Transmissão das Cerimônias da Semana Santa

Esta semana vivi uma experiência carregada de emoção: a transmissão das cerimônias da Semana Santa realizadas no Vaticano, para a Rádio Itatiaia.
Por Nair Prata

Como eu já tive a oportunidade de contar aqui na coluna, trabalhei durante 17 anos na Rádio Itatiaia, que é conhecida como “a rádio de Minas”. A vida acadêmica me levou para outros caminhos, mas este ano, aproveitando a minha estada aqui na Europa, o comunicador José Lino Souza Barros me convidou a acompanhá-lo nas transmissões.
O José Lino faz esta transmissão há 35 anos e, só de ficar perto dele, já é uma aula de jornalismo! Além disso, há toda a emoção envolvendo as celebrações, pois eu sou católica, freqüento a igreja e estar pertinho do papa e fazer uma transmissão lá de dentro do Vaticano foi uma experiência e tanto.


Nair e José Lino.

Antes de ir para Roma, porém, fiz uma escala em Madri. A capital espanhola nesta primavera esbanjava charme e alegria. Turistas de várias partes do mundo enchiam as ruas da cidade, que já ostentava um clima de quase verão. Como em toda a Europa, a Espanha celebra a Semana Santa com toda a pompa e religiosidade. Mas, além das atividades religiosas, o espanhol oferece ao turista carinho, receptividade e lugares encantadores, como a Plaza Mayor, por exemplo, um local que dá vontade de ficar por horas a fio.
De Madri, fui para Roma, a Cidade Eterna. Nesta Semana Santa, Roma recebeu 750 mil turistas, sendo 250 mil estrangeiros. Por todos os lugares, dia e noite, era possível encontrar bandos de peregrinos do mundo inteiro visitando os monumentos, comprando nas lojas, comendo nos restaurantes e lanchonetes. Roma tem incontáveis lugares que fazem a alegria do turista, mas tem um que eu admiro particularmente: a Fontana di Trevi.
A Fontana di Trevi, como o próprio nome diz, é uma gigantesca fonte, conhecida como a mais bela de Roma. O projeto é de Nicola Salvi e foi concluído em 1762. A figura central da fonte mostra o deus Netuno, ladeado por dois tritões. Um deles luta para dominar um rebelde cavalo-marinho. O outro tritão conduz um animal mais dócil, que simboliza as marés. Acho a fonte de uma beleza majestosa, mágica e é impossível para mim admirar sem emoção aquele cenário grandioso. A qualquer hora, a fonte está sempre lotada de turistas e uma multidão repete diariamente o ritual de jogar uma moedinha em suas águas. Segundo a lenda, quem vai à Fontana de Trevi deve, de costas, jogar uma moeda na fonte e formular três desejos. Um deles deve ser… voltar à Fontana di Trevi. Eu acredito que dá certo. E você? Eu já havia visitado a fonte em outra oportunidade, pedi para voltar e nesta Semana Santa meu desejo foi realizado. Novamente repeti o ritual de jogar a moedinha. Estou torcendo para que Netuno não se esqueça de mim… para que eu possa voltar à Fontana di Trevi.


Nair na cabine de rádio.

