tempo, ela a cada carta mais seduzida e sedutora?

No segundo mês, as cartas já não esperavam umas pelas outras mas se cruzavam no caminho; nos últimos quinze dias, partiam diariamente. Tivessem telefone e dele os dois não sairiam.

Então, num dia não chegou carta de Luísa, nem no outro, nem no outro, nem nos outros. O velho Antônio atordoou-se. Teria ela sido informada, sabe Deus como, de que não era nenhum moço de 35 anos? Arranjou alguém? Aconteceu alguma desgraça?

Decisão de Tony: vou lá, não sei bem para quê mas vou lá ver Luísa! Não teve uma só dúvida, não titubeou um segundo: vou lá! No ônibus, durante horas, pensou dolorosamente em tudo, em morte, em casamento, na descoberta dos seus quase 70 anos, no horror sentido por Luísa diante da farsa descoberta.

Foi o primeiro a saltar do ônibus, correu ao endereço dela, a casa estava fechada. A vizinha disse que Dona Luísa tinha ido para o hospital. Hospital? Sim, coitada, mas parece que já melhorava.

Quarto 312. Antônio bateu. Entrou. Ninguém mais havia além duma mulher na cama.
– Louise? – falou a meia voz.

Ela virou-se, surpresa de ouvir aquele nome tão da intimidade deles, meu Deus, um nome que só alguém usava. Olhou-o sem acreditar no que via.
– Tony?
– Louise?
– É o Tony mesmo?
– Sim, e você é mesmo a Louise?

Ambos fizeram  sim com a cabeça.
– Estás melhor? – ele perguntou antes de mais nada.
Pelo sorriso, ficava claro que ela se sentia melhor, que era uma mulher forte.
– Estás ótima – ele disse, rindo com gosto, rindo, rindo, calculando que ela devia ter uns 60, talvez um pouquinho mais, mas nem parecia.
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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