Três momentos de saudade

“A gente lembra, só por lembrar, alguém que a gente um dia perdeu… // Sôdade inté que assim é ruim, eu tiro isso por mim e vivo sempre a sofrer. // Ai quem me dera vortá pros braços do meu xodó, sôdade assim faz doê, amarga qui nem jiló…”
Por Agilmar Machado

“Qui nem jiló” (de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga), gosto muitas vezes amargo da saudade; Saudade às vezes doce como um beijo de mel com o gostinho da flor, quando buscamos saudosas lembranças que nos alimentam o coração e a alma (“Lábios de mel”, de Waldir Rocha com Ângela Maria).
E, como felicidade não escolhe lugar… “Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura, lá no morro… barracão é bangalô” (Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins com o Trio de Ouro: Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas).
Três momentos de saudade que guardamos carinhosamente no coração, materializados há mais de 50 anos em nossa jornada no rádio.
O primeiro vai dedicado à memória do velho filho do “seu” Januário dos oito baixos, lá dos confins de Exu, Pernambuco: Luiz Gonzaga (Quando eu vortei lá pro sertão eu quis mangá do Januário com meu “fole” prateado: só de baixos, 120; ponto preto bem juntinho, como um nego “empariado”…Mas de passage por Granito, antes de fazer bonito fôro logo me dizendo: “de savá cá rancharia, de fazer o bodofó, Januário é o maió!”… e foi ai que me falô meio zangado o veio Jacó: “Luiz, respeita os oito baixo, Luiz respeita os oito baixo… Luiz, tu pode sê famoso, mas teu pai é mais tinhoso e com ele ninguém vai, Luiz, Luiz, respeita os oito baixo do teu pai”.).
Pois esse astro supremo da música folclórica do nordeste um dia eu vi com seus dois acompanhantes (o “Zabumba” – o apelido de seu instrumento – e o “Catamilho” – este, do triângulo), quando abria sua sanfona e mostrando sua dentadura branca como marfim entoava: “Vai, boiadeiro que a noite já vem, pega o teu gado e vai pra junto do teu bem…”.
Foi nas escadarias do principal clube no centro da cidade. Não tinha platéia porque Adhemar de Barros, então candidato à presidência pelo PSP, aglomerava quase toda a população a pouco mais de duzentos metros…
Não foi preciso começar os versos de “Asa branca” e Adhemar acabou sozinho em seu palanque, pois todos debandaram em busca de um lugar mais próximo do Rei do Baião!
E foi nesta mesma época que Ângela Maria chegou à cidade. Eu havia ganhado de papai uma caneta Parker 21, vermelha e muito elegante. O povo fez o táxi onde a “Sapoti” se locomovia para o hotel (Ford 48 do Pedrinho Mello), parar no meio da rua: todos queriam autógrafos.
Eu estava quase subindo no estribo do carro quando a linda morena perguntou: “Vamos lá, quem tem uma caneta???”. Pois olha, o primeiro a receber o autógrafo fui eu. E o doce perfume da Ângela, depois de esquentar a minha caneta de tanto autógrafo, ficou impregnado nela.
Assim conservei a caneta por longo tempo intacta… só pra cheirar e sonhar com aquela estrela de primeira grandeza a quem até hoje aplaudo…
Meu hotel em Urussanga tinha poucos aposentos, especialmente para gente de fora, pois quase todos os que ali se hospedavam eram mensalistas.
Um dia cheguei para almoçar, olhei a mesa do promotor Olivério Gomes para fazer-lhe companhia e papear. O Gomes não estava ainda, mas em seu lugar um corpulento e sorridente cidadão a quem, de cara, reconheci: Nilo Chagas, do recém-extinto Trio de Ouro!  Descontraído como sempre, cheguei a sua mesa e fiz a clássica pergunta: “Você não é Nilo Chagas?”. Gentilmente me disse, – “Senta aí que preciso de alguém pra conversar”.   E o papo se prolongou por muito tempo. Nilo estava enfrentando solo a vida artística.  Ficou no hotel por vários dias. Nesse meio tempo conseguimos o cinema local e deixamos a rádio a sua disposição para entrevistas e a necessária divulgação e transmissão direta do espetáculo artístico.
Dalva de Oliveira, que com seu marido, Herivelto Martins, completava o Trio de Ouro, eu viria a conhecer já em Laguna…
Por tudo isso e dezenas de outros astros e estrelas que conheci e apresentei (Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Anita Otero, Nelly Lujan, Gregório Barrios, Sílvio Caldas, Vicente Celestino/Gilda de Abreu, Carlos Gonzaga, Pery Ribeiro, Ratinho II, da dupla Jararaca e Ratinho, Sérgio Félix, Casino de Sevilla, Miguel Caló, e tantos mais) chego a pensar que valeu a pena minha jornada pelo rádio…
Pelo menos tenho vivos em minha memória não somente três, mas dezenas de MOMENTOS DE SAUDADE…
Para matar a saudade:
:: Qui nem jiló Ivânia Catarina
:: Lábios de Mel Angela Maria e Fagner
:: Canta Dalva de Oliveira acompanhada do Trio de Ouro, como nos tempos do Agilmar
 


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Por Agilmar Machado

Iniciou suas atividades profissionais no rádio em 1950, tornando-se jornalista em 1969. Atuou nas principais emissoras do Sul de SC como redator, produtor e apresentador de programas jornalísticos. Historiador, é co-autor História da Comunicação no Sul de SC. É membro fundador da Academia de Letras de Criciúma/SC.
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