Três momentos de uma mesma balada

Uma carta a Pierre Bourdieu. O 4° semestre de jornalismo corria normalmente. Então, a coordenadora do curso e também professora da disciplina de Jornalismo na Televisão, Daniela Germann pediu que fizéssemos uma resenha crítica do livro Sobre a Televisão, do sociólogo Pierre Bourdieu. A análise de Bourdieu concentra-se na televisão francesa. Daí o motivo porquê o autor cita emissoras de televisão como a TF1 e jornais impressos como Le Monde, Le Figaro. Num subtítulo que fala sobre debates encontrei o nome de Nicolas, o Sarkosy, ex-presidente da França. Nunca estive nesse país cuja Capital é a morada da torre Eifel e meu conhecimento sobre o que aquela população consome em se tratando de conteúdo televisivo é imensamente nulo. Dito isto – aqui me sinto forçado a citar Descartes para quem o pensamento, o bom pensamento carece de muito dito isto, ou seja, de tempo. Como em momento algum estive na França, cabe-me a pedido da professora Germann entrar na onda de Bourdieu e tentar transportar sua análise para esse Brasil tropical onde nasci, vivo e de onde não pretendo tirar os pés, tampouco o pensamento, visto que posso ficar sem os pés numa tragédia.

Primeiro o peixe grande. E foi nesse exato momento, em que escolhi o modo de abordagem para minha análise, que o meu problema começou e que atrasei a entrega da resenha em semanas. Como analisar a televisão nesse brasilsão da Rede Globo? Ou, falando regionalmente, da nossa querida Rede Brasil Sul, vulgo RBS? Não tenho nada contra a nossa líder de audiência da família Marinho que, dizem as más línguas, pode ter surgido com financiamento do golpe de 1964. Golpe esse que desencadeou uma ditadura. Pelos golpistas, esse momento singular da história brasileira foi mansamente batizado de revolução, se é que uma revolução como aquela pode chamar-se mansa. Não sei se isso tudo é verdade, mas ao ler a biografia de Assis Chateaubriand, escrita pelo jornalista Fernando Moraes, essas afirmações ficaram, se não me falha a memória, no mínimo implícitas. 

O fato é que Chatô foi quem criou a primeira televisão no Brasil. Ela chamava-se TV Tupi. O Dr. Assis não precisava da tevê para tornar-se um homem poderoso visto que sua cadeia de jornais, os Diários Associados, já o consolidara nessa posição, mas ele ficou maravilhado com aquele milagre tecnológico. O homem mais influente do Brasil poderia falar e ser ouvido com mais facilidade. Além disso, cada gesto poderia ser visto. Seriam exploradas as minúcias da expressão e a palavra não dita. O número de pessoas atingidas poderia ser ampliado e a audiência multiplicada. É verdade que os brasileiros não tinham aparelhos televisivos naquela época. Mas isso não era problema, Chateaubriand mandou trazê-los. Havia ainda um calhamaço de outras vantagens que a tevê tinha sobre o jornal impresso, muitos dos quais não me lembro e não vou me esforçar para isso, pois são evidentes.

Pois bem, eu falei tão mal e porcamente do império de Chatô e agora já devo dizer que ele começou a ruir. Mas é que dado o adiantado dos parágrafos devo voltar a falar das organizações Globo de outro doutor, o Roberto Marinho. Sim, uma história muito tem a ver com a outra. Quando ruía o Assis, progredia o Marinho que somou forças ao inicial movimento de revolução dos generais do exército, e, ao que tudo indica, com o dinheiro norte americano. Se isso é verdade, repito, não sei, mas é uma das versões sobre a criação da tevê no Brasil. Versão reforçada no documentário Muito Além do Cidadão Kane. Mesmo essas duas referências podem estar manipuladas por gente que inveja o império global. Digo isso não por desconfiar desse ou daquele, mas porque, diferentemente de Bourdieu não tenho armas, instrumentos científicos, técnicas, métodos para ter qualquer certeza sobre acontecimentos tão distantes de mim. Nos estudos de análise do discurso essa circunstância é chamada de posição-sujeito. Reconhecendo que a minha é de um reles estudante universitário, permaneço em cima do muro, onde cachorro nenhum poderá me morder.