Mas o grande ponto de convergência dos turistas em Roma é, certamente, a Basílica de São Pedro, uma belíssima igreja que não desaponta os visitantes nos quesitos religiosidade e valor artístico. São Pedro, o primeiro chefe da Igreja Católica, está enterrado lá. A história conta que no século II foi construído um santuário no local onde estava enterrado o corpo de São Pedro. A primeira basílica foi feita no ano 349, mas no século XV esta igreja já estava desmoronando e, em 1506, o papa Júlio II assentou a pedra da nova igreja. A Basílica de São Pedro demorou mais de um século para ser construída e possui 11 capelas e 45 altares. É linda por dentro e por fora.
Vivenciar as celebrações da Semana Santa em Roma foi uma grata experiência sob dois aspectos: do ponto de vista profissional e do ponto de vista pessoal. O Vaticano tem know how em celebrações para grandes multidões e tudo fluiu com muita segurança, mas em clima de paz e religiosidade. Fiquei conhecendo também a Rádio Vaticana, que, além das transmissões, atende a imprensa do mundo inteiro. Fomos recebidos lá pela Irmã Denise, uma simpática paranaense que já vive há muitos anos na Itália.
Três celebrações eu quero comentar com você, leitor do Caros Ouvintes. A primeira é a Via Crucis, que foi realizada na sexta-feira no entorno do Coliseum. O estádio, que há milênios era usado para sacrificar os cristãos, foi palco desta cerimônia, na qual o papa Bento XVI foi caminhando e rezando as 14 estações do calvário de Jesus. Obviamente, a multidão se acotovelava em volta. O papa disse palavras muito bonitas nesta celebração, mas um trecho eu quero destacar. Segundo ele, “a Via Crucis é a via da misericóridia, a via da salvação, e deve ser renovada todos os dias.”
Outra bela celebração foi a Vigília Pascal, realizada numa capela da Basílica de São Pedro, mas acompanhada do lado de fora, na praça, por milhares de pessoas. A praça já estava toda enfeitada com flores doadas pela Holanda e dois telões enormes permitiam à multidão acompanhar o que se passava lá dentro. A Vigília começou às 22h e foi uma linda cerimônia. Antes de entrar na praça, todo mundo teve que passar pelo detector de metais, mas o espírito era de grande religiosidade.
Por fim, o ponto alto foi a Missa de Páscoa, que começou às 10h30 do domingo e durou uma hora e meia. Depois da celebração, ao meio-dia em ponto, o papa Bento XVI foi para aquele grande balcão central da igreja de São Pedro e proferiu a bênção “Urbi et Orbi” em várias línguas, inclusive o português. Na sua fala, o papa inicialmente lembrou o aspecto religioso da Páscoa, explicando a parte bíblica da ressurreição. Depois, entrou no plano mais terreno e falou da África e da América Latina. Foi muito aplaudido quando pediu a paz no mundo e o fim do terrorismo.
Eu e o José Lino chegamos cedo ao Vaticano, pois com o movimento de turistas na cidade, não dava para facilitar e chegarmos atrasados. A praça já estava cheia, linda e muitos peregrinos portavam bandeiras de seus países. Passamos pelo detector de metais e fomos para o setor onde ficam as cabines de rádio e TV. Foi a primeira vez que eu entrei lá dentro mesmo. De uma outra vez, eu visitei a igreja e o Museu do Vaticano, mas nesta Semana Santa tive o prazer e a emoção (meu coração estava disparado!) de conhecer áreas que têm acesso limitado.
As cabines ficam ao final de um amplo salão, que tem as paredes recheadas de obras de arte. Este salão é cheio de janelas e, no meio, fica o balcão de onde o papa abençoou a multidão. Contemplar, lá de cima, a praça de São Pedro lotada foi uma das emoções mais tocantes desta viagem. O espetáculo é belíssimo e, vendo toda aquela gente, lembrei-me da minha família, dos meus amigos, das pessoas queridas que eu gostaria imensamente de dividir aquele momento.
Outra experiência que me tocou profundamente foi voltar a falar na Rádio Itatiaia, ainda mais ao lado do José Lino. A emissora foi a minha grande escola de rádio e de jornalismo e eu tenho uma saudade imensa deste trabalho e do contato com os ouvintes. Também foi muito bom ver o papa logo depois que ele terminou de conceder a bênção. A expectativa dos jornalistas é que ele recebesse a imprensa, como faziam os outros papas, principalmente o João Paulo II. Mas Bento XVI, apesar de completar 79 anos naquele domingo de Páscoa, de ser a sua primeira celebração da Semana Santa, não conversou com os jornalistas. Foi pena…
Na volta de Roma, ainda passei por Santiago de Compostela, cidade espanhola que fica pertinho aqui de Braga (duas horas e meia de ônibus), e que eu queria muito conhecer. Santiago é um dos maiores centros de peregrinação do mundo e, pelas ruas, a todo momento pode-se ver pessoas com grandes mochilas às costas, entrando e saindo das igrejas. Aliás, a cidade é repleta de igrejas, cada uma mais bonita do que a outra e o centro histórico ainda conserva o jeito e até um cheiro medieval. Enfim, voltei para Portugal, para as duas semanas que me restam desta estada aqui onde tenho tomado banhos de estudo e cultura.


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Por Nair Prata

Jornalista formada pela UFMG, Mestre em Comunicação pela Universidade de São Marcos e Doutora em Língua Aplicada pela UFMG. Trabalhos 18 anos em rádio. É professora do Centro Universitário de Belo Horizonte onde leciona no Curso de Jornalismo. Escritora, tem vários livros publicados.
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