Trapiche Miramar: uma arena de criação

Caros leitores, esta semana passeei entre as colunas desérticas do Memorial ao Miramar. Onde fica? Ali! Na Praça Fernando Machado. Trata-se daquele monumento construído em homenagem ao saudoso Trapiche “assassinado” em 1974 – como disse Adolfo Zigelli.
Por Marilange Nonnenmacher

Bem, não consigo deixar de sentir saudades desse lugar que nem mesmo conheci, mas que em razão da sua história e de suas várias facetas me enche de nostalgia. Aliás, é uma dessas facetas que apresento hoje a vocês!
 

 
Acervo: Biblioteca Pública do Estado de SC. O Estado 07-09-1972

Olhem só! O Trapiche já foi teatro. Dentre seus muitos usos e significados, ele foi um lugar de produção artística e cultural e, nesse tempo, revestiu-se, inclusive de teatro. Enquanto agonizava, já sentindo as areias do Aterro sugarem-lhe as águas, ele acolheu, em 1972, o primeiro teatro de arena do Estado, o Teatro Trapiche. Pois é, depois de abrigar os boêmios, poetas, escritores, jornalistas, enfim, toda uma gama da intelectualidade local que, por décadas, o tinham, inclusive, como “lugar de criação”, antes de sua demolição, o espaço serviu como cenário para atuação de um movimento autônomo de resistência e criação.
Naquela época, um grupo de atores, necessitados de um lugar para seus ensaios, investiram num arrojado empreendimento: transformar o velho e carcomido trapiche em um teatro de arena, o que eventualmente poderia evitar seu fim. Como outros grupos de teatro amador da cidade, o Teatro Estudantil Catarinense – TECA enfrentava dificuldades para ensaiar suas peças, pois tinha que dividir espaço e horário com as companhias profissionais que vinham em excursão a Florianópolis para se apresentarem no Teatro Álvaro de Carvalho. Em razão disso, o grupo que constituía o TECA, juntamente com o jornalista Mauro Amorim e o ator e diretor teatral Sérgio Lino, jogaram-se nessa empreitada, visando instituir um novo lugar para a apresentação de espetáculos. Um lugar que acalentasse uma nova linguagem cênica, pautada numa postura mais interpelante e reflexiva. Esse grupo era composto pelos atores: Valério Carioni, Dulce Fossari, Vera Collaço, Álvaro Ramos, Carmen Fossari, Cao de Fávero, Maria Luíza de Fávero, Clécio Espezim, Luiz Carlos Zykleviski, Balsini, Thaís Binder e Edmar Pernes.
Uma característica do teatro de arena era não se deixar entregar ao modismo ou à estagnação. Sua verdadeira vedete era o texto, pois a atenção se concentrava nos atores e sobre seus desempenhos. Isso em razão da ausência de cenários e pela necessidade de aproximação entre o público e o palco. As performances buscavam uma maior interatividade entre atores, texto e público, na expectativa de que emergissem novas linguagens questionadoras da realidade, possíveis de serem exploradas nas representações teatrais. Diferentemente do modelo teatral oferecido pelo TAC, o Arena era um “teatro alternativo”, montado no Miramar.
A técnica do Arena respondia aos anseios de pessoas que questionavam aquele momento político, pois possibilitava integrar a realidade política contextual e ideológica, além de fornecer material para reflexões sobre o novo. O projeto incorporava, em simultaneidade, uma manifestação contra o cerceamento de liberdade, configurando-se numa luta artística e política. O ator e diretor teatral Sérgio Lino, o enfant terrible do teatro catarinense, convicto do empreendimento que ousava contra os preceitos da ditadura, liderou o grupo por suas convicções políticas e ideológicas.
Pois bem, o antigo Trapiche Miramar é um símbolo do rompimento da maritimidade local, do afastamento do mar do centro histórico da cidade e da construção do Aterro da Baía Sul. Mas esta é uma longa e intensa história. E quanto ao Arena, devo concluir informando que o elenco, apesar das dificuldades, estreou em 07 de setembro de 1972 com a peça “O Livro de Cristóvão Colombo”, de Paul Claudel.


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Por Marilange Nonnenmacher

Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi professora colaboradora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Dedicou-se mais recentemente à pesquisa e estudo de hábitos e costumes da cidade de Florianópolis e da Ilha de Santa Catarina onde reside.
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2 respostas
  1. Carlos Alberto Schröeder dos Santos says:

    Apesar de meu nome não constar na pesquisa, eu participei dessa peça.

  2. Maria Lizete Lima says:

    Eu tbm estava entre os atores deste magnífica peça. Meu nome é Maria Lizete Lima
    Saudades deste tempo maravilhoso!

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