Sendo, ou não, a nossa Rede Globo filha da ditadura, a imponente emissora está aquém de elogios ou críticas positivas, em se tratando dos anos 2000, época em que eu já estava fora do ventre materno há pelo menos dez anos. Lembro-me, aliás, de que quando era dono dessa idade, costumava assistir ao Big Brother Brasil. O senhor Bourdieu muito falou em Sobre a Televisão a respeito de tal índice de audiência. Em se tratando de audiência, o BBB é um extraordinário objeto de análise e puxa vida, é produto da nossa imponente Rede Globo. Mas há objetos ainda mais recentes como a história de Carminha (Adriana Esteves) e de Nina, Rita, sei lá (Débora Falanella). A novela estourou índices de audiência. Vi muita gente saindo do armário, digo, pais de família, tornando-se noveleiros. Na verdade, até eu parei para espiar alguns capítulos, o que corrobora com a popularização da ideia de que Avenida Brasil foi um implacável sucesso. Aliás, não me lembro de encontrar qualquer referência a novelas no texto de Bourdieu. Bendita seja a França.

A análise da antiga casa. Procuro criar um diálogo desta minha rasa análise sobre o comportamento da televisão brasileira com o trabalho de Bourdieu. Não só porque a professora precisa ter a certeza de que fiz a leitura, mas também para poder falar de experiências vividas há alguns meses atrás. Devo lembrar-lhe de que quando procurei analisar a televisão brasileira na posição de objeto, citei a Rede Globo e também a RBS.

Também tenho pouco domínio para falar sobre esse objeto, como pede uma boa análise. Entretanto, nesse caso, sinto-me mais seguro, pois frequentei as dependências dessa empresa por dois anos. Primeiro como menor aprendiz, bons tempos. Depois como assistente de redação. Arrependo-me até hoje de ter lutado por essa promoção. Antes, eu trabalhava apenas por quatro horas, depois dobrei a rotina e comecei a perceber coisas demais no ambiente jornalístico de uma grande empresa. Como exemplo primeiro, vou relembrar do subtítulo A circulação circular da informação do livro de Bourd (Chamei-o assim por força da nossa intimidade). Nessas oito páginas, Bourd critica o fato de que as informações se repetem em jornais concorrentes. Isso ocorre tanto na televisão como na mídia impressa. (Aliás, Bourd não falou em momento algum sobre o rádio, estranhei, mas devo agradecer, pois estou isento de ter que falar sobre a CBN, por exemplo).

O fato é que a informação também é circular aqui nessa terra brasileira que tem palmeiras onde canta o sabiá e as aves que aqui gorjeiam, gorjeiam como as de lá. Peço perdão a Gonçalves Dias por estragar-lhe o verso com essa medíocre rima. O fato é que um jornal não vive sem as manchetes do outro. Enquanto menor aprendiz, uma das minhas funções no Diário Catarinense era distribuir os jornais nas mesas dos meus colegas da redação e a leitura do Notícias do Dia, jornal da Ric, afiliada da Record, aqui em Florianópolis, era indispensável aos profissionais pensantes do Diário Catarinense, da RBS, afiliada da Globo. E a prática não era apenas comum aos meus colegas. Conheci uma ex-estagiária (função ingrata essa) do Notícias do Dia e, certa vez ela me disse que os profissionais da empresa dela brigavam para ler o jornal da minha antiga empresa.

Bourd, a coisa também anda meio preta no Brasil. Lamento que não seja diferente aí na sua França. Mas há resquícios de esperança para a nossa imprensa. Eu não sei quais são, mas vi esses sinais quando conheci o tal projeto de media-criticism de Alberto Dines, o editor-responsável do Observatório da Imprensa e também quando chegou as minhas mãos a Revista de Jornalismo ESPM, cujo projeto comentei no artigo Um Observatório da Imprensa Impresso. Mas Bourd, lamento que a universidade ainda não seja a propulsora das grandes mudanças para quem faz jornalismo televisivo ou para quem o consome. Essa nossa visão, Bourd, é um tanto utópica, e dialoga com uma passagem de seu livro. Você dizia que a televisão francesa produz fast-thinkers e, eu não deveria dizer, mas se entregasse essa resenha à professora no prazo pedido, era exatamente assim que eu iria me sentir. Atrasei a entrega da resenha à professora Germann em quase um mês e consegui enxergar-me provocado por tua obra, tal qual você desejou que acontecesse.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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